O Menino e o Mundo

Não que o Oscar seja o mais fiel indicador de qualidade cinematográfica, mas, se tem um filme que merece ganhar o prêmio, este é O Menino e o Mundo, do diretor brasileiro Alê Abreu. O filme é belíssimo, despretensioso e de aparência muitas vezes artesanal – os “desenhos palitinhos” a lápis de cor são a alma do longa-metragem. Na trama, o pai do protagonista resolve sair de casa para procurar um novo emprego, já que seu trabalho no ramo de produção de algodão se torna insustentável. A criança, então, vai em busca do pai, partindo para uma jornada de descobertas que é também uma espécie de odisseia lúdica.

E se, no início do filme, o minimalismo da linguagem reflete a ingenuidade do menino diante do mundo desconhecido, ao longo da história a técnica evolui para uma mistura de aquarela, tinta acrílica, colagens de papel e até mesmo caneta bic. O resultado é de encher os olhos. Cores, texturas, formas, tudo é milimetricamente pensado no filme de Abreu, para representar o mundo “aos olhos de uma criança”, como diz a bela música do rapper Emicida, presente na trilha sonora. Somam-se a isso ousadias estéticas como os espaços em branco na tela e a ausência de diálogos reais (os personagens falam pontualmente, em uma língua inventada).

menino mundo
Cores, texturas, formas, tudo é milimetricamente pensado no filme de Abreu, para representar o mundo “aos olhos de uma criança” (crédito: divulgação)

Embora o lirismo do longa por si só já conquiste o telespectador, há um forte teor político-social no filme de Abreu, que o torna ainda mais rico. Ilustrativo é o momento em que o menino chega à cidade e descobre a industrialização e a desigualdade social: são mostrados contrastes entre os lixões e o espaço de alta tecnologia que flutua acima da cidade e é acessado por alguns privilegiados.

O hibridismo das máquinas-bichos, a exemplo do trem-lagarto que leva o pai do menino para nunca mais voltar, reflete uma crítica à mecanização da vida. O embate simbólico entre o pássaro colorido de manifestantes – que protestam através da ocupação física e artística dos espaços públicos – e a águia preta que remete ao nazismo das forças policiais repressivas é uma das passagens mais marcantes do longa. A certa altura da produção, Abreu usa também cenas de documentários em live-action para retratar temas como a repressão e a destruição do meio-ambiente. Há ainda críticas ao consumismo e à publicidade excessiva nas ruas e na televisão.

Apesar do caráter universal da história, é interessante notar como elementos de brasilidade aparecem ao longo de todo o filme, como o prato de arroz com feijão na mesa da família do protagonista ou o chapéu estilo cangaceiro dos trabalhadores da fazenda. Nesse sentido, vale destacar a inspirada trilha sonora, com elementos da música africana, uma das nossas heranças culturais mais marcantes, a exemplo de Airgela, música-tema do filme.  Coerente com os outros aspectos da produção, a trilha é composta por músicas orgânicas, interpretadas pela banda Barbatuques e pelo Grupo Experimental de Música.

O Menino e o Mundo, por exemplo, estreou em janeiro deste ano em pouquíssimas salas de cinema comerciais (crédito: divulgação)
O Menino e o Mundo, por exemplo, estreou em janeiro deste ano em pouquíssimas salas de cinema comerciais (crédito: divulgação)

O longa já ganhou mais de 20 prêmios em festivais ao redor do mundo, incluindo o de melhor filme no Festival de Annecy, na França, o mais importante da categoria. Esse sucesso não é um fato isolado. A produção brasileira de animação vive uma curva ascendente nas últimas duas décadas, devido a fatores como o financiamento público e a facilitação de acesso à tecnologia. Apesar disso, a animação brasileira ainda não conquistou o público interno. O Menino e o Mundo, por exemplo, estreou em janeiro deste ano em pouquíssimas salas de cinema comerciais. Uma História de Amor e Fúria, filme de Luiz Bolognesi que no ano passado também venceu o Festival de Annecy (a conquista foi inédita para o Brasil) e esteve na lista dos pré-indicados ao Oscar, teve desempenho parecido. A obra só ganhou reconhecimento da mídia após a estreia, justamente devido aos prêmios. A situação é diferente para os animadores que se tornaram amplamente conhecidos por seus trabalhos em Hollywood, como é o caso de Carlos Saldanha, de Rio e A Era do Gelo.

O Menino e o Mundo é um filme intimista, lúdico e criativo, mas que simultaneamente traz uma dura representação do Brasil e tem o DNA do país. E mais: é feito por uma produtora nacional (a Filme de Papel), que desde os anos 70 vem lutando para alavancar a animação no país. Por tudo isso, torço para que o filme ganhe o Oscar. Ele merece ser conhecido e ter seu alto nível de qualidade valorizado, sobretudo, pelos brasileiros.

 

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