Texto: Ariel Oliveira

Fotos: Ita Pritsch

 

Abrem as cortinas do Teatro do Sesi e todos os músicos já estão posicionados. Ele, de pé, no centro, vestindo seu mais contagiante sorriso, agradece. Senta, pega o violão e começa uma máquina de ritmos.

Gilberto Gil no show Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo (FOTO: Ita Pritsch)

Ele é Gilberto Gil e a máquina de ritmo na verdade são duas. Uma, a música Máquina de Ritmo, duas, o show em si, que tem esse nome não por acaso. Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo envolve Gil, nos seus já 70 anos, em uma orquestra, a excelente Sinfônica da Bahia, e uma talentosa banda, o filho, Bem Gil, o violinista Nicolas Krassik, o percussionista Gustavo di Dalva e o cellista Jacques Morelenbaum, dividindo a função de maestro com Carlos Prazeres, o diretor artístico da OSBA.

O show de domingo, 5, trouxe, um Gil animado, sorridente e falante. Continuação de um projeto acústico que o músico vem desenvolvendo com o filho nos últimos anos, Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo explora diversos momentos da carreira do cantor sob uma nova estética musical, apresentando também algumas de suas influências, músicas mais recentes e a inédita Eu descobri, feita a pedido de Sérgio Dias para os Mutantes.

A já citada Máquina de Ritmo, do álbum Banda Larga Cordel, de 2008, dá o tom (e o nome) a toda a apresentação. A música, que já aparecera no documentário Outros Bárbaros (de 2004, sobre a reunião dos Doces Bárbaros), inspira uma das várias conversas que Gil tem com o público. Apontando para a sua esquerda, o canto das percussões e dos instrumentos eletrônicos, o cantor defende que estes são tão máquinas de ritmo quanto aqueles, e tanto quanto os outros instrumentos presentes no show, máquinas naturais e artificiais: voz, violões, violinos, violoncelos.

Bem Gil, Nicolas Krassik e Jacques Morelenbaum (FOTO: Ita Pritsch)

Outro dos temas que embalaram as conversas de Gil ao longo do show foram seus mestres: Tom Jobim, antes de tocar Outra Vez; Dorival Caymmi, (“meu segundo mestre”) antes de tocar Saudade da Bahia; e Luiz Gonzaga (“esse é o meu primeiro mestre”), antes de tocar Juazeiro. Tocou também Panis et Circenses, parceria sua com Caetano Veloso, que Gil também chamou de mestre. Engraçado pensar que Caetano costuma dizer o mesmo de Gil.

O amigo e parceiro tropicalista também foi citado outras duas vezes. “Quando eu me encontrava preso, na cela de uma cadeia, como diz uma música de Caetano”, diz o cantor, falando de Futurível, música composta em 1968 enquanto estava preso pela ditadura militar. Também quando Gil conta a história da vez em que, exilados em Londres, os dois encontraram Jimi Hendrix e Miles Davis antes de um show, introduzindo sua versão de Up from the Skies, de Hendrix.

A essa se seguem as outras músicas em língua estrangeira do show, Tres Palabras, do cubano Osvaldo Farrés, e La Renaissance Africaine, do próprio Gil, também de Banda Larga Cordel. Gil surpreende por sua vivacidade e pela voz que, apesar de rouca, é de uma potência invejável, combinando muito bem com os arranjos. Ou mesmo sozinha, quando, de introdução a Andar com fé, Gil improvisa scats com o público, que ri das melodias que não consegue acompanhar.

Gilberto Gil e a Orquestra Sinfônica da Bahia (FOTO: Ita Pritsch)

Enfatizando a enorme versatilidade de Gil em misturar ritmos nas suas composições, os arranjos passam por diferentes combinações de banda, orquestra e violão, que se completam ao longo do show. Arranjos mais suaves, em músicas como Estrela e Quatro Coisas, contrastam com arranjos densos, como em Oriente, ou arranjos festivos, como em Andar com fé, ou ainda mostram a força de músicas como Domingo no Parque e Panis et Circenses. Destaque para os solos de Krassik e Morelenbaum – que toca apenas com Gil a música Lamento Sertanejo, parceria de Gil com Dominguinhos, do álbum Refazenda, de 1975.

Ponto alto do show: apagam-se as luzes, saem os instrumentistas, apenas uma luz azul sóbria batendo em cima de Gil, sentado com seu violão. Fazendo só a percussão no corpo do instrumento e um eventual toque no mi grave, o cantor entoa emocionado Não tenho medo da morte em tom grave e triste. Música mais recente (terceira do já citado álbum Banda Larga Cordel), talvez por isso mesmo tenha feito todos ficarem calados, prestando atenção na letra. Fez o público chorar, por sua beleza triste – embora não tenha deixado de arrancar risos, em uma parte bem humorada da letra.

Unindo seus ritmos e seus temas, críticas sociais, ciência, tecnologia e religião, cultura africana e oriental, passando por rock, baião, bossa-nova e samba, o show faz um excelente trabalho na revisitação da carreira de um dos músicos mais completos da nossa história.

Veja o setlist do show:

01. Máquina de Ritmo
02. Eu vim da Bahia
03. Domingo no Parque
04. Estrela
05. Quatro Coisas
06. Quanta
07. Futurível
08. Eu descobri
09. Saudade da Bahia
10. Outra Vez
11. Não tenho medo da morte
12. Lamento Sertanejo
13. Juazeiro
14. Up from the Skies
15. Tres Palabras
16. La Renaissance Africaine
17. Panis et Circenses
18. Oriente
19. Expresso 2222
20. Andar com Fé

BIS

21. Viramundo
22. Domingo no Parque

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