Nonada continua a parceria com o programa GameRS, que vai ao ar toda sexta-feira às 11h ao vivo na Mínima fm. O programa traz entrevistas, informações e trilhas do mundo dos games. Dessa vez, conversamos com a Marcela Trujillo, CEO da empresa Souking, sobre o trabalho dessa empresa que pretende divulgar jogos eletrônicos produzidos em âmbito nacional. Além disso, também conversamos com ela sobre o espaço das mulheres nos jogos.

GameRS – Pode explicar para nós o que é a Souking?

Marcela Trujillo é a diretora da Souking (Crédito: Arquivo/Divulgação)
Marcela Trujillo é a diretora da Souking (Crédito: Arquivo/Divulgação)

Marcela Trujillo – Primeiramente, prazer pelo convite. A Souking na realidade tem o objetivo de se tornar uma divulgadora dos jogos eletrônicos produzidos em âmbito nacional. Até tem um projeto de extensão mais à frente, mas, a princípio, a gente quer focar no mercado brasileiro. E ajudar essas empresas que estão desenvolvendo jogos a terem acesso ao público, aos jogadores que também não têm conhecimento do que está sendo produzido aqui. O que a gente percebe é que existem jogos sendo feitos e exportados para o exterior, mas aqui realmente as pessoas não sabem “esse jogo foi feito por uma brasileiro, por uma empresa brasileira”. então é mais pra trazer reconhecimento e mais seriedade para esse mercado que ainda é pouco explorado e pocuo valorizado.

GameRS – São quantas pessoas na equipe?

Marcela Trujillo – São nove pessoas. Estamos aos poucos expandindo, né.

GameRS – As formações são diferentes entre vocês?

Marcela Trujillo – Sim, no caso eu estou me graduando agora em Relações Internacionais, tem outro sócio que é especializado em web design, então ele já tem a questão mais visual, a questão mais de apresentação do site, como ele vai ser formatado, que é o Alexandre. E tem o Flávio, que é responsável pela parte técnica da nossa equipe, ou seja, ele vai ficar responsável pela nossa equipe de produção, vai desenvolver os jogos, e eu fico responsável pela parte gerencial da empresa, de coordenar as áreas e entrar em contato com as demais desenvolvedoras.

GameRS – Muitas startups mudam conforme a situação. É o caso do twitch tv que começou como um justin tv da vida, mas como ninguém assistia, virou um site de stream de jogos e agora foi vendido por 1 bilhão de reais pra Amazon. A Souking pode mudar ou já está bem definida?

Marcela Trujillo – Na verdade, eu acho que vai mudar, e muito ainda. A gente está se adaptando a um mercado no qual a gente tem que se consolidar e tem que criar um certo espaço. O meu projeto inicial – eu achava que isso era possível – era fazer com que a Souking fosse uma publicadora. Mas a gente viu que não teria viabilidade pela falta de recursos, a gente não tem muito apoio, muito incentivo do governo, para fomentar esse mercado de publicação. Então, inicialmente eu via que não tinha saída, eu tinha que começar como divulgadora, apoiando as empresas no acesso ao público, e depois ir para um estágio mais avançado, que é a publicação. Aí sim, trabalhando junto com as empresas e ajudando elas para que seus projetos sejam mais bem elaborados.

GameRS – Vocês começaram na Maratona de Empreendedorismo da UFRGS, correto? Ficaram um ano planejando tudo…

Marcela Trujillo – Na verdade, essa Maratona de Empreendedorismo da UFRGS foi um projeto que durou um semestre, tinha reuniões duas vezes por semana, e lá a gente elaborava como deveria ser feito o projeto, e tinha várias outras startups envolvidas, e foi muito legal a forma como eu fui bem recebida, não foi uma coisa que gerou muito preconceito a princípio, né. Foi importante estar ali para amadurecer o meu projeto e tornar ele possível, apresentável e viável para o público.

GameRS – A Souking não chegou um pouco atrasada depois da SplitPlay?

Marcela Trujillo – Pois é, no momento em que eu estava desenvolvendo, eu pensava muito nisso “ah, mas não tem nenhuma outra”. Na Maratona do Empreendedorismo, eu tinha que falar sobre os concorrentes, e não tinha nenhuma outra empresa para citar. Eu falei da Steam, mas é outro nível, não é aqui do Brasil. Durante o projeto, surgiu a SplitPlay e depois a Lab Indie. E foi engraçado, eu pensei em como eles tiveram a mesma ideia, o mesmo princípio de querer ajudar, então eu vi que essa ideia de querer se tornar uma desenvolvedora, uma divulgadora, para ajudar as empresas, já estava se disseminando muito. Mas nunca cheguei a imaginar que cheguei tarde demais. Tem mercado, é muito novo para dizer que  já era. Queremos conquistar o mercado brasileiro pouco a pouco, sem o objetivo de sair na concorrência com outras empresas que estão surgindo também.

Dreaming Sarah
Dreaming Sarah

GameRS – Falando do mercado brasileiro, os jogadores do país ainda não se abriram para os jogos nacionais. Por exemplo, o game Dreaming Sarah, que está há 3 meses nesse SplitPlay rendeu só 75 reais por meio da loja. Como a Souking pretende ter um resultado melhor?

Marcela Trujillo – Isso é um projeto que a gente tem na elaboração do nosso site. A ideia é tornar o público mais fiel dentro do site, uma ideia de proximidade, de que eles se conheçam mais, que estejam mais por dentro do que está sendo desenvolvido pelas empresas desenvolvedoras. Não só no sentido de eles darem um feedback, do que estão achando do jogo, mas também de terem vontade de adquirir os jogos que estão sendo produzidos, de tornar os jogos realmente importantes. Ao mesmo tempo em que os jogos começam a se tornar conhecidos, a vontade também aumenta de adquirir novas produções, até com esses eventos que estão ocorrendo no Brasil. Tudo isso incentiva a participação dos jogadores e o conhecimento deles no círculo dos jogos.

GameRS – E a atuação por enquanto vai ser só no Brasil mesmo?

Marcela Trujillo – Exatamente. A gente não pode sair ampliando assim sem pensar em como fazer isso parte por parte, né. Agora a gente entrou na Associação de Desenvolvedores de Jogos do RS,  mas a princípio a gente vai expandindo para outras regiões do Brasil, colocando mais empresas desenvolvedoras dentro da Souking, e depois sim expandindo para mercados sulamericanos.

GameRS – Só o surgimento da empresa já mostra como está crescendo o mercado no Brasil. Como tu vê a área?

Marcela Trujillo – A principal coisa que eu vejo que evoluiu bastante foi o interesse das universidades em colocar cursos especializados, palestras, tudo isso vem incentivando mais ainda para que esse mercado cresça e tenha mais gente interessada em estudar. Quando eu falei sobre jogos dentro do meu curso de Relações Internacionais, um professor se surpreendeu por eu estar falando no assunto. Primeiro por eu ser uma mulher querendo falar sobre isso e segundo por ser algo muito novo, e é interessante essa temática dos jogos nas Relações Internacionais, porque isso traz novos estudos a serem abordados.

GameRS – Que experiência tu tem no desenvolvimento de jogos e como essa experiência te ajudou na Souking?

Marcela Trujillo  –Eu participei de duas game jams como ilustradora. Desde pequena eu sempre soube desenhar, sempre tive habilidade para isso, então eu fazia a parte conceitual, para poder justamente cobrir um vazio que a gente tinha na área. Experiência no curso de jogos, eu não tenho, mas sempre estive muito por perto das reuniões, com o pessoal da área de jogos da Unisinos, daí surgiu meu interesse em trabalhar com jogos.

Data Defender
Data Defender

GameRS – Esse jogo que vocês estão fazendo, já pode falar alguma coisa sobre ele?

Marcela Trujillo – É um jogo para mobile, também pode ser jogado para o PC, com tema tecnológico. O nome é Data Defender, só que a gente ainda tá na fase de desenvolvimento. Somente quando o site final estiver no ar a gente vai conseguir ter um blog para que as pessoas possam acompanhar como está sendo essa fase de produção do jogo e o que a gente tem de novidade.

GameRS – A tua experiência na área de Relações Internacionais pode agregar uma nova visão na empresa? Uma formação além dos jogos também ajuda os desenvolvedores?

Marcela Trujillo – Com certeza. Dentro do curso, eu tive muito estudo sobre o mercado, de como é fazer negociação não só entre países, mas entre empresas também, justamente na parte gerencial, de negócios, então isso foi muito importante para consolidar a empresa. Não adianta querer iniciar um projeto sem ter uma noção de como trabalhar nisso.

GameRS – Segundo uma pesquisa da Harvard Business Review, 1,5% dos CEO’s das maiores empresas do mundo são mulheres. Como é ocupar essa posição nesse cenário?

Marcela Trujillo –É bem interessante, porque chama atenção de que as mulheres estão querendo participar desse mercado e é importante mudar essa visão de que somente homens podem estar dentro dos jogos. É pouco a pouco se inserindo nesse mercado que a gente começa a ter um certo destaque, um feedback do quanto pode ser importante a nossa participação para essas empresas que estão querendo desenvolver jogos.

GameRS – Saiu uma pesquisa da Flurry recentemente mostrando que as mulheres gastam 35% mais tempo nos jogos mobile do que os homens. O mobile tem mais facilidade de inserção no mercado?

Marcela Trujillo – A questão mesmo é de as mulheres se familiarizarem com a tecnologia. Antes, quando se pensava em tecnologia, era muito ligado ao homem, tanto quem produz quanto quem utiliza. Então o mobile possibilita que a mulher tenha mais conhecimento sobre os jogos, já que é por eles que ela vai começar a jogar por exemplo Candy Crush. Então acho que é a partir daí que elas começam a explorar mais o mercado.

GameRS – Qual é o significado do nome Souking?

Marcela Trujillo  – É a abreviatura de South King, que significa rei do sul. Quando eu estava elaborando o nome da empresa, eu queria que passasse uma seriedade, algo daqui do sul que as pessoas dessem valor, então a marca, juntamente com a abreviatura, deu a ideia de “sou rei”, de que cada pessoa que faz parte desse mercado é importante e “soul” de alma, de mostrar que você tem respeito no mercado de jogos.

GameRS – O número de mulheres desenvolvendo jogos é bem menor que o de homens, no máximo 10%. Como a presença de mais mulheres pode beneficiar a indústria dos games?

Marcela Trujillo – Eu acho que beneficiaria mais justamente no sentido de produzir jogos que atraiam mais mulheres, que as mulheres possam se identificar mais. Ter mais mulheres no desenvolvimento traria mais identificação e mais reconhecimento no mercado e isso traria não só outro foco de mercado, mas também ajudaria para que o crescimento total do mercado.

GameRS – A feminista Anita Sarkeesian,  criadora do site Clique Feminist Frequency, critica a maneira como as mulheres são mostradas nos jogos. O que tu acha da representação das mulheres nesse meio?

Marcela Trujillo  – A representação ainda continua sendo bastante discutida porque não é exatamente como as mulheres se veem, esse excesso de sexualidade ou, se ela tem um traço mais duro, é vista como uma forma mais masculina de ser. Então acaba sendo um lado ou o outro. Ou ela é muito feminina, justamente para explorar o mercado masculino e por essa questão de mostrar a mulher como frágil e sensível ou se ela for mais forte, mais durona, ela é masculina. Nunca está no meio termo, nunca é como as mulheres realmente se veem.

A personagem Lara Croft mudou a sua aparência ao longo do tempo
A personagem Lara Croft mudou a sua aparência ao longo do tempo

GameRS – Esses tempos eu tentei jogar The Witcher e eu não consegui por causa das personagens mulheres, era excessivamente sexualizado. Tem algum jogo que tu acha que representa bem o sexo feminino?

Marcela Trujillo – Tem o jogo da Lara Croft, que é o Tomb Raider, que veio justamente para revolucionar a forma como as mulheres são vistas. Se tu vê a personagem como era antigamente, com short curto, com um corpo atrativo, e agora ela ficou mais séria e intelectualmente mais avançado. Tu percebe que tem uma sofisticação no modo de ela agir e pensar, justamente para mudar a visão de que ela é uma “menininha, bonitinha e sabe muito bem fazer o que faz”.

GameRS – Tu já sofreu preconceito por estar nesse meio?

Marcela Trujillo – Não necessariamente preconceito, mas aquela visão meio receosa assim, “o que ela quer com jogos? por que ela escolheu isso?”  Eu nunca tive medo de quebrar essa barreira e tentar promover essa mudança, eu acho que é dessa forma, insistindo, tentando se inserir e mostrando que a gente sabe o que está fazendo, que a gente realmente gosta de jogos, mulher pode gostar de jogos. Aos pouquinhos eu fui consegui ir mostrando que estou aqui para trabalhar com jogos porque eu gosto, não por interesse.

GameRs – Atualmente a gente vê até no cinema, filmes de ação com mulheres protagonista, por exemplo. Tu citou Tomb Raider. Tem esse lado não só das mulheres, mas também explorar os relacionamentos homossexuais. Tem o jogo Mass Effect, em que você pode ter relações homossexuais dentro do jogo.

Marcela Trujillo – É, acho que é uma questão mesmo de mercado. Inicialmente, era muito focado no mercado masculino, porque era realmente o que gostava. Por uma questão de expansão desse mercado, a indústria começou a ver a necessidade de explorar também o público feminino. Seria um outro nicho, mas que ampliaria de certa forma o mercado de jogos. Atualmente, eu vejo até nas palestras que tem mais mulheres apresentando os jogos, como eles funcionam… mulheres que estão tomando a frente das empresas desenvolvedoras. Isso já mostra que elas estão sendo valorizadas, já mostra uma certa representatividade das mulheres.

Escute o programa com a entrevista, e muito mais:

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Um comentário sobre “Empresa Souking quer divulgar games brasileiros”

  1. Gosto muito de jogos , já fiz jogos de porte pequeno mas ,não é tão fácil .
    Quero muito ser design de jogos o que fazer ???

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