Texto Henrique Coradini

Hoje, da esquerda para direita, a banda é composta pela recém-incorporada baixista Fernanda Schabar, Guilherme F., na bateria, Richard La Rosa, na guitarra, e Stefano Fell, guitarra e voz. (Crédito: Divulgação/Banda)

Assistir à Loomer tocar é uma experiência de preenchimento e expansão. Todo o espaço parece ser tomado pelo som das guitarras que – distorcido por dezenas de pedais – sai das caixas de som. A música procura se expandir até o ponto em que explode no ar. De fato, presenciar uma apresentação da banda envolve menos consumo e mais sensação. Uma experiência de dor e doçura.

Com uma sonoridade obviamente atrelada aos shoegazers britânicos do final dos anos 80 e início dos 90, (Ride, Slowdive e, é claro, My Bloody Valentine), com passagens por Space Rock e Guitar Rock (rótulos, muitos rótulos), a banda vem há alguns anos representando a música autoral independente brasileira. Bastante auto-críticos e cuidadosos com o que falam, os membros do grupo representam um desafio a qualquer entrevistador. Porém, a partir do momento em que se sentem confiantes, revelam-se bastante analíticos em relação ao que produzem.

Conversei com o guitarrista/vocalista Stefano e com o baterista Guilherme acerca do álbum You Woudn’t Anyway (2013, Midsummer Records), guitarras, ruídos e outras coisas mais, mas calma, eu não perguntei se o nome da banda vem da música do My Bloody Valentine.

Nonada – O shoegaze foi um movimento bastante fugaz, mas de grande impacto. Entre seu surgimento e queda, poucos anos se passaram. Assim, o som passou a ser característico daquele momento (final dos 80 e início dos 90). Abrangendo diversos elementos do gênero em sua sonoridade, quais as estratégias da banda para não cair em armadilhas do anacronismo?

Guilherme: Não traçamos estratégias. Não como banda, pelo menos. Somos muito desorganizados pra isso. Mas talvez uma coisa que não podemos separar do som que fazemos são as individualidades de cada um na banda. Existe uma diferença de gostos e estilos, mas todos tentam ser livres para fazer o que quiser dentro de uma estética comum. Que é justamente dessas bandas dos 80 pros 90…Daí tem que deixar solto mesmo, pra não tentar forçar uma ideia tão definida, tão engenhosamente traçada. Mas não ficamos presos a isso. Estamos em 2014, há uma montanha de musicas e formas de expressão criativas. Então, tentamos ser contemporâneos dentro de um universo mais restrito.

Stefano: Tentamos não pensar muito nisso. Neste caso, acho que pra não cair na armadilha, ajuda não saber da sua existência. De qualquer forma, tentamos deixar o processo de criação ser o mais natural possível, sem planejar como será toda a música antes de começar a executar. Cada um tem bastante liberdade para tocar como quiser. Escutamos várias coisas, e as influências aparecerão de uma forma ou outra.

Nonada – O disco You Wouldn’t Anyway, lançado em 2013, vem gerando críticas positivas desde então. Como vem sendo a recepção da Loomer nesse quase um ano de lançamento do disco?

G: Em se tratando de uma produção independente, com os previsíveis percalços no caminho, na qual os guris captaram e mixaram sozinhos, o resultado e a recepção do disco foi muito boa. Conseguimos boas criticas e bons shows fora do estado por causa disso. Ainda estamos trabalhando nele esse ano. Não temos ainda um esquema de produtor fixo. De achar brechas de mercado, de investimento massivo nisso. Mas pelo nosso tipo de som, achamos que poderíamos fazer alguma tour fora do país. É uma ideia que nos inspira.  Mas talvez essa ideia se concretize no próximo álbum. Já temos algumas músicas prontas e pretendemos lançar em 2015.

S: A recepção vem sendo acima do esperado pela gente. Além da execução, nós mesmos gravamos e mixamos o álbum, e eu pessoalmente acho que não saiu como poderia ter saído. Mas considero que é um álbum que tem sua sonoridade particular, o que é bom no final das contas. Quando as pessoas falam que gostaram dele, é bastante recompensador.

Nonada – E quanto à participação da banda na coletânea Latin American Shoegaze. Como se deu o processo todo?

G: Conhecemos o Jairo Mansur lá por 2010. Um cara muito gentil e com um trabalho bacana de divulgação de bandas shoegazers na internet. É uma honra estarmos inseridos nessa coletânea. Poder ser escutado por pessoas de fora do país, de certa forma encurta pra nós as tão conhecidas distancias entre os países latinos. Queríamos propor ao Jairo Mansur um shoegazer Alive Festival com algumas bandas tocando fora do seu país. Colombia, Peru, Argentina, Brasil…Mas acho que ele já deve estar pensando em fazer isso.

S: Ficamos bem felizes com o convite do Jairo Mansur para participarmos da coletânea. Ele tem nos apoiado bastante nestes anos. Desde 2011, a primeira matéria que ele fez no seu blog “Latinoamérica Shoegaze” foi dos nossos EPs Mind Drops e Coward Soul, até hoje com a participação na coletânea. Não sabemos como agradecer.

O disco You Wouldn't Anyway foi lançado em 2013 (Crédito: Divulgação/ Banda)
O disco You Wouldn’t Anyway foi lançado em 2013 (Crédito: Divulgação/ Banda)

Nonada – Lembro de ter visto a Loomer ao vivo (abrindo para Stephen Malkmus, 2013) antes de ouvir qualquer registro em estúdio e ter ficado bastante impressionado. Eram canções que, mesmo desconhecidas, geravam sensações intensamente físicas através da sonoridade. Como vocês observam a reação do público em relação a suas apresentações? Há um certo fascínio por parte da banda em relação a esse desafio?

G: Sim. Aquele show foi uma boa oportunidade para isso. Tínhamos um bom equipamento, operador de som nosso, e uma casa cheia para nos assistir. Temos muitos desafios técnicos na hora de fazer um show. São duas guitarras com muitos pedais e dois vocais, que precisam de uma ambiência adequada. Muita gente ainda não conhece essa estética sonora, de shoegaze, de bandas de guitarras dos anos 90. Operadores de som brasileiros precisam se atualizar, não ficar só no “rock and roll”, e a banda também tem que saber comunicar e se estruturar nesse sentido. Além disso tem toda a preparação para um show: formatá-lo. Strobo, luz, fumaça. A atmosfera que imaginamos e o desenvolvimento do show como um todo, é agora que estamos de fato dando a devida atenção pra isso, Antes a gente plugava os instrumentos e saia tocando onde nos convidassem. Ainda fazemos isso, mas estamos aprendendo, na prática mesmo, a usar esses recursos técnicos a nosso favor. Talvez nosso ultimo show no SESC Pompéia tenhamos conseguido expressar em qualidade de som e luz, o que a Loomer é, qual seu poder. E aí as coisas são percebidas, se transformam para melhor.

S: A gente costuma não ter ideia do todo que está se formando quando estamos tocando. Como a gente toca num volume razoável, a situação é que cada um fica numa bolha de som, sem ouvir muito bem o resto. É algo muito bom que no final das contas tudo dê certo de alguma forma. Ficamos bem felizes quando as pessoas dizem que foi um bom show, mas não é surpresa também que possa ter ficado estranho. Por isso temos levado uma pessoa externa sempre que possível e que conheça nossa sonoridade. Que bom que a nossa entrega e intensidade consigam ser transmitidas de alguma forma as pessoas que assistem em alguns momentos. Faz tudo valer a pena.

Nonada – Com capa de Itapa Rodrigues e ilustrações de artistas diversos como Gabriel Renner, Fábio Lyra – entre outros -, You Woudn’t Anyway revela uma óbvia preocupação da banda com a parte gráfica do disco. Como vocês encaram esse aspecto visual de suas peças em relação ao som da banda?

G: Gostamos de quadrinhos, de cinema, de ilustradores de capas de disco e pôsteres de shows. Então, seria natural que quiséssemos alguma representação nesse sentido. A parte gráfica do disco, tem a ver, um pouco com o nosso som. São ideias separadas, que juntas, criam uma unidade, mas também é desfragmentado. Não possuem necessariamente uma relação entre elas. Demos a letra e uma musica para cada artista gráfico e deixamos eles livres para fazer o que quisessem, deixando capa, cores, lettering para o Itapa, que já havia feito a arte de nossas camisetas e a alguns cartazes de shows. O Richard, nosso guitarrista, que também é designer foi o responsável pela direção de arte e arte final. Ficamos satisfeitos com o resultado.

S: Tentamos convidar artistas que gostam da banda, e que nós gostamos também. Eles agregaram muito valor ao resultado final. O que inicialmente nos causava surpresa ao ver como cada um interpretou cada música, hoje eu diria que é difícil dissociar uma coisa da outra. Ficou realmente um belo trabalho final.

Nonada – De fato, em tempos de mp3 ou streaming, quando o aspecto de objeto musical como artefato físico vem sendo deixado de lado por muitas pessoas, a Loomer lançou um disco em vinil e parece encorajar – através dos já citados atrativos visuais – uma experiência musical voltada ao lado físico (a experiência quase ritualística de botar o disco no sistema de som e ouvi-lo apreciando o encarte). Seria isso uma experiência retrô ou advém de uma preferência da banda em relação às formas de consumo/apreciação do disco?

G: As duas coisas: quando éramos guris, essa era uma diversão que agora parece ter voltado como mais uma opção de valorizar o trabalho das bandas. Mas além da questão do formato físico e táctil, gostamos do som mais “cru e realista” que sai de um vinil. Tb dá pra ouvir no computador e curtir a arte do encarte (caso você não tenha ainda comprado seu player de vinil). Então é retrô, mas não é, entende?

S: Nós também somos consumidores de discos de vinil. Sendo assim, é natural que a gente ache que é um bom formato para poder oferecer. Apenas estamos tentando fazer as coisas conforme a gente acha certo de acordo com nossos valores. Acho que ter o formato físico do disco valoriza o trabalho que fizemos. É algo que está ali “eternizado” de alguma forma. Representa alguma coisa para nós que o produzimos, seja como banda, artistas, selos e demais envolvidos, mas também é representativo para quem compra e escuta. Além do vinil, também fizemos o lançamento em CD Digipack, com o encarte com as artes inclusas. Aliás, agradecemos a Midsummer Madness pelo apoio na confecção dos discos físicos. E mesmo assim também fizemos questão de disponibilizar no formato digital para ser ouvido pela internet gratuitamente. E neste formato digital, gostaria de agradecer, além da Midsummer, os selos Transfusão Noise Records e Sinewave, grandes parceiros de barulho.

Nonada – Em Julho vocês lançaram o disco oficialmente em POA em um evento que contou com a conterrânea Carne de Monstro. Que outras bandas vocês observam na cidade? Há espaço para produção criativa em POA hoje (essa pergunta só não é mais velha que “de onde vem o nome da banda?”, mas, ao contrário da primeira, essa gira em torno de variáveis contextuais que estão em constante mudança)?                                                

G: Somos egressos de outras bandas, de outras épocas, e parece que nunca na história dessa cidade, houve tão poucas opções de casas de shows e espaços culturais para trabalhos autorais. Mas isso vem sido dito desde que lemos entrevistas de bandas de rock em magazines compradas em bancas de jornal…Estamos vivendo uma transformação, mas também é uma espécie de limbo. Existem bandas boas e criativas as pencas, mas elas e o publico delas parecem conformados em não vê-las muitas vezes ao vivo. É geral, não só aqui, mas nos entristece saber que poderiam haver bares e casas de shows com um tratamento digno as bandas, e que público, casas de shows e bandas saiam satisfeitas…No entanto, sabe-se que é a cadeia toda que tem que funcionar: mídia, jornalistas, produtores, espaços de shows, profissionais técnicos, e, óbvio, as bandas. Onde algum investimento deve sustentar tudo isso. Não se sabe da onde, mas sabe-se que um pouco, pelo menos, pode-se conseguir. Nosso show de lançamento foi bem difícil por isso. Falta de local, data e dinheiro. No entanto, precisávamos lançar nosso trabalho em POA. Decidimos chamar a Carne de Monstro por seu estilo blazé, e pela parceria com o artista gráfico Itapa Rodrigues. Também gostamos de algumas bandas da cidade e do estado. Dificil não citar as que temos maior convívio e sintonia: EX, Scafandro, The Sorry Shop (Rio Grande), Sileste, Lautmusik… Além de algumas bandas de fora do estado, que não necessariamente fazem o mesmo estilo de som que o nosso, e que cultivamos uma parceria quase de guerrilha.

S: Eu diria que enquanto existirem bandas que queiram tocar, e pessoas que queiram assistir, vai haver espaço para isso. Hoje parece ter aqui menos espaço que a um tempo atrás, mas eles ainda existem. E boas bandas também. Eu diria que os “agitadores” culturais, ou aqueles que gostam desta função pelo prazer da coisa em si, é que estão um pouco mais escassos. Sobra para as bandas se mexerem, e as vezes sobra até para o público fazer essa função. No fim das contas tanto faz.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments