Philippakis, do Foals, quer mais espaço para novos headliners (Crédito: LollapaloozaBR)

Dia desses, vasculhando as estantes da área de música de uma grande livraria, dei de cara com um livro chamado AC/DC: Rock’n’Roll em Alta Voltagem – A História Ilustrada Definitiva.  Comprei o dito cujo, que realmente é muito bem ilustrado e rico em detalhes. Entre diversas informações curiosas, uma me chamou bastante atenção: no longínquo ano de 1980, quando lançou o clássico Back In Black, o AC/DC já era um peso-pesado do rock, fechando todos os festivais dos quais participava e sendo a atração principal em qualquer outra ocasião. No citado ano, o grupo dos irmãos Young chegou a abrir para o ZZ Top. Depois disso, apenas em 2003 voltaria a ser a atração secundária em um show… dos Rolling Stones.

Essa questão do “tamanho” das bandas – hoje o ZZ Top, que não manteve o sucesso da época, toca em teatros, e o AC/DC, em estádios – voltou a me intrigar com a segunda edição brasileira do Lollapalooza, realizada há poucos dias. Infelizmente, não pude ir a São Paulo conferir o festival, mas acompanhei pela TV e depois resolvi ler resenhas e comentários em sites e redes sociais. E, é claro, alguns desses textos tratavam do velho bate-boca sobre número de abertura vs. atração principal.

Ser a atração principal, às vezes, não é nem questão de experiência ou mérito. Levando em conta esses critérios, o Queens of the Stone Age, por exemplo, poderia ter sido o headliner do dia 30 de março. Só que aí tínhamos o Black Keys, inegavelmente vivendo um momento de ascensão em termos de popularidade. E vamos combinar: esse quesito nunca foi o forte do QotSA…

Cartaz do (pen) último show em que o AC/DC foi banda de abertura (Crédito: acdc-bootlegs.com)

Mais bizarro, na minha opinião, foi o Franz Ferdinand, queridinho dos indies na metade da década passada, tocando antes do A Perfect Circle. Isso sim, para mim, não faz nenhum sentido. Sei que os escoceses andam meio apagados há tempos, mas o apelo popular do A Perfect Circle me parece praticamente nulo.

Voltando um dia no tempo, vimos o Cake – certamente não mais no auge – tocando antes do Deadmau5. Mas esse é um caso a parte, já que é comum encerrar a noite com sets de música eletrônica, ainda mais em um palco secundário. Nesse dia 29, o questionamento foi outro: Killers fechando a noite, merecia ou não merecia? Sem entrar no mérito musical, Brandon Flowers e cia. sabem cativar uma plateia e, mesmo com eventuais deslizes na carreira, seguem como uma das poucas bandas da geração pós-Strokes que ainda têm um público fiel (e grande). A questão aqui é se eles estão no festival certo, pois já faz algum tempo que os caras passaram de revelação indie a um fenômeno mainstream. Fora que um palco com Killers e Flaming Lips é meio esdrúxulo.  Sem preconceitos, mas deveria haver outras combinações melhores, não?

O Lolla fechou com o Pearl Jam que, apesar da popularidade, ainda tem um pezinho na cena alternativa. Foi o grande nome do festival, assim como o Foo Fighters no ano passado, e, tal como o AC/DC, dificilmente vai abrir o show de alguém novamente a essa altura. Mesmo assim, fica a sensação de que o Hives, por seu domínio de palco, seria um ótimo headliner. Em 2000, com Veni Vidi Vicious, talvez a história fosse diferente.

No ano passado, Lobão (pra variar) andou reclamando de que mais brasileiros deveriam encabeçar festivais como o Lollapalooza. Se o choro funcionou com o organizador Perry Farrell, não se sabe, mas o fato é que o Planet Hemp não fez feio tocando depois de Kaiser Chiefs e Foals.

Eddie Vedder e seu Pearl Jam dificilmente voltarão a abrir um show (Crédito: Cambria Harkey)

Aliás, vem do vocalista do Foals, Yannis Philippakis, uma das opiniões mais honestas sobre o assunto.  Em entrevista ao jornal britânico Daily Star, ele soltou: “É um grande problema quando bandas antigas são sempre os headliners dos festivais. Mais bandas clássicas voltam a cada ano, o que só piora a situação. Isso realmente limita as bandas da nossa geração. Não temos muitas chances de ser destaque, porque as vagas são reservadas para os mesmos nomes”.

 Philippakis não soa presunçoso ao dar tal declaração, pois o público majoritário do Lolla é jovem e conhece uma banda como o Foals. No entanto, alguém realmente acha que os caras já têm cacife para fechar um festival desses? E não venham me dizer que é preciso reservar cotas para headliners. Aqui não se trata de uma questão histórica de discriminação, mas apenas uma lógica de mercado, que prioriza uma certa hierarquia. E quem ambiciona fechar um festival com 60 mil pessoas por noite tem que mostrar serviço sempre, seja tocando num buraco na própria cidade, seja diante de uma multidão. A recompensa geralmente vem com o tempo.

A verdade é que nem todo mundo nasceu pra ser a atração principal, mas ser um coadjuvante de respeito não é vergonha alguma. Se o seu show for bom, ele vai ser bom às três da tarde ou às dez da noite. Se for uma merda, não há grade de programação que salve. O Guns N’Roses do Rock In Rio 2011 que o diga.

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