Historiadora britânica abriu a série de conferências do Fronteiras do Pensamento 2013. (Foto: Luiz Munhoz)

Precedida por duas peças de Bach tocadas pela pianista Cristina Caparelli Gerling, a britânica Karen Armstrong proferiu a conferência de abertura da edição 2013 do Fronteiras do Pensamento. A palestra teve como tema O que é religião? – um questionamento básico da produção intelectual de Armstrong, ex-freira que, depois de abandonar o convento e a fé católica, dedicou-se a estudar a história e o sentido das religiões do mundo. Vencedora do TED Prize de 2008, Armstrong também é idealizadora da organização Charter for Compassion, que tem como objetivo restabelecer a compaixão como valor máximo das religiões e da convivência humana.

Compaixão não no sentido de pena, ressalta a conferencista, mas de comparação com o outro e, com isso, o reconhecimento de que estamos sujeitos aos mesmos sofrimentos proporcionados pela condição humana – algo como a empatia que surge entre Aquiles e Príamo quando este reclama o corpo do filho Heitor. A citação da Ilíada não é por acaso: Armstrong afirma que as religiões foram criadas com propósitos semelhantes à arte em função de nossa consciência acerca da mortalidade, “para sentirmos que a vida tem algum significado, porque somos criaturas em busca de sentido. Quando não encontramos nenhum valor no que estamos fazendo, caímos muito facilmente no desespero.”

Os mitos da antiguidade costumavam desempenhar esse papel. No entanto, Armstrong ressalta que o mito não é apenas uma história que visa explicar o mundo e o ser humano, mas também um chamado à ação: “Hoje a palavra ‘mito’ simplesmente designa algo que não é real. Antes da era moderna, o mito era algo que, de alguma forma, aconteceu uma vez, mas que também acontece o tempo todo. O mito não faz sentido se for apenas lido, é preciso colocá-lo em prática. Um mito está lhe dizendo o que fazer.” A historiadora afirma que a religião como a conhecemos hoje – marcada pelo dogmatismo – consolidou-se no século XVII, quando a revolução científica estendeu o racionalismo à religião, um papel muito diferente do que desempenhara até então. Isso a tornou difícil, pois “conhecimento religioso não é algo da mente, é uma habilidade prática. Uma boa analogia é com a dança: uma dançarina não pode aprender sua arte lendo regras; ela deve praticar por anos, dia após dia; e se ela tiver o talento, aprenderá a se mover com uma graça absolutamente impossível para um corpo sem treino. Religião é mais sobre fazer coisas do que sobre pensar coisas.”

A má compreensão da religião sobre si mesma sem dúvida contribuiu para o crescimento do ateísmo nas décadas recentes. Armstrong é categórica ao afirmar que parte do problema vem de erros cometidos pelas religiões nos últimos séculos, citando como exemplo sua própria experiência negativa no noviciado: “a ênfase na crença sem igual ênfase na prática compassiva tornou Deus impossível. Lemos as Escrituras hoje com um literalismo que não tem paralelos na história da religião. Santo Agostinho, fundador do cristianismo ocidental, disse que se um texto bíblico parecesse contradizer a ciência, deveria receber uma interpretação alegórica.” Quando cita o biólogo Richard Dawkins, expoente maior do neo-ateísmo que já foi criticado por Terry Eagleton na edição de 2010, Armstrong afirma que sua virulência já começa a cansar as pessoas: “Teólogos do passado tiveram discussões muito frutíferas com ateus de renome. Precisamos desse tipo de diálogo, não de um que seja agressivo e cheio de insultos, porque isso só deixa as pessoas com raiva. Para mim, ateísmo significa permitir que as pessoas tenham suas próprias crenças, sejam elas religiosas ou seculares.”

Quanto ao sentimento de superioridade que algumas religiões têm sobre as outras, Karen afirma que vem de um sentimento de posse que contradiz o caráter essencialmente coletivo do cerne das tradições religiosas: “Quando falamos que ‘a minha religião é a melhor e todas as outras são bobagens’, é o ego falando. É de uma idolatria institucional que a santidade e a reputação da instituição sejam uma prioridade maior do que se importar com os outros. Quanto mais você aprende sobre as outras fés, mais percebe o quanto é difícil dizer que alguma tem o monopólio da verdade”. Armstrong relembrou Wilfred Cantwell Smith, teólogo canadense que admira: “Ele próprio era ministro de uma igreja cristã, e tudo o que sabemos sobre as fés do mundo tornava, na visão dele, quase blasfemo dizer que alguma delas era a única correta.” Ao ser questionada sobre a eleição de Francisco I, Karen revelou admirar as escolhas frugais do novo pontífice (incluindo a escolha do nome), mas acredita que os vícios do sistema estabelecido no Vaticano abrem poucas chances para que as necessárias mudanças no catolicismo aconteçam: “Ele deveria deixar Roma e voltar para cá (a América Latina) e se prontificar a dizer ‘desculpem, nós erramos quanto ao abuso de crianças’, não esperar mais mil anos como aconteceu com as Cruzadas”.

Ao versar sobre tópicos mais brasileiros, a historiadora classificou o sincretismo, marcante na religiosidade latino-americana, como um fenômeno “perfeitamente natural”, apontando o próprio cristianismo como resultado de um processo sincrético, uma vez que Cristo era judeu. “É sinal de saúde quando uma religião fala às condições do povo que tenta viver segundo suas tradições. Se uma tradição religiosa falha em se desenvolver e mudar com o tempo, morre.” Sobre o crescimento do neopentecostalismo, Armstrong o enquadra como produto de uma sociedade de desejos instantâneos, como redenção e riqueza – com a ressalva de que a religião não é um processo instantâneo, mas longo e lento: “Grandes pensadores – Buda, por exemplo, muito cético quanto a milagres – perceberam que as pessoas querem certezas, porque a vida é muito incerta. Mas a religião não nos dá certezas. O que ela pode fazer é ajudar a viver em bondade, criatividade e paz em meio à dor, à tristeza e à incerteza – mas não vai afastar essas coisas magicamente.” Essa interpretação de Deus, diz Armstrong, é estranha e simplista demais para definir um livro complicado como a Bíblia, que congrega visões muito diferentes sobre a essência de Deus e de Jesus Cristo. “A prática da religião não acontece num instante, Deus não vem ao clique de um mouse.”

Karen discorda da afirmação de que a religião tem um componente inerentemente violento; pelo contrário: as religiões teriam se desenvolvido de modo a conter os impulsos violentos do ser humano. No entanto, a religião foi sequestrada para fins de terror. Ao informar sobre o livro que escreve no momento – sobre as relações entre religião e violência -, a historiadora lança uma pergunta que pode soar polêmica: “Pense em quando separamos a religião da política no século XVII: o mundo ficou menos violento desde então?”. O potencial da religião para a não-violência pode ser expresso pelo fato de que há, no ethos de todas as principais fés do planeta, versões da Regra de Ouro, não faça aos outros o que não gostaria que lhe fizessem, na expressão geralmente associada a Confúcio. É um exercício de transcender o ego, o que Armstrong compara ao amor da mãe que se coloca de lado para cuidar de seu bebê. Algo intimamente ligado à compaixão tão defendida pela escritora como uma forma diferente de perceber o mundo e a humanidade, sejamos crentes ou não – um senso prático de responsabilidade de devotar a vida a aliviar o sofrimento do todas as criaturas, segundo a tradição budista.

Um dos objetivos da Charter for Compassion é a ideia das “cidades compassivas”, que devem encontrar maneiras de introduzir a Regra de Ouro em seu cotidiano – uma tarefa que não tem a ver com idealizações distantes: “Não existem santos. Mesmo os grandes santos eram seres humanos falhos.” No encerramento, Armstrong volta à Ilíada: “Os gregos acreditavam que chorar juntos criava uma ligação entre os seres humanos, porque isso nos faz perceber que não estamos sozinhos em nossa dor. Quando Aquiles entrega o corpo de Heitor a Príamo, os dois se olham e se percebem como divinos. Isto é o que todas as religiões tentam nos dizer: somos mais próximos de nossa semelhança divina quando percebemos que nossos inimigos também sofrem.”

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