“ Would I rather be feared or loved? Easy. Both. I want people to be afraid of how much they love me.” – Michael Scott 

Michael Scott em um dos seus inúmeros discursos (Crédito: The Office/NBC)

Hoje vai ao ar o último episódio de The Office (US). É engraçado você pensar que acompanhou por tanto tempo uma trupe de personagens, e, de uma hora para outra, eles devem seguir o caminho. A gente fica por aqui. E meu caso com The Office começou tarde. Não acompanhei de imediato a série, que estreou lá no ano de 2005 nos Estados Unidos. Ora, em 2005 eu havia recém-saído do colégio, o temido vestibular batia a minha porta e os downloads ainda não era algo tão comum quanto agora. Só assisti mesmo a partir de 2009, quando, por indicação de amigos, fui atrás do seriado. Desde então, acompanho religiosamente o cotidiano do escritório que vende papel em uma pequena cidade (Scranton) no estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos. A premissa é essa, aparantemente banal, mas rica graças às características malucas – e bem definidas – dos seus personagens.

Para quem ainda não sabe, o The Office (US) é baseado na aclamada série homônima criada em 2001 na Inglaterra pelo comediante Ricy Gervais. É a mesma premissa, mas há várias mudanças, até porque o americano durou nove anos e o inglês apenas duas temporadas e um especial (excelentes por sinal). Mais do que isso, pode se dizer que a versão americana suavizou o tipo de humor “rir da vergonha alheia”, o qual Gervais explorou com mais maquiavelismo. Na verdade, a grande diferença está no modo de em que observamos os gerentes dos escritórios. O estadunidense Michael Scott é digno de pena por se equivocar nos seus sentimentos e não saber agir adequadamente em várias das situações. Ele anseia que as  pessoas gostem dele, ele quer ter amigos, e, para isso, não pensará duas vezes antes de agir.  Há um bom coração (meio maluco, mas há) por trás daquele poço de insegurança e isso fica evidente ao longo das temporadas. Já o inglês David Brent, é muito mais narcisista e egoísta que Scott. Ao contrário do americano, ele não se importa realmente com os seus subordinados. É cego em seu egocentrismo: acredita que todos o respeitem, embora seja frequentemente debochado, ou excluído. E ele nunca aprende, ao contrário de Scott.

O pessoal do escritório assiste ao trailer do documentário (Crédito: The Office/NBC)

E é por aí que nasce a graça desse humor que vai além do escárnio e que influenciou tanta gente. Seriados como Modern Family e Parks and Recreation não poderiam existir  sem o batizado de The Office. Filmada em mockumentary (falso documentário), The Office vai ao encontro do seu tempo, fazendo paralelo com a onda de reallity shows que invadiram a tv no início desse século. Uma das grandes sacadas é que, mais do que assistir ao cotidiano daquela empresa durante anos, compartilhamos as vidas compartilhadas daqueles personagens. E isso fica evidente nesse final de seriado, em que o documentário finalmente está sendo revelado para os próprios personagens observarem as histórias que eles construíram. E quanta coisa foi construída ao longo desse tempo. Entre elas, destaco a bela relação entre Jim e Pam.Relação essa que começou com troca de olhares entre a então recepcionista e o vendedor, que sentavam próximos. A cumplicidade foi crescendo a ponto que o sentimento extrapolou a amizade. Jim se declarou, mesmo sabendo que ela ainda estava namorando. Apesar da dificuldade, mais tarde tudo foi se ajeitando. Acompanhamos o pedido de casamento, o casamento em si (um dos melhores episódios da série), os filhos e agora uma quase separação – mas só quase porque, ora, eles são Jim e Pam, talvez o melhor casal já surgido em um seriado (por que não?). Foi esse casal mais um carismático e doente Dwight Schrute que mantiveram o bom nível do seriado após a saída de Steve Carel e seu Michael Scott na sétima temporada. Dwight, aliás, foi um dos personagens que mais amadureceu, ou melhor se adequou a trama, passando de um lunático adorável para um lunático compatível, a ponto de se tornar agora gerente oficial do escritório. Quem perdeu muito foi o Andy. A aposta foi alta no ator Ed Helms, que estava em evidência devido ao sucesso de “Se Beber, não case”, mas a resposta, de modo geral, não foi boa.

A relação de Jim e Pam sempre foi ponto alto na trama, principalmente no início (Crédito: The Office/NBC)

Resultado: agora, perto do fim, além de perder a namorada, a recepcionista Erin, saiu do cargo de gerente e foi percorrer o seu sonho de se tornar famoso.Fama, outro ponto importante para se entender The Office. No original, fica mais evidente, pois no especial de natal acompanhamos como foi a repercussão do documentário gravado. Os quinze minutos de fama de David Brent, e toda a ridicularização do efêmero sucesso conquistado a troco de puro exibicionismo. Nesse último episódio do The Office US não dá para saber se teremos a mesma resposta, mas já se pode perceber um paralelo com a busca de Andy em se tornar famoso. Mas tudo é mais emotivo e sentimental (ou brega) no americano, coisa de americano, vamos dizer.

É hora de fechar a porta. Deixar o passado para lá. The Office (US) nos entregou algumas excelentes temporadas, e seguirá na lembrança dos que acompanharam a trajetória daquele grupo, aparentemente, simples de funcionário de uma empresa de papel, mas que desenvolveram várias e complexas relações. É mais ou menos como a indústria de papel que se mantém mesmo em um mundo cada vez mais virtual. Em um raro momento de eloquencia Michael Scott proferiu que o papel nunca deixará de ser usado, porque os verdadeiros contratos ainda são feitos a partir dele. Espero que as boas séries, e que tratam de coisas simples da vida, como The Office, nunca deixem de existir. Porque, afinal, são as melhores.

 

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