É muito difícil escrever sobre cinema quando você raramente fala sobre o assunto de forma aprofundada. Não sou um crítico profissional e, confesso, nunca fui o maior “rato de locadora” da turma. Parando pra pensar melhor, em dez anos de jornalismo não lembro de ter escrito uma única resenha de filme. De música, dúzias; de literatura, quadrinhos e teatro; algumas. Mas não me recordo de uma resenha sobre cinema, o que é uma vergonha. Bom, uma vez avisados, é opção de vocês continuarem a leitura desta coluna – que também não é uma resenha.

Então, amiguinhos, vamos falar de… Quentin Tarantino. Ok, ok, ninguém mais aguenta ouvir falar no cara, ainda mais nesta época de Oscar, com Django Livre em todos os cinemas e o sujeito dando entrevista em todas as publicações cool. Mas ele merece.

Explico-me com uma pergunta: quando é que alguém vai ao cinema para assistir a um filme não só pelo filme em si, mas, principalmente, pelo diretor? Woody Allen talvez cause esse tipo de reação. Almodóvar também. Mas, convenhamos, não com o mesmo impacto de um Tarantino. Além de ser de uma geração mais contemporânea, o sujeito é praticamente o criador de um estilo – mesmo que esse estilo seja uma mistura de outros tantos que vieram antes.

Foi isso o que me moveu a controlar a ansiedade, não fazer o download de Django e assistir à estreia do filme numa sala escura, em uma tela gigantesca. Ver um filme de Tarantino na telona é essencial. Depois, você até pode ver em casa, em blu-ray, DVD ou mesmo num arquivo “high definition” de computador. Mas, na primeira vez, veja no cinema, para poder realmente capturar a atmosfera não só da história, mas do universo tarantinesco.

Sim, “tarantinesco”. Aliás, essa é uma característica que difere o cineasta de seus companheiros de profissão. Ouvimos falar de expressões como “tarantinesco”, “tarantinismos” etc. Mas não ouvimos algo semelhante, por exemplo, sobre um esforçado, porém pouco brilhante amigo de Tarantino chamado Robert Rodriguez. Isso porque Rodriguez não tem metade da capacidade criativa do colega, não consegue dar uma assinatura a seus trabalhos com tanta personalidade e nem mesmo… Bom, deixa o cara pra lá. O fato é que não existe um universo “rodrigueano”.

Outra prova de que o diretor é foda: temos um elogiadíssimo filme concorrendo ao Oscar (não na principal categoria, é verdade) chamado O Mestre. Alguém “não rato de cinema” sabe dizer, sem pestanejar ou consultar o Google, quem o dirige?  Uma injustiça com o excelente Paul Thomas Anderson, mas acho que me fiz entender.

A produção é parca (são apenas sete longas em 20 anos, levando em conta que os dois volumes de Kill Bill somam um só e que À Prova de Morte, inicialmente um média-metragem, tem quase duas horas), mas Tarantino não tem nenhum trabalho comprometedor em seu currículo como diretor. E, quando surge uma ponta de decepção, é porque a expectativa era alta demais.

Django, por exemplo, vem dividindo os críticos mais porque não há nada de tão surpreendente do que pela sua suposta inferioridade em relação a outros filmes do cineasta. Afinal, os diálogos brilhantes, a trilha sonora escolhida a dedo e a violência estilizada, algumas das principais marcas das películas “tarantinescas”, estão lá, embaladas sob a forma de um spaghetti western que não deve nada aos produzidos nos áureos tempos do estilo.

Se depender do próprio Tarantino, o nível se manterá. Afinal, ele declarou recentemente que pretende encerrar a carreira após ter feito dez filmes. Restariam, então, apenas três. Levando em consideração que isso pode levar uns dez anos, imagina-se um mundo em que todos veem filmes em seus tablets, ou em equipamentos muito mais sofisticados. Não importa. Enquanto houver um trabalho de Tarantino sendo filmado, ir ao cinema continuará sendo uma experiência obrigatória.

Leia aqui a resenha de Django Livre, pelo editor Rafael Gloria

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