Fotos: Fernando Schlaepfer e Hick Duarte/I Hate Flash

O tempo passa rápido mesmo. Há dois anos, tinha início o primeiro M/E/C/A/Festival. Para quem achava que a iniciativa não daria certo, que seria fogo de palha, a surpresa:  a terceira edição do evento, realizada no último sábado, 26 de janeiro, teve tanto ou mais público que as anteriores. Dá para dizer que, de certa forma, o M/E/C/A/ está se tornando um festival mais… pop.

Erick Endres, da Dis Moi, surpreendeu com sua habilidade nas seis cordas

Antes de ser apedrejado, deixem-me explicar. Primeiro, pela questão do público. Observando-se mais atentamente, muitos dos presentes no Hotel Fazenda Pontal não eram exatamente fãs de música indie, e sim pessoas que estavam curtindo as férias em alguma praia no entorno e ficaram curiosas com a realização de um festival ali por perto. Ainda assim, dá para dizer, sem medo de errar o “chutômetro”, que pelo menos metade dos presentes já esteve em uma das outras duas edições.

A questão da comercialização de produtos de marcas famosas, com direito a estandes e até mesmo a logo estampado no fundo do palco, foi alvo de polêmica na semana passada, especialmente por causa de um texto publicado em um site do centro do país. Mas convenhamos: só mesmo assim para se manter o preço acessível do ingresso – R$ 50,00 no primeiro lote, o mesmo que se pagaria para ver apenas uma das atrações principais em Porto Alegre.

Quantas pessoas pagariam para ver apenas o show do Friends? Do Dragonette? Ou do Citizens!? São bandas novas, que ainda estão formando seu público, e têm mais a ganhar tocando para cinco mil pessoas, mesmo dividindo o palco com outros artistas, do que fazendo shows “exclusivos” na capital, para 80 gatos-pingados. Por isso, juntá-las em um festival é uma iniciativa interessante para todos, músicos ou fãs.

Carlinhos Carneiro deu uma canja no show da banda gaúcha Tess

A questão do cast… Ah, isso é sempre um problema. Até hoje há quem lamente que o festival começou bem, com Vampire Weekend e Two Door Cinema Club, e desde então vem decaindo. Mas a “obscuridade” das atrações desta última edição não deveria ser um atrativo para o público indie? De qualquer forma, o festival tem um séquito fiel, que parece não estar interessado somente no que rola em cima do palco, mas em “comungar” com aquele sentimento de pertencer a uma tribo, mesmo que todos queiram se sobressair de alguma forma, seja pela roupa ou pelo corte de cabelo. Sim, no M/E/C/A/ a moda anda lado a lado com a música, e isso é algo mais evidente a cada ano.

No palco, o sol de rachar prejudicou a abertura da banda lajeadense The Trial, que tocou para praticamente ninguém. Às três e pouco da tarde, o povo estava mais preocupado em conhecer as atrações não musicais. As coisas mudaram um pouco com a Dis Moi, que tem nada menos que dois descendentes de músicos na formação: a vocalista Bela, filha de Luciano Leindecker, da Cidadão Quem, e o guitarrista Erick, filho de Fredi Endres, da Comunidade Nin-Jitsu. A pressão de ter pais famosos não abalou os moloques, que mandaram muito bem – especialmente Erick, que, aos 15 anos, já é um virtuose das seis cordas. A última das atrações gaúchas no palco foi a Tess, formada por músicos rodados como Daniel Tessler (voz e guitarra) e Jojô (guitarra), e que está prestes a lançar seu primeiro disco. Mesmo com um som mais clássico, o grupo conseguiu a atenção do publico, que já se aglomerava próximo ao palco para ver as atrações principais. Destaque para a participação do arroz de festa Carlinhos Carneiro, da Bidê ou Balde.

Com muita ginga, Holger promoveu uma verdadeira micareta indie

Incensada como uma das grandes revelações da música brasileira nos últimos anos, a paulista Holger divide opiniões. Quem conheceu a banda em seu primeiro disco, Sunga, e acostumou-se com os caras cantando em inglês, tem certas reservas quando ouve versos como “Praticar o amor/o amor sensual/ polinizar a flor/do amor tropical”, de “Ilhabela”, faixa-título do segundo álbum. É a linha tênue entre o cool e o brega, se é que essa linha não foi rompida com a ascensão de Gaby Amarantos e a recente “redescoberta” de nomes como Raça Negra  e Luiz Caldas. De qualquer forma, o rock com toques tropicais da banda tem uma inegável atmosfera de verão que mexe com o público, o que pôde ser percebido nas inúmeras rodas de dança formadas na pista. Uma verdadeira micareta indie.

Não havia no cast gringo nenhuma atração de grande impacto, tampouco um headliner. Assim, não foi de se estranhar que o Friends fosse a primeira banda de fora a subir no palco. Somente a presença da bela e carismática Samantha Urbani, em sua roupa colante (e provocante), já seria suficiente para provocar alvoroço. Mas a voz da moça também é irresistível e, sejamos sinceros, o grande diferencial do grupo nova-iorquino. A performance empolgada, com direito a vários convidados dançando no palco, e músicas grudentas como “I’m His Girl” e “Friend Crush”, fizeram com que o Friends causasse uma ótima impressão.

Samantha Urbani levou uma pequena multidão ao palco no show do Friends

Depois de uma estreia elogiadíssima em disco (o excelente Here We Are), a confirmação da presença do Citizens! no M/E/C/A/  foi bastante saudada pelos mais antenados no cenário indie. No palco, entretanto, o quinteto londrino começou um pouco morno – para não dizer frio. “Ah, eles são assim, meio blasé mesmo, procura te informar”, vocês poderiam alegar. Mas não sou muito de conferir o show antes pelo YouTube, e preferi avaliar este sem nenhum condicionamento. E o início empolgou não pela performance da banda, apática, mas simplesmente porque o debut do Citizens! é uma coletânea de hits. Felizmente, o gelo foi quebrado na metade do show pelo vocalista Tom Burke, que pareceu perceber que tinha o público na mão e começou a se soltar. Daí, a coisa funcionou bem, seja em singles como “True Romance” e “Reptile” ou mesmo em covers (“Missing”, do Everything But the Girl). Para alívio do fãs, o Citizens! também é bom de palco. Só precisa pegar no tranco.

O Dragonette é a prova cabal de que o M/E/C/A/ é pop, sim, senhor. Corram para a Wikipedia: “Dragonette é uma banda canadense de electropop/New Wave/Synthpop”. Na descrição, a palavra “pop” está escrita duas vezes. E, mesmo que a fonte seja duvidosa, o som e as dancinhas não mentem, remetendo a artistas como Ke$ha e Katy Perry, para as quais muitos dos presentes certamente torceriam o nariz. Daí é uma questão de embalar o produto e saber vendê-lo, tanto no underground quanto no mainstream. Porque a música do Dragonette é pop até o talo. E a vocalista Martina Sorbara é 99% do show. Os outros músicos ficam obscurecidos pela iluminação, numa execução aparentemente automática do que se ouve em estúdio. Martina, felizmente, dá conta do recado sozinha, dançando e agitando a plateia com melodias chicletes como “Let It Go”, “Right Woman” e “My Work Is Done”.

Após um início frio, Citizens! acordou e acabou fazendo um belo show

A noite terminou com o duo britânico Flight Facilities justificando o hype em cima deles e botando todo mundo pra dançar com um set matador, e os paulistas do Database, que também fizeram bonito e levantaram os que ainda resistiam na pista depois das 3h.

Se gosto musical é algo um tanto quanto discutível, há outras coisas que são praticamente unânimes em relação ao M/E/C/A/Festival. Por exemplo: a localização de todos os banheiros químicos em um único lugar – o mesmo do ano passado –, distantes do palco, não é lá muito favorável. Já a segurança estava ok, mesmo com certos exageros (ouvi o relato de um rapaz que foi revistado por ter ficado no banheiro “mais tempo do que o necessário”), enquanto a promessa de mais diversidade na área de alimentação, prometida em 2012, foi cumprida. A mancada mesmo foi o cancelamento de última hora, sem maiores explicações, do show da Zulu Winter. E não é a primeira vez que esse tipo de coisa acontece: em 2012, a banda Boy foi excluída do cast às vésperas do evento.

Martina Sorbara, do Dragonette, dá conta do recado praticamente sozinha

Entre alguns erros e outros tantos acertos, o M/E/C/A/ deu um grande passo para se consolidar no calendário de shows do país, já que conseguiu aumentar seu público mesmo com atrações não tão hypadas quanto às das edições anteriores. E o segredo, talvez, seja mesmo o tino comercial dos organizadores, que transformaram o festival em uma marca. Isso não chega a ser um problema, desde que a música não seja deixada em segundo plano. Afinal, por mais legais que sejam as demais atrações, é por causa da música que todos estão lá.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments