Mostra “Fortuna”, em cartaz na Fundação Iberê Camargo, apresenta recorte sobre a obra do multifacetado artista sul-africano.

Os desenhos do artista para seus curtas de animação fazem parte da exposição (Cena de "Other Faces"/ Crédito: Divulgação)

Em exposições de arte, via de regra, encontramos o resultado final do trabalho de artistas – a obra em seu estágio último, pronta para a negociação com o olhar do outro, o visitante. Talvez um dos aspectos mais interessantes da mostra de William Kentridge, atualmente em cartaz na Fundação Iberê Camargo de Porto Alegre, seja o rompimento com essa forma de apresentação: o artista sul-africano incorpora em seus trabalhos os meandros do caminho percorrido, tornando evidentes processos que geralmente ficam escondidos por trás dos objetos acabados. Passear por “Fortuna” é ser instigado sobre o fazer (e desfazer) da arte, permeado pela riqueza (a fortuna) do trajeto da produção.

Um rinoceronte em escultura está apenas parcialmente recoberto: as suas entranhas são nada menos do que a estrutura criada pelo artista como sustentação. Um desenho deformado numa superfície circular faz sentido apenas quando projetado sobre um cilindro espelhado, colocado no centro do círculo. Na mesma lógica, uma animação em stop motion pode ser visualizada nesse tipo de projeção em espelho – e o desenho inicial, desfigurado, continua fazendo parte da obra. O divertido é que a descoberta dessas lógicas dá-se quase como uma brincadeira.

Se em um primeiro momento as tonalidades predominantes do conjunto de trabalhos – o preto, o branco, o vermelho e o azul –, geram uma impressão pesada, basta passear pelas salas do museu por alguns minutos para perceber esse marcante caráter lúdico da exposição. A política e a crítica social não deixam, apesar disso, de ser elementos que pairam sobre os trabalhos: a paisagem, a história (contada oficialmente ou não) e a cultura da África do Sul atravessam a produção de William Kentridge. Em “Fortuna” há um bom tanto de agressividade e tristeza – que não pode ser descolado de um contexto regional marcado por guerras, pelo colonialismo e pelo apartheid – , porém ele está ao lado (e junto) de uma dose de humor, ironia e poesia.

Nas animações e filmagens apresentadas na mostra, principalmente as que estão colocadas no quarto andar do museu, é que essa junção fica mais evidente. Elas totalizam mais de três horas de projeção, distribuídas em filmes curtos que são exibidos em salas adaptadas, por isso programe a sua visita com tempo de sobra para aproveitar. Os desenhos que originaram as animações estão também expostos. Vale lembrar que para criar os filmes o artista registra as transformações de um único desenho, apagado e refeito várias vezes.

Interessante também é desvendar a multiplicidade de artistas que existem dentro de William Kentridge: ele extrapola as delimitações tradicionais das artes visuais, e apesar de considerar-se primordialmente um desenhista, adentra-se no mundo da gravura, da escultura, do filme, da animação, da performance, etc. Para essa exposição, a sua primeira na América Latina, ele realizou inclusive uma intervenção sobre a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis. Sobre uma edição antiga do livro, o artista criou um flipbook posteriormente filmado. Pelas páginas folheadas e sobre o texto escrito, caminha de um lado para outro a figura do próprio artista, pensativo. Talvez um autorretrato em seu processo de criação – ou melhor, de fortuna.

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A curadora de “Fortuna” é Lilian Tone. A exposição, que já passou pelo Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro e ainda nesse ano será apresentada na Pinacoteca do Estado de São Paulo, inaugurou no dia 7 de março e segue em Porto Alegre até o dia 26 de maio. A Fundação Iberê Camargo fica na Av. Padre Cacique, 2000, e funciona para visitação de terças a domingos, das 12h às 19h (quintas até às 21h). A entrada é franca.

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