Showrunners: Russell T. Davies (1ª a 4ª temporada), Steven Moffat (5ª temporada em diante)

Com: David Tennant, Matt Smith, Christopher Eccleston, Peter Capaldi, Billie Piper, Freema Agyeman, Catherine Tate, Karen Gillan, Arthur Darvill, Jenna Coleman, Alex Kingston, John Barrowman, Noel Clarke, Camille Coduri, Elizabeth Sladen, John Simm, Bernard Cribbins, Penelope Wilton, John Hurt, Michelle Gomez, Frances Barber, Paul McGann, Nicholas Briggs, Paul Kasey.

Há exatos 10 anos, Rose Tyler salvava o Doutor durante um confronto com a Consciência Nestene, na primeira aventura do retorno daquela que é provavelmente a série de ficção científica mais longeva da história da TV. Doctor Who estreou na BBC em 1963, inicialmente como um programa educativo, estrelando um velhinho (William Hartnell, o 1º Doutor) que viajava para conhecer eventos históricos a bordo de sua Time and Relative Dimension in Space – TARDIS, uma máquina do tempo com o formato de uma cabine de polícia londrina dos anos 50 que é muito maior por dentro do que por fora. Daí em diante, tornou-se um fenômeno da TV britânica ao incluir um universo alienígena que nada deve a primos de gênero mais famosos como Star Wars ou Star Trek, sobrevivendo a mais de 50 anos e (até o momento) 13 encarnações canônicas do mesmo protagonista e rendendo um universo expandido que também inclui livros, HQs, games e audiodramas, além de duas séries spin-off (The Sarah Jane Adventures e Torchwood).

Doutores do revival: 9º (Christopher Eccleston), 10º (David Tennant), 11º (Matt Smith), 12º (Peter Capaldi) e o Doutor de Guerra (John Hurt).
Doutores do revival: 9º (Christopher Eccleston), 10º (David Tennant), 11º (Matt Smith), 12º (Peter Capaldi) e o Doutor de Guerra (John Hurt).

Longe das telas desde 1996, quando um telefilme tentou (sem sucesso) retomar a série interrompida em 1989, após 27 temporadas, Doctor Who voltou a conquistar público e crítica com seu revival em 2005, sob o comando de Russell T. Davies, que, acertadamente, optou por não “rebootar” a série, e sim por dar continuidade a ela a partir de onde tinha parado – claro, oferecendo uma importante justificativa para sua longa ausência. Mas como explicar porque a franquia continua bem-sucedida mesmo depois de tanto tempo?

Um motivo importante é, sem dúvida, que a própria mitologia da série se desenvolveu de modo a dificultar que ela se torne repetitiva. Exceto em circunstâncias excepcionais, os Senhores do Tempo (espécie a que o Doutor pertence) são capazes de evitar a morte regenerando-se num novo corpo que preserva as memórias e experiências do anterior, mas traz consigo novos traços de personalidade. Todos os Doutores do revival são bastante distintos entre si: Christopher Eccleston criou um Doutor mais seco e amargurado (e ainda bastante subestimado), reflexo de incidentes que antecedem a série; enquanto David Tennant conferiu uma energia frenética ao personagem, dando lugar aos modos que oscilam entre o infantil e o maníaco da encarnação seguinte, vivida pelo então desconhecido Matt Smith (ainda não cheguei na 8ª temporada, quando Smith foi substituído pelo veterano Peter Capaldi). Isso faz com que o Doutor seja um personagem muito difícil de esgotar, renovando-se constantemente.

O mesmo se aplica aos companions, parceiros de viagem, humanos comuns. Nesse sentido, Billie Piper, como a primeira, ganhou a tarefa de conhecer, junto do público, o universo fantástico do Doutor – convertendo, no processo, a simples Rose Tyler numa personagem inesquecível. Com os seguintes, acompanhamos suas descobertas como “iniciantes” e, claro, crescimento como personagens – destacando-se aí Donna Noble (Tate), que se transforma de uma figura irritante em sua primeira aparição para uma mulher de personalidade forte e enorme coração. Também merecem destaque alguns aliados que surgem de tempos em tempos: Sarah Jane Smith (Sladen), uma das companions mais populares da série original, o Capitão Jack Harkness (Barrowman) e, é claro, a imbatível River Song (Kingston), espécie de Indiana Jones espacial e mais badass.

Os companions mais importantes: Rose Tyler (Billie Piper), Martha Jones (Freema Agyeman), Donna Noble (Catherine Tate), Rory Williams (Arthur Darvill), Amy Pond (Karen Gillan) e Clara Oswald (Jenna Coleman).
Principais companions: Rose Tyler (Billie Piper), Martha Jones (Freema Agyeman), Donna Noble (Catherine Tate), Rory Williams (Arthur Darvill), Amy Pond (Karen Gillan) e Clara Oswald (Jenna Coleman).

No entanto, Doctor Who causa estranhamento – e por aquele que talvez seja o principal motivo de seu enorme sucesso: seu aspecto despretensioso de ficção científica B não significa nem por um segundo que não leva a si mesma ou seus personagens a sério – não no sentido de explicar logicamente aquele universo, um esforço fadado ao fracasso, mas de acreditar ferrenhamente em suas próprias possibilidades, por mais absurdas que estas sejam. Ora, a TARDIS ganhou desde o início a forma de uma cabine de polícia pelo fato de que a série começou com orçamentos reduzidíssimos e buscou manter-se fiel a esse estilo. A era Steven Moffat trouxe uma melhora monumental nos efeitos visuais, mas ela sempre funcionou graças às boas histórias, condução empolgante e elenco afiado – os “defeitos” visuais das primeiras temporadas não chegam a ser um grande problema se entrarmos no espírito da coisa. Afinal, só um fantástico trabalho de storytelling para convencer o público de que inimigos com um visual tão tosco como os Daleks são mais ameaçadores do que um Exterminador perseguindo John Connor – e convence.

Não se engane, no entanto: embora produzida para ser uma “série família”, Doctor Who não hesita em fazer seus personagens sofrerem: seus vilões são genuinamente ameaçadores, Daleks e Cybermen não raro produzem verdadeiros massacres, o Mestre é um antagonista doentio e os Anjos Lamentadores provavelmente lhe gerarão uma desconfiança permanente de estátuas. Além disso, o destino reservado aos companions por vezes confirma o perigo que é seguir o Doutor. Da mesma forma, a série acerta ao introduzir sem alarde questões raciais (especialmente na 3ª temporada, que tem Martha Jones como companion) e personagens LGBT (como Jack Harkness, que estrela Torchwood), além de ocasionalmente questionar as ações do Doutor (o trágico especial The Waters of Mars). A riqueza da série também é provada pela variedade constante de tons que assume, passando pela comédia (5.11 – The Lodger), o drama (5.10 – Vincent and the Doctor), o romance (2.04 – The Girl in the Fireplace), o épico (4.11, 12 e 13 – Turn Left, The Stolen Earth e Journey’s End) e o absoluto terror (6.09 – Night Terrors e a obra-prima 3.10 – Blink).

Contando com participações especiais de atores como Carey Mulligan, James Corden, Timothy Dalton, Michael Gambon, Felicity Jones, Simon Pegg, Kylie Minogue, Nick Frost, Liam Cunningham, Toby Jones, Mark Williams, Helen McCrory, Derek Jacobi, Jessica Hynes, Hugh Bonneville, Bill Nighy, Tamsin Greig e Andrew Garfield e roteiros ocasionais de figuras como Mark Gatiss (co-criador, junto de Moffat, da espetacular Sherlock), Richard Curtis e Neil Gaiman, a nova Doctor Who chega aos 10 anos sem dar sinais de perder fôlego. E que ainda possamos ter muitas aventuras com novos Doutores, novos companions, Daleks, Cybermen, Ood, Sontarans, Atraxi, Silurianos, Sycorax e outros alienígenas, em qualquer lugar do tempo e do espaço. Assim como a TARDIS, a série também não parece grande coisa à primeira vista…

Allons-y!

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