Nos mergulhos literários que reservamos para o verão, nada melhor do que combinar duas coisas: livros extensos e leitura leve. A fórmula perfeita para os períodos de descanso, quando não queremos muita complicação intelectual, mas, por outro lado, dispomos de tempo para textos mais longos. Barba ensopada de sangue, do escritor Daniel Galera (Companhia das Letras, com três cores de capa), é o tipo de livro que nos engraça com uma história cheias de peripécias, reviravoltas, entrementes e arremessos ao narrar a aventura de um professor de natação que decide abandonar a cidade grande para ir morar num balneário de poucos habitantes em busca de um mistério: a morte de seu avô, ocorrida de forma estranha e confusa anos antes.

A história contada em Barba ensopada de sangue contagia o leitor. Composto de mais de 400 páginas, o livro, no entanto, flui. A leitura é fácil, somos apanhados desde o começo. De início, somos acordados por uma notícia perturbadora e com um mistério. Ao saber da intenção de seu próprio pai de não continuar mais vivendo e dar um fim à própria vida, um jovem professor de natação decide partir em direção à cidade litorânea de Garopaba (SC) em busca de um mistério mencionado por seu pai na última conversa entre ambos: algo sobre a misteriosa morte do avô, há muitos anos, naquele balneário. Desconfiando de que a história não foi bem contada, ele parte de forma abrupta para lá. Parte, mas leva consigo o peso da desilusão resultado pelo desfecho tumultuado de sua última relação amorosa (o irmão lhe tomara a namorada), este professor de natação vende suas coisas e decide morar num pequeno apartamento em Garopaba durante o próximo inverno afim de investigar, junto aos moradores mais antigos, as circunstâncias da morte do avô. Contudo, suas perguntas não são bem-vindas na comunidade, envolta em mistérios e relações submersas num jogo de esconde-esconde que vai do começo ao fim do romance. As rotinas estranhas do recém-chegado professor (incluindo banho de mar com um cachorro em pleno inverno), bem como suas novas amizades, formadas ao longo da estação fria, também trazem desconfianças para os moradores da pacata cidade (seria mesmo?). A complicar o fato de que o professor não consegue gravar o rosto de ninguém por conta de um problema neurológico, e isso cria para ele inúmeras situações constrangedoras. Aos poucos, contudo, ele vai descobrindo que há outra cidade por trás daquela; que há muito mais histórias escondidas; que as pessoas não são o que parecem e o que dizem ser; que falsos amigos se apresentam; que novas desilusões amorosas lhe aguardam; que terá que inclusive brigar por seu cachorro (herança do pai); que a vida enfim continua… Mas ao fim e ao cabo ele permanecerá convicto de sua decisão de abandonar tudo que deixou para trás: o mau caratismo do irmão, a dissimulação da cunhada e o desprezo da própria mãe.

O livro é um convite para viajarmos na jornada interna do protagonista (Crédito: Divulgação)

Barba ensopada de sangue traz o DNA da boa literatura brasileira contemporânea. De fato, Daniel Galera levanta-se hoje como um dos representantes mais consistentes dentre os escritores brasileiros com mais aceitação de público. Tendo nascido em 1979 em São Paulo, vive hoje em Porto Alegre. Estreou na literatura em 2001 com Dentes Guardados, pela revolucionária editora gaúcha Livros do Mal, responsável pelo lançamento de gente como Paulo Scott (Ainda orangotangos) e Cristiano Baldi (Ou clavículas). Ganhou projeção com os romances Até o Dia em que o Cão Morreu e Mãos de Cavalo, além de Cordilheira, seu último romance de projeção nacional. Contudo, foi sua recente inclusão entre os 20 autores selecionados pela prestigiada revista inglesa Granta que permitiu a Galera não somente uma maior visualização no exterior, como também novas traduções, compromissos literários e afins, mas também –  e principalmente – o reconhecimento de um autor que já produziu bons livros. Apostar na leitura de seu primeiro projeto de grande fôlego é apostar no fôlego da geração surgida após os anos 1990, onde encontramos escritores consagrados como Marcelino Freire, Marcelo Mirisola, Joca Reiners Terron, Michel Laub, Adriana Lunardi, entre outros.

Para além – e muito além – de um romance de fôlego sem fôlego, o texto de Daniel Galera arremetido em Barba ensopada de sangue é um convite para viajarmos na jornada interna do protagonista que o levou a obsessão compreender de fato o que se sucedeu com seu avô,  na distante e e já não mais existente Garopaba dos poucos habitantes. O mundo mudou, o passado ficou para trás, e agora o professor de natação está a nos dizer que não devemos nos prender a isso tudo… Antes, que seria muito bom não esquecermos os valores éticos contidos em nossas opções. As mesmas, feitas lá atrás. As mesmas, que ensopam nossas barbas hoje.

 Edgar Aristimunho é escritor e revisor, com pós-graduação lato senso em Letras pela UniRitter. Tem publicado pela editoria Dom Quixote o livro de contos O Homem perplexo (2008) e participou da antologia Ponto de Partilha”. Escreve no blog O Íncubo (http://oincubo.blogspot.com)

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