Texto Filippi Mazutti

(Crédito: Lucas Tergolina/Divulgação)
(Crédito: Lucas Tergolina/Divulgação)

Na noite de quarta-feira, dia dez de setembro, assisti ao espetáculo GPS GAZA, com direção de Camila Bauer, no histórico Teatro São Pedro. Confesso que fiquei muito curioso com o tema da peça, o qual evoca os famigerados, as mulheres de identidade renegada e os conflitos motivados por disputas políticas e ideológicas, mas o que mais me chamou atenção foi o espaço destinado ao evento: justamente o teatro o qual representa a antiga cultura aristocrata e a alta burguesia brasileira – criando um ambiente paradoxal onde a história do espaço entra em conflito com o discurso da peça. Restaria saber de que forma a encenação se aproveitaria dessa paisagem artisticamente fértil a qual a organização do 21° Porto Alegre em Cena lhe dispusera.

Já no portentoso hall de entrada, a instalação de Tete Baraquini confirmava minhas expectativas: figuras feitas de espuma e tecido vermelho ocupavam o chão do recinto, lembrando restos mortais (já despersonalizados) de corpos literalmente explodidos pela guerra. Tal instalação, juntamente com a produção do festival e o público que alegremente chegava ao teatro, construía uma paisagem provocadora, sádica, que remetia a um festim diabólico, onde os convidados ignoravam os corpos mutilados os quais, de vez em quando, eram afastados com os pés para não atrapalhar o caminho. A escolha da encenação, portanto, expandia o foco da experiência artística para além do ato cênico, aproveitando a estética do teatro para deslocar o espectador para dentro do contexto político da peça.

No salão principal, a cortina aberta do teatro revelava a cenografia assinada por Rodrigo Shalako: um grande tecido, onde se podiam observar discretas linhas as quais lembravam fronteiras territoriais de mapas, ocupava o fundo do palco. Antes mesmo do terceiro sinal, numa possível posição anárquica de quebrar com a convenção teatral, a peça inicia com a projeção de um vídeo. Transeuntes respondem à pergunta: “Você sabe o que é a Faixa de Gaza?”, revelando ignorância por parte dos entrevistados a respeito do tema ou visões fortemente fundamentadas pelas informações difundidas pelos meios de comunicação em massa.

Após o término do vídeo, uma voz ecoa pela sala do teatro iniciando com o seguinte dizer: “Vocês são todos criminosos”, adotando uma postura perigosa e curiosa em tentar fazer o público refletir através de sua afronta e de sua desqualificação. O espetáculo inicia, portanto, tomando como ponto de partida a pressuposição de que os atores não estarão em uma relação horizontal, de compartilhamento com o público, mas numa relação vertical, pedagógica, de doutrinamento político. Se transferirmos essa experiência para o contexto da peça, poder-se-ia dizer que a encenação coloca o público exatamente na Faixa de Gaza: dividido entre a crueldade do sistema capitalista, representado na instalação do salão de entrada, e o extremismo político do Hamas, representado pelos arrogantes dizeres iniciais.

A engenhosa e movediça opção discursiva da encenação, que evoca a realidade da vida na Faixa de Gaza e a realidade da vida do público, entretanto, não contribui para o desenvolvimento e reflexão dos temas os quais a peça pretende abordar, evocando, contraditoriamente, os mesmos recursos midiáticos demagógicos os quais a peça critica. Digo isso porque na maioria das cenas as situações expostas mais reduzem do que expandem as paisagens do público, promovendo muito mais uma crítica pessimista e fatalista da realidade do que possibilidades de solução. Justifico tal conclusão pela análise de três momentos:

O primeiro deles é a escolha de uma linguagem jornalística, expositiva em alguns momentos, que condena a empatia e a condução do espectador perante as circunstâncias colocadas em cena. O vídeo o qual trata a situação a qual nos colocamos para alcançar um ideal de beleza, por exemplo, inicia com um depoimento promissor de uma mulher que faz uma cirurgia para a correção de uma ruga. O que se vê depois disso são fotos atrozes de mulheres desfiguradas por erros cirúrgicos ou ferimentos de guerra. Essa medida extrema, sensacionalista, não permite ao público evocar seu referencial poético para a construção de suas próprias paisagens, pois propõe uma situação e automaticamente a soluciona.

A cena na qual a atriz Deborah Finocchiaro critica as religiões consuma-se um “stand-up comedy”, totalmente deslocado da linguagem e da estética da peça até então, reduzindo a discussão ao clichê de a religião ser tratada como comércio. Se expandirmos a análise, podemos estabelecer uma contradição entre essa cena e o discurso da peça, uma vez que o mesmo princípio é adotado para denegrir os negros, mulheres, homossexuais e todas as minorias que sofrem com a banalização e opressão por suas condições e escolhas.

O terceiro momento o qual gostaria de analisar é o vídeo do rapaz nascido de um estupro. Este se revela tendencioso, não amplia a reflexão e discussão do assunto. Ele conta uma história triste, num tom triste, dentro de um contexto triste. Lembrando em muitos aspectos as práticas demagógicas dos telejornais populares que necessitam do apelo do público, ou mesmo das igrejas para conquistar seus fiéis. O recurso utilizado para a abordagem do tema, novamente, merecia ser mais bem avaliado para poder transcender da ação cênica e atingir o maior número de espectadores.

Por fim, concluo que o espetáculo GPS GAZA peca pela inocência e pela pretensão da forma de abordagem do tema, reduzindo muitas vezes a articulação de seu discurso por lutar pela liberdade com as mesmas armas de seu carrasco.

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