O Nonada segue a sua cobertura do Oscar 2013 com o filme Os Miseráveis, indicado nas categorias Filme, Ator (Hugh Jackman), Atriz Coadjuvante (Anne Hathaway), Canção (“Suddenly”, de Claude-Michel Schönberg, Herbert Kretzmer, Alain Boublil), Direção de Arte, Figurinos, Maquiagem e Som. Acompanhe-nos para ficar por dentro dos filmes que tem chances (ou não) de levar alguma estatueta para casa.

Hugh Jackman e Anne Hathaway, como Jean Valjean e Fantine, foram indicados ao Oscar 2013 em categorias de atuação (Crédito: Universal Pictures/Divulgação)

Les Misérables, Inglaterra, 2012

Diretor: Tom Hooper

Roteirista: William Nicholson

Com: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter

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“Look down, look down”, cantam os pedintes, os pobres e, logo no início de Os Miseráveis, os trabalhadores das galés. A adaptação do diretor Tom Hooper (O Discurso do Rei) do musical homônimo (peça original de Claude-Michel Schönberg, Alain Boublil e Jean-Marc Natel, transportada para o inglês por Herbert Kretzmer), chama o olhar do espectador justamente para os que estavam abaixo, talvez invisíveis, no abismo entre as classes sociais da França do início do século XIX. Assim como o livro de Victor Hugo, lançado em 1862, que inspirou o musical, o filme que estreia nessa semana no Brasil explora não só o sofrimento dos tantos jogados à margem, mas também a redenção pela generosidade, pela luta em prol da transformação social, ou pela própria morte.

A história de Jean Valjean (Hugh Jackman), o prisioneiro 24601, condenado à reclusão pelo roubo de um pão, conduz a narrativa. Após sair do trabalho forçado nas galés, embarcações movidas a remo, ele assume nova identidade e reconstrói sua vida. Porém, o fantasma de Valjean não o abandona, justamente por enfrentamentos morais a ele impostos na sua trajetória. Atravessado por personagens marcantes, tais como Javert (Russell Crowe), o inspetor que não desiste de caçar o ex-prisioneiro mesmo após ele ter cumprido sua pena, e Fantine (Anne Hathaway), a moça obrigada a sujeitar-se às piores humilhações para sustentar a sua filha, o enredo desenrola-se acompanhando eventos históricos pós-Revolução Francesa.

Tarefa difícil é transportar às telas a obra consagrada da literatura francesa, extensa, sem cair na narrativa apressada ou redutora. Os 158 minutos da adaptação, quase completamente cantada, não transcorrem sem que esses pecados sejam percebidos. A noite de dúvidas de Valjean, por exemplo, sobre revelar ou não sua identidade às autoridades, que toma páginas e páginas pela escrita primorosa de Victor Hugo, é praticamente suprimida, resumida a alguns instantes de canção no filme. Da mesma forma, a paixão entre Cosette (Amanda Seyfried), a filha de Fantine, e Marius (Eddie Redmayne), rapaz rico que decide lutar ao lado dos mais pobres nas barricadas das revoltas da Paris de 1832, parece irreal pela velocidade com que se dá.

Se tais escolhas narrativas acabam por reduzir a complexidade de alguns personagens, ao mesmo tempo, as atuações garantem a imponência do filme. Jackman constrói um Jean Valjean muito humano não só pela voz, ao cantar com inegável qualidade, mas principalmente pela expressão corporal. Não há como não se sentir tocado pelo olhar de compaixão lançado pelo personagem à pequena Cosette, interpretada por Isabelle Allen, em seu primeiro encontro com a menina. Anne Hathaway também merece os elogios que vem recebendo: a sua interpretação de I dreamed a dream é um dos pontos altos da projeção, envolvendo o público no sentimento da desgraça de Fantine. Apenas Russel Crowe parece um pouco deslocado na pele de Javert.

Samantha Barks destaca-se pelos solos, como Éponine (Crédito: Universal Pictures/Divulgação)

A opção ousada de fazer os atores interpretarem as músicas ao vivo durante as filmagens garantiu um resultado bastante realista, passando longe da aparência falsa de muitos musicais, decorrente do processo de gravação da voz em estúdio, posteriormente sobreposta à atuação. As músicas cantadas por atores mais acostumados com os palcos ofuscam um pouco as cantadas pelos protagonistas – é o caso da talentosa Samantha Barks, que como a controversa Éponine, representa afinadíssima o drama da personagem –, mas sem grandes prejuízos.

Carregando nos tons não só de vermelho, azul e branco, como não poderia deixar de ser, mas também de dramaticidade – e até mesmo beirando o excessivo, nesse ponto – Os Miseráveis de Tom Hooper consegue entreter e emocionar. Por mais que, ao final, acabe tornando-se cansativo (um intervalo na projeção não cairia mal), e que algumas canções não funcionem tão bem quanto outras para narrar a história, a produção apresenta ao público atual com considerável refinamento essa rica narrativa que já atravessa bem mais de um século. Afinal, os heróis miseráveis de Victor Hugo continuam tendo muito a dizer, e merecem ser ouvidos.

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