Gorija, filme original japonês de 1954, estabelecia explicação para a origem desse personagem-monstro tão icônico na cinematografia mundial. Lá, o Godzilla representava o perigo e o medo de toda uma nação, que ainda se recuperava do ataque nuclear sofrido no final da Segunda Guerra Mundial. Com dezenas de filmes realizados ao longo do tempo, sendo o último dos Estados Unidos (no Japão já teve mais uns seis, desde então, aliás, a lista completa de filmes da série pode ser vista aqui), de 1998, praticamente o responsável por afundar a franquia por todo esse tempo, essa nova produção prova que, com uma boa direção e respeitando a tradição da saga, a resposta, de modo geral, é positiva.

Godzilla-14Mai2014

Desenvolvido com alguns pulos no tempo no roteiro, no começo da trama acompanhamos o engenheiro Joe Brody, papel do excelente Bryan Cranston, que começa a perceber algo errado com a Usina Nuclear em que trabalha no Japão.  Acompanhado de sua esposa, Sandy Brody, papel de Juliette Binoche, ele pretende investigar o que está acontecendo.  Entretanto, uma catástrofe ocorre e Sandy acaba sucumbindo junto com a usina, enquanto ele consegue fugir. Anos se passam, e descobrimos, então, que o protagonista do filme é o filho do casal, Ford Brody, interpretado por Aaron Taylor-Johnson. Ele é um militar responsável por desmontar bombas e cresceu com uma grande distância emocional do seu pai, que é obcecado pela ideia de que o governo esconde a verdade sobre a suposta tragédia. Agora é a vez de Ford proteger a sua família de toda essa confusão.

É evidente que, ao trazer maior envolvimento familiar, a carga dramática do filme aumenta. E, a partir daí, a trama começa a se desenrolar paralelamente ao surgimento dos monstros invasores, os chamados Mutos, e do Godzilla. O maior “problema” disso é a impressão rápida que a maioria das pessoas tem, talvez pelo enganador trailer, do que será o foco do filme. Se você vai ao cinema com a esperança de ver monstros brigando desde o começo, ficará desapontado. A proposta aqui não é essa. E o diretor Gareth Edwards brinca com isso, chegando a irritar algumas vezes. Há um momento em que parece que finalmente mostrará uma batalha e a cena é cortada – apenas para pular para outra na qual a luta é exibida, rapidamente e com vários cortes, na televisão da casa da família de Ford…

cranston-johnson-godzilla2014-moviestillFalando em personagens, é fato que o núcleo familiar ganha um destaque proporcional ao tamanho do Godzilla na trama, mas tudo isso funciona bem para nos levar ao ótimo terceiro ato do filme – e a evidente equiparação entre os dois protagonistas: o humano, pai e militar e o protagonista gigante. Ambos responsáveis por trazer de volta a harmonia aos seus mundos. Porque, sim, o novo Godzilla é “uma força da natureza”, como explica o cientista Ichiro Serizawa, papel de Ken Watanabe (o único ator asiático que Hollywood conhece para papéis sérios?). Ele não está lá para acabar com a população do planeta, e sim para resgatar a ordem do planeta.

E é isso que ele faz no ato final ao enfrentar os dois monstros invasores, esses sim que realmente causam os maiores estragos para a população. Os Mutos são formas antigas de vida que adormeciam há muito tempo perto do centro da terra, mas que despertaram atraídos pela radiação, o qual serve de alimento para eles. Godzilla também acorda, mas para acabar com esses dois seres que pertencem ao seu mundo e assim restaurar o balanço. Aliás, a composição dos três se mostrou muito acertada, cada um deles tem uma característica específica marcante. O macho voa e é o menor dos três, característica da maioria dos seres vivos na natureza, já a fêmea é muito mais terrestre e grande em tamanho. Uma vez que os dois bipolarizam a ação com o Godzilla, eles são os responsáveis mais pelas destruições civis, sendo coerentes essas duas características para eles. Já Godzilla está muito bem construídoem seu design, evocando a sua antiga composição dos filmes japoneses, e aparece muito mais na água, talvez para evitar colapso com a parte civil.

Apresentando um trabalho que visa trazer uma carga mais dramática a um filme com o monstro mais icônico da história do cinema, Godzilla tem mais pontos positivos do que negativos. O suspense e a criação de tensão nos dois primeiros atos se justificam graças ao fechamento do filme. É irônico notar que, se no Godzilla  original de 1954, a origem do monstro está ligada à bomba nuclear, nesse, de cinquenta anos depois, seja justamente a radiação que alimente os monstros.

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