O Nonada segue a sua cobertura do Oscar 2013 com o filme No, indicado a Melhor Filme Estrangeiro. Acompanhe-nos para ficar por dentro dos filmes que tem chances (ou não) de levar alguma estatueta para casa.

Filme retrata a campanha que mobilizou a população chilena a votar no referendo contra Pinochet. (Crédito: divulgação)

No (Idem, Chile/França/EUA, 2012)

Direção: Pablo Larraín

Roteiro: Pedro Peirano, baseado em peça de Antonio Skármeta.

Com: Gael García Bernal, Luis Gnecco, Alfredo Castro, Néstor Cantillana, Antonia Zegers, Marcial Tagle, Jaime Vadell, Paulo Brunetti, Pascal Montero e Alejandro Goic.

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Como sair de uma tragédia como uma ditadura militar? Como a população responderá a isso? Quem conhece a história recente da América Latina sabe que os casos foram diferentes em todos os países: da pressão popular exercendo influência direta ou de forma mais conciliatória. Mas e se os habitantes de um país tivessem a chance de escolher se preferem manter ou acabar com uma ditadura por meio do voto, como se daria a comunicação com essas pessoas? Apenas por este problema, já vejo No se tornando, ao lado de obras como Mera Coincidência (1997), Entreatos (2004) e Arquitetos do Poder (2010), um novo filme que professores de Marketing Político adorarão trabalhar em suas aulas.

Baseado numa peça de Antonio Skármeta (autor do livro que inspirou O Carteiro e o Poeta, de 1995), No enfoca a complexa campanha do “Não” no referendo que deslegitimou a permanência do ditador Augusto Pinochet no poder, em 1988. Enfocando a enorme tensão provocada não só pela dissidência com relação ao governo totalitário, mas também entre as diversas correntes políticas da oposição, o filme traz como centro o publicitário René Saavedra (Bernal), que, sem qualquer experiência com algo do gênero, vê-se diante da tarefa monstruosa de vencer não apenas a natural desconfiança de um povo reprimido por 15 anos de uma sangrenta ditadura, mas também a resistência dos militantes à suas ideias.

(Crédito: divulgação)

Em seu terceiro filme sobre o regime militar chileno depois de Tony Manero (2008) e Post Mortem (2010), o diretor Pablo Larraín faz escolhas interessantes para tornar os acontecimentos tão genuínos quanto possível: empregando uma razão de aspecto próxima do 1:33.1 (similar à televisão da época), o cineasta busca aproximar o visual do filme ao vídeo da década de 80, resultando numa estética bastante lo-fi. Em sintonia com esse intento, estão imagens superexpostas nas sequências externas e ajustes rápidos de foco, como se estivéssemos testemunhando algo similar a um found footage, o que torna a recriação de época ainda mais convincente. É pena, portanto, que a montagem entrecortada acabe prejudicando essa intenção, servindo apenas para chamar a atenção e lembrar que o filme tem um diretor (ao menos, os exibicionismos de Larraín se concentram nos primeiros 20 minutos de projeção, não comprometendo o filme como poderiam. A partir daí, a montagem torna-se mais orgânica e eficaz).

Entendendo que a obra é mais sobre o acontecimento que retrata do que sobre os personagens, Gael García Bernal investe numa composição discretíssima, acertando justamente por não tentar chamar atenção para si mesmo: suas interações com a ex-companheira e o filho pequeno, entre outros personagens, o estabelecem como um sujeito absolutamente comum que, embora se oponha a Pinochet, não toma um papel ativo na luta política (ao contrário da ex-esposa, que o critica por isso, embora a relação entre ambos seja amigável). Saavedra não é alguém movido por paixões ideológicas, mas isso não quer dizer que o sujeito não mude nem aprenda com suas experiências – algo simbolizado por uma frase dita três vezes ao longo do filme pelo publicitário, todas com significados e contextos distintos. Outro destaque é a atuação de Alfredo Castro, que, como o chefe de Saavedra, vive um homem que escapa a definições simplistas: apoiador ferrenho do regime pinochetista, o sujeito despreza as escolhas políticas de Saavedra, mas isso não o impede de tomar uma atitude surpreendentemente nobre com relação ao rapaz, em certo instante da projeção (o que, claro, não o exime de sua ignorância política).

Corretamente evitando uma postura panfletária (a menos que se opor a Pinochet seja considerado panfleto, e não bom senso), No aborda, em sua narrativa, uma questão do marketing político que revela-se particularmente delicada naquela situação: é sabido, por quem estuda esse fenômeno, que a propaganda negativa tende a causar maior rejeição para aquele que a produz. No entanto, como sair de uma ditadura violentíssima como a de Pinochet sem apontar o dedo para os culpados das mortes e torturas? Ao investir numa campanha cujo mote é a alegria, René não consegue entender porque as vítimas diretas do regime ficam (compreensivelmente) ofendidas. Eventualmente, o publicitário consegue equilibrar as mensagens positivas e os ataques ao governo, provocando fortes reações na cúpula governista. Mas, por mais que essa positividade (necessária para levar a causa adiante) não combine com o passado trágico do país, a propaganda da oposição de fato é muito superior à da ditadura, com peças atraentes e dinâmicas cujos elementos lembram, em certos momentos, a narração “hipertextual” de Ilha das Flores e o famoso “Lula Lá” da campanha brasileira do ano seguinte.

Igualmente interessantes são as reuniões dos governistas, que sem dúvida percebem a impopularidade de Pinochet, embora obviamente jamais revelem este pensamento. Desta forma, é uma decisão acertadíssima que o ditador surja apenas em imagens de arquivo, deixando evidente a tarefa impossível daqueles homens de transformá-lo num vovô gentil e carismático – e a voz estridente de Pinochet o torna um “produto” ainda menos atraente do ponto de vista do marketing político. Sem um discurso atraente que justifique a superioridade de sua causa (“Pinochet fez deste um país em que qualquer um pode ficar rico. (pausa) Não todos, mas qualquer um.”, diz um apoiador), o que resta à campanha do governo é a desqualificação de seus oponentes por meio de paródias dignas de dó, além de alarmismo sobre a “ameaça comunista” que só funcionaria com fãs de algum primo ideológico da revista Veja.

Didático sem deixar de ser tenso e envolvente, No dificilmente vencerá o Oscar em sua categoria (Amor é o franco favorito), mas a exposição promovida pela premiação é, sem dúvida, importante para divulgar a um público mais amplo um filme importante que, de outra forma, ficaria limitado ao torrents baixados por meia dúzia de cinéfilos. Bons filmes sobre esse período tão sofrido nunca são demais.

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