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Livro traz obra completa do até então desconhecido autor polonês (Crédito: Cosac Naify)

O desconhecimento não se justifica. Podemos viajar o mundo e, ainda assim, o acesso aos maiores escritores da literatura universal continuará inacessível. Veja-se o exemplo da literatura polonesa. Quem pode dizer que conhece um escritor que escreve ou escreveu em polonês? Quase ninguém sabe e esta carência de boas referências da literatura vinda deste noutros tempos sofrido país europeu está, agora, sendo preenchida com o lançamento, pela editora Cosac Naify, de um nome representativo da literatura polaca: Bruno Schulz. A Polônia hoje é outra; conhecer sua literatura é um passo para conhecer um pouco da sua cultura.

A reunião de contos e novelas de Bruno Schulz agrupados no título Ficção Completa, apresenta pela primeira vez ao leitor brasileiro, a obra de ficção completa de Bruno Schulz (1892 – 1942). São dois livros de contos do autor polonês – “Lojas de canela” e “Sanatório sob o signo da Clepsidra” – e mais quatro contos inéditos em português. Os contos reunidos nesse livro retratam um mundo em desencanto, abordam os usos e costumes de uma pequena localidade no leste europeu e revelam os códigos de convivência de uma família judia num contexto de transformações que foi as primeiras décadas do século XX. Trata-se uma obra importante para se conhecer um pouco da literatura polonesa aqui entre nós. A peculiaridade da escrita também tem sua representação gráfica única, uma vez que o livro traz uma série de ilustrações do próprio escritor, autor também de uma extensa obra artística. A apresentação é do poeta e ensaísta Czeslaw Milosz – Nobel de Literatura de 1980 –, posfácio do tradutor e sugestões de leitura. Completam o volume trechos dos diários do escritor e dramaturgo Witold Gombrowicz sobre o amigo Bruno Schulz. Um trabalho editorial lindo.

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Bruno Schulz foi comparado ao escritor Franz Kafka (Crédito: Arquivo)

Bruno Schulz foi um romancista e pintor polonês de família e religião judia, reconhecido como um dos expoentes da literatura polaca do século XX. Schulz nasceu em Drohobycz, que à época de seu nascimento era parte do Império Austro-Húngaro, e após a Primeira Guerra Mundial passou para a Polônia (sua cidade natal hoje pertence à Ucrânia). Muito jovem interessou-se pela pintura, e acabou por estudar arquitetura na universidade de Lwów e Belas Artes em Viena. Ensinou desenho na cidade natal, onde o seu pai, Jacob Schulz, vendia roupa. O autor alimentou a sua extraordinária imaginação com uma variedade de identidades e nacionalidades: um judeu polaco que falava iídiche, polaco e alemão. Apesar disso, não nada havia de cosmopolita nele, pois sua inventividade alimentava-se nos aspectos locais e étnicos da comunidade onde residiu. Esta, aliás, é a principal característica desse estupendo escritor polonês: extrair da banalidade do cotidiano a sua arte. Entre as características que marcam sua obra (tão singular) está o fato de ter passado a maior parte de sua vida na cidade natal. Isso se reflete na temática de seus contos, que exploram o cotidiano, a vida em família, os costumes judeus, além do peculiar, existencial e sufocante de cada um de nós. Nas duas obras reunidas, estão as histórias curtas mais importantes de Schulz: “As lojas de canela”, publicado em 1934, ao qual lhe seguiu “Sanatório sob o signo dda Clepsidra”, definiram o gênio de um autor que foi comparado em vida ao escritor tcheco Franz Kafka. Morreu, contudo, desconhecido e por pouco não teve seus escritos consumidos pelas sucessivas invasões alemãs à região durante a Segunda Guerra Mundial. Deixou, contudo, textos que refletem as possibilidades do homem em tempos sombrios….

Escritor multicultural, Schulz falava o alemão e o iídiche, escrevia os seus relatos em polaco e foi reconhecido como um representante polonês da literatura angustiante ao estilo de Kafka. Nessa bonita edição brasileira de sua obra, encontramos aquilo que de melhor já foi produzido por esse desconhecido, mas importante escritor polonês. A aventura de abrir de Ficção Completa e embrenharmos nesse universo caleidoscópico de sentimentos e culpas é gratificante. É também garantia de boa literatura.

Boa leitura.

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