porcoLançamento da 60ª Feira do Livro de Porto Alegre, Dia de matar porco (Editora Dublinense, 112 páginas, R$34,90), romance-novela do escritor gaúcho Charles Kiefer, é uma aula de literatura, esta, aliás, uma das atividades profissionais que consagraram o autor nos meios literários porto-alegrenses. Romance com tons nitidamente autobiográficos, a obra faz um bonito jogo de espelhos entre o ato crucial de se matar um porco, típico na região de ocupação colonial do Rio Grande do Sul, e o acerto de contas com o passado de um advogado candidato a escritor – o protagonista do livro.

O medo da morte em um hospital e os fantasmas do passado que ressurgem nas lembranças de um consagrado advogado dão o ponto de partida desta narrativa. Ariosto Ducchese, hoje advogado, mas com origens na pequena agricultura familiar do Rio Grande do Sul, escapou de uma morte por hemorragia depois de sangrar por dias por conta de complicações médicas. No quarto do hospital, ele se depara com sua mãe, já falecida — e este fantasma, misto de alucinação e retorno ao passado – o impele a decidir escrever um livro de memórias.

Com isso, ressurgem todas as lembranças e assombrações da vida dura no campo, da infância pobre e de privações, vida deixada para trás há mais de trinta anos quando saiu do quartel direto para o mundo. São descritas em suas memórias tanto as relações familiares, o modo de produzir do pequeno agricultor, as nuanças da vida no campo num tempo anterior ao nascimento do agronegócio, bem como os rituais do dia a dia — incluindo aí o dia de matar porco, quando os meninos eram alçados para as atividades da vida adulta. Ariosto, hoje bem-sucedido e muito bem casado, refaz seu caminho de volta a Pau D’Arco, sua cidade natal, relembrando todos os tipos de emprego, suas moradias e experiências, até chegar a se estabelecer em Porto Alegre.

Em Dia de matar porco, Charles Kiefer retorna ao romance (crédito: Maíra Kiefer/Divulgação)

Ao recontar a história da sua vida como se estivesse conversando consigo mesmo, acaba por examinar uma série de questões culturais, literárias e até mesmo filosóficas, retornando em suas memórias ao mesmo lugar e ao ambiente de brutalidade em que uma história familiar terrível ficou enterrada todos esses anos.Descortinar o passado e revisitar a cidade natal fazem deste pequeno romance (ou novela) um ato de coragem – ainda que o livro tenha seus momentos de exibicionismo cultural. Nesta longa viagem memória adentro, quem ganha é o leitor, que vê, no nascedouro, o surgimento de um escritor. Autobiográfico? Descubra você.

Dia de matar porco é um retorno do escritor gaúcho Charles Kiefer ao romance. Dono de um currículo considerável, Charles Kiefer é natural de Três de Maio (RS), região com características muito próximas das descritas pelo protagonista de Dia de matar porto em suas lembranças mais caras – os recuerdos com os quais quer acertar as contas. Kiefer estreou na ficção em 1982 com Caminhando na chuva, uma novela infantojuvenil que já vendeu mais de cem mil exemplares. Ganhou três vezes o Prêmio Jabuti: em 1985, com a novela O pêndulo do relógio, em 1993, com o livro de contos Um outro olhar; e em 1996, com Antologia pessoal. Além de inúmeras outras premiações, guarda no currículo o espantoso número de mais de trinta livros publicados no Brasil, na França e em Portugal. Atualmente, é professor de Escrita Criativa na PUCRS e orientador de oficinas literárias particulares. Dia de matar porco surge na rica trajetória de sua carreira como um livro memorialístico, ainda que, ao fim e ao cabo do porco morto do romance, ele não seja assim totalmente autobiográfico. Queremos crer!

Retornar à literatura desse consagrado escritor gaúcho foi um prazer. Uma aula. Dono de uma técnica fabulosa, justamente por se tratar de um autor conhecido e aplaudido como ministrante de oficinas literárias em Porto Alegre, Kiefer dá ao leitor surpresas magníficas com o desfecho dessa pequena novela – assim quero entendê-la. Ainda que a condução do livro tenha lá seus deslizes egocêntricos, talvez numa sede de repetir outros exibicionistas de nossa literatura – leia-se Rubem Fonseca em seu Diário de um fescenino –, o prazer e a surpresa do ponto final desta leitura deixarão excelentes recordações e profundas divagações na cabeça do leitor. Afinal, não é este o papel da boa literatura?

Boa leitura.

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