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O Jogo da Imitação (The Imitation Game, EUA/Reino Unido, 2014)

Direção: Morten Tyldum

Roteiro: Graham Moore, baseado em livro de Andrew Hodges.

Com: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Allan Leech, Rory Kinnear, Mark Strong, Matthew Beard, Charles Dance, James Northcote, Jack Bannon e Alan Lawther.

É curioso que a cabine de imprensa de O Jogo da Imitação tenha acontecido poucos dias depois da de Invencível, dados os leves pontos de contato entre os dois filmes: ambos empregam narrativas não-lineares para contar histórias que se passam durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, se no longa de Angelina Jolie os flashbacks denunciavam uma estrutura frágil (já que surgiam sem razão aparente), o primeiro longa anglófono do norueguês Morten Tyldum (Headhunters) dinamiza seu estudo de personagem ao revelar traços de sua personalidade fora de ordem cronológica.

Essa abordagem é estranhamente eficaz para uma cinebiografia com ar tão “certinho” (pelo menos, é a impressão passada pelo seu marketing). Acompanhando o matemático Alan Turing (Cumberbatch) em três momentos de sua vida, a linha narrativa principal envolve a participação de Turing no esforço da inteligência britânica em descobrir um modo de decodificar as mensagens secretas dos nazistas, cuja criptografia era considerada inviolável. Entre sua relação tensa com o exército, o MI6 e seus próprios colegas de trabalho, acompanhamos momentos da difícil adolescência do sujeito, quando descobriu a própria homossexualidade; e alguns anos após o fim da guerra, quando a justiça britânica o condenou por crime de obscenidade.

Embora atormentado por um violento bullying que lhe deixou marcas pelo resto da vida, Turing jamais se converte numa figura das mais simpáticas – um acerto do roteirista estreante Graham Moore. Traços como insolência, arrogância e um mal disfarçado desprezo pela inteligência da maior parte dos seus pares tornam Benedict Cumberbatch a escolha ideal para viver o matemático, já que essas características também se aplicam ao seu icônico Sherlock Holmes da série da BBC – e aí reside a virtude mais inesperada de O Jogo da Imitação: seu humor, pois a personalidade difícil do sujeito e sua dificuldade em seguir os mais básicos códigos de interação geram vários momentos engraçadíssimos. E é admirável que essas cenas divertidas funcionem mesmo depois de descobrirmos sua raiz dolorosa: afinal, se o humor de Holmes vem de sua absoluta indiferença a quase todos os que o cercam, Turing usa essa faceta como escudo contra o mundo.

Um escudo menos poderoso do que ele gostaria, no entanto, pois aqui e ali se notam rachaduras em sua persona inabalavelmente racional: quando é ameaçado por Hugh Alexander (Goode), por exemplo, ele se encolhe como uma criança ao invés de tentar reagir; quando pede a colega Joan Clarke (Knightley) em casamento a fim de impedi-la de deixar sua função, logo lamenta a dor que sua ação lógica causará na noiva – e ao batizar sua máquina em homenagem a sua paixão de adolescência, ele exibe uma vulnerabilidade que trai sua natureza fria. Assim, a performance de Cumberbatch é brilhante em deixar clara para o espectador a própria tragédia que Turing busca ocultar a todo custo. Na via contrária, Keira Knightley se sai bem ao viver uma figura que cresce a olhos vistos ao longo da narrativa: inicialmente acuada em aceitar uma vaga em um meio de trabalho majoritariamente masculino (mesmo mostrando-se mais capaz do que a maioria dos colegas), Joan passa aos poucos a confiar mais na própria inteligência, no que conduz à sua melhor cena: quando se magoa com Turing não tanto pela ofensa do matemático, mas por perceber que ele a subestimou ao tentar manipulá-la.

Conseguindo também alcançar uma tensão considerável ao deixar claros os custos humanos gerados pela demora do grupo em quebrar o código, O Jogo da Imitação também evita tornar essa questão uma vitória em si mesma, o que conduz a um forte conflito moral do grupo quando Turing percebe que usar todas as mensagens alemãs os alertaria da quebra do sigilo – o que, paradoxalmente, obrigou os Aliados a sacrificarem várias vidas a fim de garantir sua vantagem militar que salvaria outras tantas. Da mesma forma, o filme também é enriquecido por incluir (mesmo que brevemente) uma discussão sobre a natureza dissimulada do universo da espionagem com a subtrama de um soviético infiltrado no esforço do MI6 que conduz a um discurso surpreendente (e sensato) do personagem de Mark Strong.

Não que o filme não tenha suas falhas: ao abrir o longa com uma narração metalinguística na qual Turing afirma a dificuldade narrativa da história a seguir, o longa desaponta quando as transições entre as três linhas narrativas são introduzidas com o apoio de legendas, o que não apenas tira a graça da brincadeira como também some e retorna após algumas transições, o que deixa o processo desconjuntado e pouco elegante. Da mesma forma, o filme também perde força ao apelar para o recurso do “letreiro final” para revelar o destino triste do matemático, como forma de evitar ofender a sensibilidade do espectador, o que é lamentável. Já do ponto de vista técnico, a fotografia e o design de produção apostam na recriação de época em tons levemente ssépia, o que ressalta a falta de calor na vida do protagonista – uma escolha não muito original, mas eficaz. Já a trilha de Alexandre Desplat surge infinitamente mais eficiente do que em Invencível, preferindo dar o tom do filme ao invés de martelar o drama nos ouvidos do público.

Mesmo falhando em seus aspectos mais dramáticos, O Jogo da Imitação surge como um exemplar relativamente atípico para o tema que aborda. Não é de modo algum um dos grandes filmes sobre a Segunda Guerra, mas não apenas surpreendente por fugir dos tons hagiográficos que sua promoção poderia sugerir como também cativa e faz rir no processo.

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