Caio Fernando Abreu faleceu há 19 anos , deixando um vasto legado
Caio Fernando Abreu faleceu há 19 anos , deixando um vasto legado (Crédito: Arquivo)

Há 19 anos a literatura brasileira perdia um dos seus maiores escritores: Caio Fernando Abreu. Nesta data, 25 de fevereiro, uma dia tão marcante para todos os amantes da escrita sincera, compulsiva e militante de Caio Fernando Abreu, esta data que marca seu desaparecimento precoce em decorrência de complicações múltiplas resultado de uma quadro de AIDS do escritor, este dia marcou também a morte de um talento, de um dos mais inventivos e transgressores escritores de nossas letras. Esta data é lembrada hoje pelo Nonada com a resenha do livro de crônicas Pequenas epifanias, lançado postumamente em 1996, ano da morte de Caio. O título diz muito sobre quem foi Caio Fernando Abreu.

As narrativas reunidas em Pequenas epifanias traduzem muito sobre o momento final da vida de Caio Fernando Abreu, e mostram a exuberância de um escritor em seu melhor momento. Exemplo disso é a crônica Zero grau de Libra, que fala sobre todas as solidões. Se Caio Fernando Abreu já havia se consagrado com os livros publicadas nos anos 1970/80, com destaque para o clássico vitaminado e indecente da cultura pop arranhada e transgressora Morangos mofados, foi no trabalho prático de cronista nos principais veículos da imprensa escrita do Brasil que o escritor foi buscar inspiração para falar das pequenas rupturas do nosso cotidiano, nos pequenas decepções e desamores, na alegria dos pequenos encontros triunfais com os amigos, e é isso que podemos encontrar nas páginas de Pequenas epifanias. O livro é um brinde à vida de um escritor que enfrentou toda sorte de dificuldades e preconceitos para se manter fiel e coerente à sua condição de homossexual, escritor e combativo. A presente coletânea é um tributo póstumo a Caio, O rosto atrás do rosto, título de outra de suas crônicas.

Pequenas - realO essencial da obra do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu foi totalmente relançado em três volumes em meados dos anos 2000, permitindo que o leitor de hoje tenha uma ideia exata da grandiosidade dos problemas humanos que o escritor suscitou ao longo de sua vida. Lá estão a angústia diante do devir e a morte como certeza no final da jornada – temas recorrente em sua obra. Lá está o ser humano diante da adversidade. Lá estão os momentos de festejo com os amigos e as consequências de todos os excessos – inclusive o de amar. Escrevendo contos, novelas, romance e alguns textos para o teatro; mantendo colunas de crônicas nos grandes jornais do centro do país, vivendo intensamente num universo paralelo de cartas dirigidas aos amigos do meio cultural, Caio foi um cometa cuja calda é composta por belos e excelentes textos, ora líricos, ora trágicos, sempre militantes, nunca se virando para os problemas sociais de nosso país. Sua obra hoje é de fácil acesso ao público leitor, tem uma boa distribuição comercial, e se no aspecto propriamente da escrita o texto pode parecer um tanto coloquial, não se engane leitor! Os textos de Caio Fernando Abreu são sutis, costumam escondem o jogo, mostrando quase de maneira invertida uma densidade impressionante de tons e cores e nuanças sobre o absurdo da condição humana, sobre o vazio das relações, sobre o teatro falso das emoções, e, sempre de forma urgente em sua escrita, sobre a solidão dos que amam e não encontram o seu amor. Eis a vida agitadas e angustiante de Caio F.

Caio viveu de forma intensa os Extremos da paixão (título de uma crônica do livro). Como nos conta Antônio Gonçalves Filho na abertura da edição de Pequenas epifanias, meses antes de morrer “em outubro de 1994, [Caio Fernando Abreu] estava em Colônia e desistiu de seguir para Aix-en-Provence porque queria retornar ao Brasil, esquecer as gradações douradas das árvores outonais da Alemanha e voltar urgentemente para o mate epifânico com cheiro e gosto do Brasil, país que amou com paixão e raiva, a ponto de pedir que rezassem por ele (o país, não o escritor) como se reza por um doente terminal. Um homem, como diria Pier Paolo Pasolini, se exprime sobre tudo por sua ação, mas, como a essa ação falta unidade, então só lhe resta morrer. A doença do Brasil, da miséria à corrupção, também matou Caio, cuja linguagem vital, intraduzível porque feita de morte social, era um caos de possibilidades, uma busca incessante de sentido.” Eis um escritor completo, que viveu seu tempo e o seu lugar.

A reunião de crônicas da etapa mais madura do escritor Caio Fernando Abreu é uma boa porta de entrada para quem quer conhecer um escritor que hoje, aniversário de seu falecimento, será lembrado como um grande artista da escrita. Alguém que fez de sua vida, sua escrita – e de sua escrita, sua vida. Encontrar a sensibilidade de alguém assim é o maior presente que o leitor pode dar a Caio nesta data.

Boa leitura.

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