Billy Wilder e Jack Lemon: Uma grande parceria

Poucos cineastas conseguiram produzir filmes tão cínicos e ainda assim comercialmente bem-sucedidos quanto Billy Wilder. Nascido na Polônia, ele chegou aos Estados Unidos sem falar praticamente nada de inglês e em poucos anos se tornou um dos mais importantes cineastas de Hollywood. Seus filmes são cheios de diálogos irônicos e críticas ácidas – ao jornalismo, à indústria do cinema e até mesmo ao próprio público. Wilder não tinha medo de tocar em tabus, como o adultério e o alcoolismo. Em vários de seus filmes, ele desafiou os padrões morais aceitos pelos estúdios, como na cena antológica de O Pecado Mora ao Lado (1955), que mostra uma Marilyn Monroe insinuante com seu vestido esvoaçante no metrô, ou em Quanto Mais Quente Melhor (1959), ao sugerir um possível relacionamento amoroso entre dois homens.

Duas vezes vencedor do Oscar de melhor direção, Wilder era, antes de tudo, um roteirista. Sua carreira em Hollywood começou nos estúdios da Paramount, onde escrevia roteiros para Ernst Lubitsch, por quem nunca escondeu sua admiração (ele mantinha uma placa pendurada na parede de seu escritório com a pergunta “Como Lubitsch faria?”). Do diretor alemão, ele herdou a elegância com as quais sempre conduziu seus filmes. Mas foi principalmente para proteger seus roteiros que Wilder se tornou diretor, ele confessou em entrevista à revista The Paris Review nos anos 90. Todos os 26 longas dirigidos por Wilder foram também escritos por ele.lacionamento amoroso entre dois homens.

Se em Pacto de Sangue (1944) – cujo roteiro tem a co-autoria de Raymond Chandler –, Wilder já havia feito um filme sombrio, hoje apontado com um dos mais importantes do gênero noir, ele se consolidou com o drama Farrapo Humano (1945). Vencedor do Oscar de melhor filme, melhor direção, melhor roteiro e melhor ator (Ray Milland), o filme apresenta uma estrutura interessante que alterna flashbacks com momentos de um fim de semana da vida de um alcoólatra – e sua luta interna para manter a sobriedade. A obra é uma verdadeira representação da mente do personagem, que chega ao fundo do poço por causa da doença. Wilder conduz a trama de maneira não apenas verossímil, mas também assustadora, com destaque para uma cena em que o protagonista tem alucinações. Visto na época como um filme inédito e impactante, Farrapo Humano é ainda hoje um dos retratos mais fiéis do alcoolismo no cinema.

Gloria Swanson vive Norma Desmond e Cecil B. DeMille interpreta ele mesmo em Crepúsculo dos Deuses (Créditos: divulgação)
Gloria Swanson vive Norma Desmond e Cecil B. DeMille interpreta ele mesmo em Crepúsculo dos Deuses (Créditos: divulgação)

Crepúsculo dos Deuses (1950) levou Wilder a um novo patamar. O noir escancara a falsidade e o jogo de interesses da indústria do cinema ao retratar a tentativa de uma atriz esquecida pelos estúdios de voltar a atuar. O filme influenciou produções como O Que Terá Acontecido a Baby Jane? e, mais recentemente, O Artista. A icônica Norma Desmond foi brilhantemente interpretada por Gloria Swanson que, assim como a personagem, também fez sucesso na época do cinema mudo e estava esquecida no ostracismo. As aproximações com o real não param por aí. O elenco conta com o diretor alemão Erich von Stroheim, fazendo o papel de ex-cineasta e atual mordomo de Norma Desmond, e Cecil B. DeMille, como ele mesmo. Tanto von Stroheim quanto DeMille já haviam trabalhado com Swanson antes. É com DeMille que Swanson divide as cenas que melhor sintetizam o tema do filme, com Norma tentando restabelecer a relação entre diretor e atriz que um dia tiveram – relação essa que vai culminar em um dos close-ups mais inesquecíveis do cinema.

Para contar a história, Wilder utiliza um de seus recursos mais recorrentes: a narração em off. O enredo aparece em flashback, narrado por um personagem morto: o roteirista falido contratado por Norma Desmond, Joe Gillis. Interpretado por William Holden, Gillis é hipócrita e comete ações moralmente degradantes ao longo da trama, chegando a se vender para conseguir o que quer. E se Wilder escolheu um personagem como Gillis para representar sua profissão de origem, ele não deixou de ser ativista ao inserir no filme ironias sobre a desvalorização que os roteiristas sofriam na época. Crepúsculo dos Deuses é um retrato amargo de Hollywood, um filme corajoso para a época e também para os dias atuais. Apesar de ter gerado polêmicas dentro dos estúdios, a obra ganhou o reconhecimento do público e da academia, que entregou mais um Oscar de melhor roteiro a Wilder.

Kirk Douglas é o inescrupuloso Charles Tatum em A Montanha dos Sete Abutres (Créditos: divulgação)
Kirk Douglas é o inescrupuloso Charles Tatum em A Montanha dos Sete Abutres (Créditos: divulgação)

No ano seguinte, o cineasta lançou um filme com um nível de cinismo tão alto que fez público e crítica rejeitarem a produção. Verdadeiro desastre comercial, A Montanha dos Sete Abutres (1951) é um dos filmes mais atemporais sobre o papel do jornalismo e a sociedade do espetáculo. Kirk Douglas interpreta o anti-herói Charles Tatum, repórter inescrupuloso que descobre um acidente com um homem soterrado (Richard Benedict, no papel de Leo Mimosa) na cidade de Albuquerque e se aproveita da oportunidade para conseguir o furo jornalístico que alavancaria sua carreira. Além de adiar deliberadamente o resgate do homem para render mais notícias para o jornal, Tatum se alia às autoridades de Albuquerque, que o ajudam a manter a exclusividade da história. A roda de interesses que cerca Leo é integrada também pela mulher dele, Lorraine (Jan Sterling). Mesquinha, ela se utiliza da situação para faturar mais dinheiro com os curiosos que passam a frequentar o bar da família.

Nem mesmo o público escapou da visão extremamente pessimista que Wilder apresenta nesse filme. À medida que os dias passam, mais pessoas chegam para ver de perto o soterramento de Leo, que ficou conhecido em todo o país. O fato leva à formação de um verdadeiro circo em volta do resgate. É a tragédia convertida em espetáculo, algo não muito distante dos desastres transmitidos ao vivo pela televisão e acompanhados avidamente pelos telespectadores. Mais tarde, tentando apontar por que o filme havia sido rejeitado pelo público, Wilder disse que “ninguém quer ver a si mesmo no papel de um canalha”.

Jack Lemmon e Shirley MacLaine contracenam em um dos filmes mais aclamados do diretor (Créditos: divulgação)
Jack Lemmon e Shirley MacLaine contracenam em um dos filmes mais aclamados do diretor (Créditos: divulgação)

Versátil, Wilder foi também um excelente diretor de comédias, e sua parceria com o ator Jack Lemmon foi marcante no sucesso de alguns desses filmes. Em Se Meu Apartamento Falasse (1960), Lemmon é C.C. Baxter, funcionário de uma corretora de seguros que empresta seu apartamento para os executivos da empresa levarem suas amantes – em troca de indicações para conseguir uma promoção. Ao contrário dos anti-heróis de Wilder, no entanto, Baxter não é oportunista. Romântico incorrigível, ele se apaixona por Fran Kubelik (Shirley McLaine), ascensorista da empresa.

Carismáticos e extremamente competentes, Lemmon e McLaine interpretam personagens comuns, compondo um par romântico que poderia existir em qualquer lugar. Com uma dose acentuada de melancolia (que ele já havia inserido em sua produção anterior, Quanto Mais Quente Melhor), Se Meu Apartamento Falasse é o filme mais sensível da carreira de Wilder. Mas, como não poderia deixar de ser, a obra é também uma crítica ao american way of life, principalmente no que diz respeito ao corporativismo capitalista e às relações superficiais. O filme rendeu mais três estatuetas do Oscar a Wilder: melhor filme, melhor direção e melhor roteiro original.

A carreira do cineasta tem ainda bons filmes de diferentes temas, como o drama jurídico Testemunha de Acusação, o filme de guerra Inferno nº17, focado em prisioneiros de um campo de concentração, e A Vida Íntima de Sherlock Holmes. A capacidade de contar histórias variadas, aliada a um apurado senso crítico e a uma ironia fina, fizeram de Wilder o enfant terrible do cinema americano. Como um forasteiro destemido, ele expôs temas nunca antes explorados por Hollywood, antecipando a maior liberdade que chegaria nos estúdios nos anos seguintes e influenciando várias gerações de cineastas.

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Editora do Nonada, ativista da democratização da mídia e defensora do feminismo interseccional. Escreve preferencialmente sobre políticas culturais, culturas populares e arte engajada.

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