Imagem designada a  ilustrar a cultura, como se fosse fácil (Crédito: Cultura Viva)

Ando me fazendo essa pergunta ultimamente, talvez porque eu ande um pouco desanimado com a profissão. Ou talvez porque a aprecie demais. De qualquer forma, sempre é bom retomar a reflexão sobre o fazer jornalístico, que envolve toda a sociedade, de uma maneira, digamos assim, mais prática. Aliás, só para esclarecer, não sou nenhum pesquisador do tema “Jornalismo Cultural”, não sou um acadêmico, ou um teórico da Cultura. Estudei sim sobre o assunto e pesquisei “cientificamente” em projeto de pesquisa, mas não o bastante para ter propriedade formal para escrever sobre. Nem quero. Textos acadêmicos são, em sua grande maioria, deveras chatos e, muitas vezes, não trazem nenhuma ideia própria ou nova. Enfim, só para deixar claro que vou escrever a partir das minhas impressões e experiências (ainda que não seja assim tão grande) no meio.

Jornalismo cultural é o mais prostituto das áreas do jornalismo. Ou melhor, os jornalistas culturais o são. Trocam favores por ingressos e, pior, muitos acabam trabalhando como assessores de imprensa ao mesmo tempo em que se dedicam ao trabalho na editoria de cultura na redação do jornal, ou publicações da área. Surge o dilema: Como se mediar? Como ser “imparcial” nesse caso? Imagino a cena que alguns colegas devem passar diariamente:

“Devo dar esse espaço para o meu cliente?”

Espaço. Outra palavra chave no jornalismo cultural, esse grande michê das assessorias de imprensa. É claro que a editoria de cultura de um jornal deve fornecer um grande panorama artístico da cidade. Essa é uma das suas nobres funções, coordenada por um editor que deve seguir um planejamento elaborado a longo prazo – com áreas de coberturas definidas, reportagens planejadas, etc. Logo, esse nobre espaço das folhas do caderno de cultura deveria ser preenchido por matérias que elaborassem um pensamento mais aprofundado, arrojado sobre assuntos determinantes ao meio artístico-social-cultural da cidade (pensando em um jornal), e não se perder apenas em notas e serviços sugeridos pela assessorias  (que, eu sei, só estão fazendo o trabalho delas). Não se deve exagerar em matérias que acabam parecendo mais publicidade do que notícia. Divulgação de um ciclo de cinema que discute um aspecto interessante e em consonância com a atualidade do local, ou do tempo, é algo louvável; agora “puxar sardinha” para tal artista, porque é seu amigo, ou conhecido, é simplesmente desprezível.

Agora, meu amigo (a) jornalista cultural, deve estar se perguntando quem sou eu para dizer essas barbaridades.

“Vai me dizer que o Nonada é um site completamente idôneo, que vocês são jornalistas completamente éticos..”.

Primeiramente, a opinião não é um dos princípios e origens do jornalismo cultural? Então, o que estou fazendo aqui na coluna Recortes é um  texto opinativo, uma crítica com argumentos razoavelmente convincentes sobre o que observo atualmente no jornalismo cultural. Sou jornalista e editor do Nonada então esse texto também pode ser considerado uma autocrítica. É claro que já erramos a mão no site, mas posso afirmar que por fazermos por “amor” e por não termos nenhuma grande empresa ou família de comunicação por trás, somos mais livres para seguir com a linha editorial que quisermos, esboçar o horizonte que desejarmos. Talvez por isso não me lembre de casos de publireportagem no Nonada.

Imagem ilustrativa do filme “Todos os Homens do Presidente”. O Jornalismo Cultural não pode ser investigativo também? (Crédito: Divulgação)

O horizonte deve ser bonito no jornalismo cultural. É onde você quer chegar. E é por isso que é tão complicado ver excelentes jornais se perderem porque estão presos a uma linha editorial conservadora, ou a uma empresa que comanda o jornal e que prefere brigar com a notícia do que apenas informar com qualidade. O jornalismo cultural deveria ser justamente o espaço de discussão dos problemas levantados pela sociedade, um espaço para a reflexão do subtexto de um acontecimento. Deveria entender uma polêmica e não causar uma. Não é para ser a editoria “leve” do jornal, como se fosse menos importante em relação às outras. Nós, jornalistas culturais, deveríamos estar aqui para fazer o leitor desejar ir além do nosso texto, instigar vontades, despertar para um fato despercebido. Devemo-nos integrar a um mundo cultural em formação e só se pode alcançar isso o consumindo. Comparecendo aos eventos, participando de oficinas, shows, envolvendo-se com o seu objeto de trabalho.

Objeto esse que é diferente das outras editorias não por ser mais “leve” (não é, uma matéria cultural pode ser tao “pesada” quanto a notícia de uma página policial), não porque trabalha com o lado mais “imaginativo” (já ouvi isso algumas vezes e ainda não entendi. não usamos a imaginação para tudo?), e sim porque proporciona aos jornalistas e aos leitores uma oportuna troca de experiências, principalmente ao se comentar um produto cultural, e um espaço para discussão aprofundada nas reportagens. Também deveria ser o espaço para abordar novas discussões, promovendo a divulgação de novos assuntos.

Vai dizer que isso não é importante (e bonito)?

O problema, e eu compreendo, é que se tem um certo número de horas para se fechar um jornal. E você precisa preencher os espaços de algum jeito, sejam eles nobres ou não. E eu também entendo, você precisa de dinheiro, então tem que arranjar mais de um trabalho porque o jornalismo, de um modo geral, não paga bem. E você quer viver bem, né?

Parece-me cada vez mais complicado ser jornalista sem apoio de outros jornalistas, sem liberdade editorial, sem ter que simplesmente vender a sua mão de obra (e não poder argumentar) em troca de uma “carreira” num grande veículo de comunicação. Mas é muito mais difícil mudarmos esse quadro se não discutirmos sobre esses problemas do jornalismo cultural, se não existir uma troca de experiências, de impressões entre jornalistas.

Por que não sonhar com um futuro melhor?

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