Em visita guiada, o curador associado da 30ª Bienal de São Paulo falou sobre o planejamento de uma das principais mostras de arte do circuito internacional.

Por Raquel Chamis*

Fotografias do artista islandês Sigurdur Gudmundsson integram o evento (Crédito: divulgação)

“A Bienal é um projeto naturalmente fadado ao fracasso”. Assim André Severo, curador associado da 30a Bienal de São Paulo, iniciou sua fala em meio ao Pavilhão Ceccillo Matarazzo, na capital paulista, em uma visita guiada com a professora Maria Helena Bernardes, artista de Porto Alegre. Severo expôs o plano curatorial da mostra intitulada “A Iminência das Poéticas” e falou sobre a busca por alternativas a um problema recorrente nos espaços expositivos: o acúmulo de obras. “O modelo baseado em trabalhos dispostos lado a lado não pode dar certo. Tende ao excesso”, explicou.

O trabalho do taiwanês Tehching Hsieh (Crédito: divulgação)

Seria fácil que o prédio projetado por Oscar Niemeyer parecesse repleto: são cerca de três mil obras que representam as trajetórias de 111 artistas de diversos países do mundo (a última Bienal do Mercosul apresentou 186 obras de 105 nomes). A saída encontrada pelo enxuto grupo de curadores – composto, além de Severo, por Luis Pérez-Oramas e Tobi Maier – foi transformar os três andares do pavilhão em um “espaço para circular”. “Diferente das exposições que se caracterizam pelo acúmulo, tínhamos a utopia de que ao percorrer a Bienal o visitante não se sentisse obrigado a ver todas as obras. Nossa intenção é que, ao encontrar um artista que faça sentido, a pessoa sinta-se livre para ir embora”, comentou. Uma forma de prestigiar um momento que, segundo o curador, tem sido bastante raro: ter experiências que sensibilizem.

A configuração da mostra foi pensada para que as pessoas se soltem, perdendo-se no sinuoso prédio localizado no Parque do Ibirapuera. A disposição dos trabalhos segue um sistema de “constelações” em que cada sala contém séries de obras de um mesmo autor. Em “Iminência das Poéticas” não há um tema, mas sim um motivo para visitas, que foram imaginadas como mero ponto de partida para a reflexão. Esta decisão é coerente com a proposta dos curadores que, apesar de reconhecerem a existência de conexões entre trabalhos, não queriam uma narrativa marcada pela leitura dos vínculos. Nas palavras de André Severo, “colocar as relações em uma caixa mata a exposição”.

A "arquitetura móvel" do israelense Absalon (Crédito: divulgação)

Nesta edição, a Bienal de São Paulo apostou em uma composição horizontal representativa do atual momento da arte. Ao agregar nomes como o israelense Absalon – que trabalha o conceito de arquitetura móvel em “cápsulas para viver na cidade” –,  o  taiwanês Tehching Hsieh – cujas performances de longa duração misturam vida e arte –, e o islandês Sigurdur Gudmundsson – que em fotografias faz aproximações entre o homem e o ambiente –, os curadores compartilharam com os artistas a tarefa de pensar a Bienal. O método gerou surpresa a quem não está mais habituado a interferir na disposição e montagem dos próprios trabalhos: “O convite foi estendido aos artistas no sentido de dar-lhes autonomia. Ao curador não cabe pensar por eles”, contou Severo.

O percurso desde o planejamento curatorial até a almejada circulação dos visitantes agrada ao curador que acompanha a visita. Severo é também artista (entre diversos trabalhos, participou de residência na penúltima Bienal do Mercosul com o projeto Areal – intervenções no Rio Grande do Sul). “Esta Bienal é diferente do que foi pensada no início. Mas é melhor: agora é real”, concluiu.

 A 30ª Bienal de São Paulo acontece até o dia 9 de dezembro.

* Colaboradora do Nonada, em visita à Bienal de São Paulo.

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