Suposto tenha sido homenageada em profusão no último dia 10 de dezembro, data de seu nascimento, Clarice Lispector é, hoje, uma das escritoras mais estudadas nas universidades, cultuada nas redes sociais e admirada por legiões de fãs, tanto aqui como no estrangeiro. Escrever sobre Clarice Lispector, contudo, jamais será tarefa considerada fácil. Absoluto desafio. Que fica mais evidente quando apanhamos as 80 e poucas páginas de Água viva, longe de ser sua melhor obra, mas talvez seja o mais bem acabado testamento, ou testemunho vivo, de sua empresa na águas profundas da Língua Portuguesa e dos sentidos.

Dito isso, é sempre bom avisar que Água viva jamais poderá ser lido como um romance linear. Em momento algum temos ali uma “história”; nada é contado no sentido tradicional dos romances; e o texto, ao final, é um fluxo de consciência, uma conversa com o leitor na qual a escritora nos coloca diante do paradoxo do escrever: afinal para quê escrever. Este é o novelo principal desse pequeno romance que mais parece “anotações de um discurso amoroso”, onde a escritora reflete sobre as palavras, seus conteúdos monolíticos, e declara, abertamente, o efeito que a escrita produz nela. E, claro, em nós. O estilo de Clarice Lispector  foi identificado pela crítica desde o seu primeiro romance – Perto do coração selvagem, título que parecia falar sobre a própria forma vulcânica e randômica de escrever de Clarice – e é aquele estilo de quem escreve como se quisesse aprender, ali, na naquele momento. A escrita como uma construção permanente. E o leitor a se perguntar: cadê a história? Pouco importa, a propósito, o enredo, porque o sentido de tudo é fazer o leitor sentir sem jamais dizer isto a ele. Daí porque ser sua linguagem final, o produto que ficou gravado em definitivo nos seus textos (textos jamais revistos por ela, que nunca relia seus romances) apareça ao leitor como se o texto fosse escrito por alguém que está “atrás do pensamento” da narradora. Aliás, aqui o leitor se depara com outro paradoxo, na medida em que vive pela leitura a instável perplexidade da escritora. Tanto que a expressão – Atrás do pensamento  – teria seria o primeiro título pensado por Clarice para Água viva. Nada mais perfeito para definir sua escrita.  

A obra de Clarice Lispector tem sido objeto de inúmeros estudos acadêmico, ainda hoje, passados mais de trinta anos de sua morte. Contudo, seus escritos ainda se constituem num abismal desafio. Isto porque o recanto de sua escrita ainda parece inalcançável, apesar dos esforços dos copiadores que se dizem escritores. Desse viés impossível de ser catalogado numa primeira segunda ou terceira leituras, percebemos que sua escrita situa-se numa confluência de paradigmas, vivos e presente em seus maiores romances, antes e depois de Água viva, a saber: Perto do coração selvagem, A maçã no escuro, A paixão segundo G.H., Laços de família e o último, A hora da estrela. Essa confluência revela-se ao leitor quando este se depara com a bela construção arquitetônica que a literatura de Clarice Lispector alcança a partir da diluição entre aquilo que é escrito/narrado e aquilo que é sentido/captado pelo leitor. Dessa forma, se por vezes podemos encontrar uma escritora centrada no mais absoluto naturalismo (os contos), outras vezes nos deparamos com aspectos até surreais que aproximam a narrativa do paradoxo (os romances), mas nada disso impede que tenhamos momentos de lirismo numa espécie de “realidade adivinhada” (as duas últimas novelas escritas), estrutura composta por uma narração em forma de fluxo de consciência que questiona tanto o real como os sentidos. De tudo isso, é praticamente impossível classificarmos dentro a escrita de Clarice Lispector como naturalista, realista ou simbolista, principalmente quando o texto flui como se fosse um poema em prosa. E este último é precisamente o caso de Água viva.

Se Água viva pode parecer uma obra até certo ponto “singela” dentro da vasta obra de Clarice Lispector – quem não lembra da dona-de-casa que de repente diante de uma dúvida existencial se vê assumindo a forma de uma barata?–, acredite, leitor, talvez seja exatamente o contrário. Ao longo de poucas e enxutas páginas somos jogados para dentro da própria construção do romance, como se a escrita de Clarice ainda estivesse viva, fosse como água e se diluísse diante de nós, por meio de parágrafos calcados em sólidos substantivos. Tudo a tal ponto que de imediato, desde as primeiras linhas, já passamos a fazer parte da angústia da escritora, que ali, no remoto ano de 1973, produzia uma obra ímpar para coroar seus leitores com uma espécie de chave para o entendimento e compreensão de toda complexidade de sua obra – se é que alguém até hoje já conseguiu captar toda essa exuberância de sentidos. E aqui convém lembrar o depoimento do diretor de teatro gaúcho Luciano Alabarse, que certa vez afirmou numa entrevista já ter lido 20 vezes Água viva. Pouco? Leia e dilua isto você mesmo. Ou dilua-se você mesmo.

Edgar Aristimunho é escritor e revisor, com pós-graduação lato senso em Letras pela UniRitter. Tem publicado pela editoria Dom Quixote o livro de contos O Homem perplexo (2008) e participou da antologia Ponto de Partilha”. Escreve no blog O Íncubo (http://oincubo.blogspot.com)

 

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