Lembro-me ainda como estávamos todos nervosos nos dias anteriores ao esperado 9 de setembro de 2010. Ainda mais porque tínhamos um plano arquitetado, um projeto com uma ideia forte e, na época, compartilhada por todos. Não me lembro se já contei essa história de formação do Nonada no próprio site, mas vou aproveitar o momento propício (2 anos hoje) para isso. No primeiro semestre de 2010, eu ainda era estudante de jornalismo e estagiário da editoria de Cultura do Jornal do Comercio aqui de Porto Alegre e me encontrava em um momento um pouco estranho. Ao mesmo tempo em que gostava da rotina profissional, começava a me perguntar se o jornalismo e, mais especificamente, o jornalismo cultural, ainda mais o produzido em larga escala, deveria ser tão agarrado a agenda, ao serviço e as notas. Sei que tudo isso decorre de um longo processo industrial, mas… Onde estavam as reportagens, as críticas mais aprofundadas, ou, pelo menos, onde estava a vontade para fazê-las? Parte dessa minha visão vinha de uma experiência que tive em uma bolsa de pesquisa sobre jornalismo cultural na faculdade, no qual o objeto de estudo era o jornal Diário do Sul, uma publicação existente em Porto Alegre durante pouco tempo da década de oitenta, mas de muito boa qualidade e que deixou uma história marcante para o jornalismo cultural local. Não fiquei muito tempo na pesquisa, mas as leituras e as entrevistas com alguns dos profissionais me marcaram e me fizeram refletir sobre essa parte do jornalismo e os seus conceitos.

Então, nesse panorama, lá estava eu em maio de 2010, quando descobri que, muito em breve, iria acontecer o II Congresso Internacional da Revista Cult em São Paulo. Com a intenção de reunir vários especialistas e profissionais da área para debater sobre o papel da mídia e do Estado na cultura, além de discussões sobre a crítica de música, teatro, literatura, artes plásticas, entre outras coisas. O evento foi um chamariz para a minha vontade de saber mais sobre o assunto. Rapidamente, resolvi me tocar para lá e de quebra conhecer um pouco (bem pouco) de São Paulo. Foi durante o congresso, nesse momento, durante as palestras e o debate e todo aquele clima que me surgiu a vontade de fazer algo parecido. Caiu a ficha de que poderíamos tentar fazer algo. Ficou-me claro que o jornalismo cultural que estava proposto a fazer deveria refletir, selecionar e se aprofundar nas pautas. É claro que isso não é algo muito fácil e sim até entendo que algumas pessoas considerem um objetivo pretensioso, mas era o que acreditava e ainda acredito. E fazer isso de uma forma  independente (sem nenhuma grande empresa por trás, financiando) é mais complexo ainda. Entretanto, eu sabia que poderia contar com pessoas que apoiariam a ideia e resolvi ir atrás de colegas de curso e jornalistas já formados que provavelmente se interessariam no projeto. Pois mais do que apenas constituir um site, meu objetivo principal era escutar as opiniões dos colegas sobre a área, dividir experiências para, assim, construir algo novo.

Confira a evolução do logo do Nonada, um trabalho da webdesigner Iris Rosa: 

 

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E foi assim que reuni em torno de dez pessoas na equipe inicial. A maioria deles vindo da da Faculdade de Comunicação da UFRGS e da PUCRS, a maioria ainda estudantes perto do fim do curso, alguns já formados. Reunimo-nos quase que semanalmente de maio a setembro, concluindo o projeto, escolhendo o layout, debatendo muitas ideias e também perdendo muito tempo em algumas discussões. Mas as coisas são assim, não? Foi uma ótima época em que principalmente aprendemos bastante um com os outros e conseguimos construir uma proposta de site arrojada e com uma ideia que segue até hoje: buscar um jornalismo cultural aprofundado, procurando trazer pautas diferenciadas, não caindo tanto na agenda. Enfim, perceber que a discussão do jornaismo cultural vai além do conteúdo e da forma, mas também pelo caminho de uma função social específica ligada às questões culturais tanto no sentido de  pretender “elevar intelectualmente” o espírito dos seus leitores através das Artes e das Letras (a cultura no sentido greco-latino clássico), como de tratar a cultura em suas inegáveis raízes antropológicas. Assumir essa postura, para nós, não se trata de algo paradoxal, ao contrário: é o que deve nos motivar a trazer pautas diferentes. O jornalismo cultural, aliás, é a área dentro do jornalismo que mais dá espaço para se trazer conhecimentos e assuntos de outros campos. O bom jornalismo cultural faz isso. O bom jornalismo cultural tenta fazer algo de diferente, de novo, pois assim é capaz de se abrir percepções e explorar melhor os assuntos. Por isso trazemos conteúdos diferentes também e tratamos como manifestação cultural tal quadrinhos, videogames, economia criativa.   

Parte da Equipe do Nonada em ação para o primeiro ano de aniversário.

E é uma coisa simplesmente incrível de se pensar que já passou dois anos desde a primeira vez que o site foi ao ar. É uma sensação que eu como editor aprendiz não consigo explicitar muito bem. Diria que é excelente ver uma ideia tomando forma, ganhando vida, sendo compartilhada. Ao mesmo tempo, tem sido um aprendizado e tanto driblar todas essas dificuldades de se fazer um jornalismo independente, de procurar sempre novas colaborações e, assim, novos diálogos com diferentes tipos de pessoas. Ainda mais no online. Este é outro ponto importante: o modo como acreditamos que se possa fazer jornalismo cultural online sem cair em questão de achismos e, mais uma vez, de agenda. A qualidade sempre deve vir antes do número de cliques. É certo que nessa altura já tivemos vários altos e baixos, momentos em que o site parecia um pouco abandonado, mas, então, revigorado, surgia novamente para alçar novos vôos. Mas, ora, a vida é assim também, não?

 Juntamente a isso, nesses dois anos oficiais de publicação completados hoje, gostaríamos de agradecer também aos parceiros do Nonada, a Revista Bastião e o Jornal Tabaré que disponibilizaram os prêmios para a comemoração: um ano de assinatura da Revista Bastião e 6 meses do Jornal Tabaré (Acompanhe o sorteio no nosso Facebook). Duas excelentes publicações do cenário independente de Porto Alegre que, mais do que isso, se espalharam e conquistaram muitos leitores em vários lugares. Nós do Nonada, admiramos e respeitamos muito o trabalho dos colegas. Para comemorar também os dois anos, desde o início do mês estamos compartilhando algumas matérias antigas em álbum no nosso Facebook intitulado “Dois anos de Travessia”. Além disso, semana que vem, na sexta-feira começaremos uma série de entrevistas com artistas em diferentes fases da vida.

Acompanhe-nos!

 

 

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