Fotos: Rafaela Ely

Com os acordes vigorosos ao violão de “A vida inteira”, música inédita, Nei Lisboa abriu os shows da sua já tradicional temporada de fim de ano no Theatro  São Pedro, em Porto Alegre. Foram duas apresentações que aconteceram no último final de semana, dias 1 e 2 de dezembro,  sob o título Telas, tramas e trapaças do novo mundo – provável nome de seu próximo álbum, o décimo de sua carreira, ainda sem data de estreia.

A primeira música já indicou a linha que o compositor escolheu para costurar o seu novo trabalho, a da crítica à contemporaneidade em sua mistura do real com o virtual: “Dois mil amigos vão lhe dar toda certeza/ Dez bons motivos para amar sua beleza/ E enquanto tudo acontecer/ Assim tão perto de se ver/ Diga em que mundo está você”, afirma a letra. Uma crítica marcada pela ironia, mas também pela leveza e bom humor, em diversas canções.

Nei Lisboa apresentou músicas inéditas no Theatro São Pedro

O Nonada acompanhou o show de domingo, que quase lotou o teatro de apreciadores curiosos para saber o que de novo o Nei tem feito. Algumas músicas antigas não tão badaladas – fora a famosa “Telhados de Paris”, a segunda do setlist, colocada estrategicamente no repertório como uma acolhida agradável ao público por um terreno conhecido – foram intercaladas com as inéditas, criando um diálogo bem inusitado entre momentos diferentes da trajetória do compositor. Composições principalmente do seu último disco, Translucidação, de 2007, como “Confissão” e “A verdade não me ilude”, foram revisitadas.

O repertório exigiu uma escuta atenta às letras, significativas a partir do momento cultural atual. Pontuando a apresentação com citações explicitamente encontradas pelo Google, plataforma que foi caracterizada de diferentes formas pela fala do artista ao longo da noite – o “literato”, o “consultor sentimental”, o “geógrafo” Google –, a forma de Nei de olhar para a atualidade foi ficando clara. A primeira citação trazida foi de ninguém menos que Jean Baudrillard, o filósofo da hiper-realidade, em um momento de releitura do apocalipse de São João:O que o homem quer não é mais a imortalidade da alma, em que não acreditamos mais, mas a imortalidade imediata”.

Ainda que sendo um show em que o texto das músicas foi fundamental, as melodias e arranjos não ficaram em segundo plano. Com o acompanhamento dos talentosos Luiz Mauro Filho (piano e teclados), Giovani Berti (percussão e bateria), Clovis Boca Freire (baixos), Paulo Supekovia (guitarra e violão) e Fernando Sessé (participação especial na percussão), Nei mostrou como, sem se prender a rótulos e estilos, consegue passear livremente pelos ritmos. A noite teve momentos para o blues, o jazz, a MPB, o samba… – este último ritmo muito bem representado pelo novo arranjo da canção “Translucidação”. E como não poderia deixar de ser, as composições antigas e novas de amor tiveram seu espaço.

Os músicos que acompanharam Nei Lisboa no show também participarão da gravação do novo disco

Depois de tantas inéditas e “lados Bês”, o bis não poderia ser mais apropriado: um medley reunindo os sucessos “Nobody Knows”, “Tapete Voador”, “Faxineira”, “Baladas”, “Verão em Calcutá”, “Pra te lembrar”, “Relógios de sol”, “Cena Beatnik, “Por Aí”, “Romance” e, finalmente e mais uma vez, “Telhados de Paris”. Ficou no público a vontade de escutar as músicas inteiras, mas a provinha já valeu.

Apesar de estar ancorado no cenário da música local, e de ter entre seus maiores sucessos canções que releem a cidade de Porto Alegre em suas diferentes nuances e momentos culturais, Nei se mostra renovado em seu novo trabalho, tratando de temas humanos em um território diferente, que é em grande medida imaterial. Crítico e irônico, mas também marcado por um tanto de leveza, o novo álbum parece ser o álbum de um músico, mais do que local, atual.

Passeando entre suas telas, tramas e trapaças, Nei apresentou ao longo da aproximada uma hora e meia de show a sua interpretação sobre um novo mundo, fazendo refletir sobre as relações estabelecidas com o virtual nesse mundo, sem abandonar uma boa dose de bom humor. Pelo jeito, valeu a pena a espera de seis anos desde o lançamento do último disco de inéditas do músico.

O próximo disco de Nei Lisboa será o décimo de sua carreira

 

*Um dos momentos destaque do show foi a interpretação de “Dona do seu nariz”, uma delicada canção inédita. O canal oficial de Nei Lisboa no Youtube disponibilizou um vídeo da música. Se ficou curioso para escutar um pouco no novo trabalho do compositor, aproveite e aprecie: 

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