O Lobo do Mar faz uma análise psicológica das situações e dos personagens
O Lobo do Mar faz uma análise psicológica das situações e dos personagens

Jack London (1876-1916) foi uma pessoa extraordinária. Em todas direções ou ponto de vista que se analise sua vida pessoal, o escritor americano Jack London foi uma referência na contestação ao padrões estabelecidos em sua época, razão pela qual até hoje é ele cultuado como um dos fundadores da rebeldia norte-americana ao estilo on the road, consagrada, anos depois, pelos escritores da geração beat. Dentre seus livros mais importantes, destaca-se O lobo do mar, obra publicada em 1904, momento em que o escritor americano encontrava-se no auge de sua produção literária. Nesse livro, a profunda e rigorosa análise psicológica das situações e dos personagens, os jogos intelectuais e a radicalização das diferenças culturais e sociais fazem com que este livro vá muito mais longe do que um mero romance de aventuras. Vejamos.

O enredo essencial do romance O lobo do mar é a relação que se estabelece entre Van Humphrey van Weyden, ou “Hump” (como passa a ser chamado), indivíduo da alta sociedade e bastante culto e Wolf Larsen, capitão do navio de caça marinha Gost, figura abominável e temida por todos os seus comandados.  A relação entre os outros é de amor e ódio, algo como a luta entre o bem o mal. Isso porque Wolf Larsen, o capitão do navio – o “Lobo do Mar” do título – é uma figura assustadora e que se impõe pela violência à sua tripulação. Mas a relação entre ambos é também de um jogo intelectual: enquanto um deles (Hump) apresenta-se como um intelectual, de boa família, pessoa distinta, um bon vivant, com rendas próprias e que exatamente por isso nunca precisou trabalhar na vida, o outro, o demoníaco capitão, é um sujeito selvagem, grosseiro, beirando à barbárie, mas que, paradoxalmente, tem muita leitura e um passado que não ele revela a ninguém. Os dois se identificam por esse embate intelectual – mas as semelhanças param aí. A relação entre ambos inicia após Hump ser resgatado em alto mar e embarca no navio dedicado à caça de focas, onde é obrigado a fazer pequenos serviços ao comandante e sujeitar-se às regras tirânicas impostas por este. Inicialmente ele se recusa, questiona e até tenta enfrentar o capitão, mas a brutalidade do outro o impede de escapar do navio. Ele é praticamente escravizado. Ao longo da viagem, contudo, a permanência de Hump e suas ideias questionadoras vão revelando facetas dolorosas de Wolf Larsen. O transcorrer dos eventos trágicos e violentos, bem como a chegada de outras pessoas ao navio, só aumentam ainda mais os contrastes sociais e existenciais entre ambos.

O espírito aventureiro e o dom para a polêmica borraram com tintas sensacionalistas a trajetória do escritor norte-americano Jack London, hoje quase uma lenda literária. Desde os inúmeros casamentos, sua participação na corrida ao ouro no Oeste dos Estados Unidos em fins do século XIX, aventuras em alto mar como marinheiro de barcos de pesca, polêmicas literárias e até acusações de plágio – sem falar no irrelevante dado de que talvez fosse filho de um astrólogo famoso –, tudo na vida de Jack London está envolto na transgressão constante aos padrões de costumes da época. Em que pese acusações de plágio (não comprovadas), London é considerado um dos grandes escritores americanos. Entre seus principais livros na extensa galeria de publicações, estão O chamado da floresta (1903) e Caninos brancos (1906), duas obras que conversam com O lobo do mar nesse contato intenso com a natureza selvagem. Em todos eles, o espírito de contestação e a adoração à vida selvagem e fora dos padrões inspiram a escrita de London e também o imaginário de seus leitores. Como acontece no filme Na natureza selvagem, em que o protagonista decide se separar da sociedade e viver no Alasca, longe de tudo e de todos, ele também era um leitor de Jack London, esse “lobo das letras”.

Jack London foi figura do meio intelectual cultuada em sua época e é até hoje um signo de rebeldia. Contudo, ao avançarmos na leitura das páginas de O lobo do mar, percebemos que o livro não se resume apenas a um mero registro dessa rebeldia: há, nas páginas e diálogos do livro, muito mais sabedoria, muita psicologia, filosofia e história de vida e de superação; e se os dois seres humanos que levam esta história nas costas – o viajante dândi e o terrível comandante do barco – têm lá suas diferenças, é exatamente isso que faz deste romance uma obra-prima que nos ensina muito. Sobre o mar, sobre a vida.

Boa leitura.

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