Texto: Raphael Carrozzo

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Para Sempre Alice é baseado no livro homônimo de Lisa Genova

Uma das coisas que mais prezo na vida são minhas memórias – dos meus pais, dos meus amigos, da minha namorada, e dos momentos que passamos juntos. Das pessoas que conheci e hoje não fazem mais parte da minha vida. Dos lugares que visitei, de uma música que ouvi, de um filme que vi. De algo que aprendi na faculdade, na rua, em uma conversa de bar. De um sorriso, um choro, um beijo, um abraço, uma brincadeira. Da minha vida profissional.

Tudo isso molda quem eu sou hoje. E como a vida é um eterno “a primeira vez” – é impossível reviver um momento. Refazer algo nunca é igual à primeira vez em que o fizemos. Sinto um aperto no coração, um medo intransponível, ao pensar que uma doença poderia dar fim a todas as minhas lembranças. Não porque deixarei de ser quem eu sou, mas porque elas são o único vínculo que terei com o passado/presente.

Baseado no livro homônimo de Lisa Genova, Para Sempre Alice inicia a projeção mostrando Alice (Julianne Moore) em um restaurante, comemorando seu 50º aniversário junto com a família: seu marido (Alec Baldwin), seus filhos Tom (Hunter Parrish) e Anna (Kate Bosworth), e seu genro Charlie (Shane McRae). A protagonista, renomada professora de linguística, começa a perceber que enfrenta dificuldade em lembrar de algumas coisas importantes. Ao consultar-se com um médico, é diagnosticada com o mal de Alzheimer precoce, algo bem raro.

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O filme deu a Julianne Moore seu primeiro Oscar de melhor atriz

O principal destaque da obra está na atuação delicada de Julianne Moore que, ao nos apresentar uma mulher forte, dedicada, que conquistou tudo aquilo que a maioria das pessoas deseja – um belo casamento, uma família unida e uma carreira profissional de sucesso – evita ao máximo transformar a personagem em pessoa melodramática e trágica.

Pelo contrário, Alice procura manter sua vida como era antes do grave diagnóstico. Isso se reflete na sua tentativa de seguir dando aulas, continuar reunindo a família para jantares e almoços, além de incluir em sua rotina técnicas para retardar o avanço da doença – medida já comprovada cientificamente que pode auxiliar nos tratamentos desse tipo de mal.

Pelo fato de ela ser profissional renomada na área de linguística, a falta de memória causada pela doença lhe traz mais agonia e tristeza, já que a personagem não se lembra de todas as palavras que precisa utilizar. É incrível como Julianne consegue fazer transparecer o medo da personagem apenas no olhar, quando uma palavra foge da sua mente e não volta mais; ou quando se exercita, correndo pela cidade, e não consegue identificar o lugar onde está. Apesar de seu esforço, é inevitável que a doença acabe afetando drasticamente sua vida.

Destituída das obrigações profissionais, Alice busca conforto na família. Enquanto o marido médico trata a doença da forma mais racional possível, escolhendo dedicar-se ao emprego em lugar de passar “os últimos momentos” com a mulher, a filha mais velha tenta engravidar – além de descobrir que possui o gene da doença – e o filho busca se consolidar como médico. Apesar de a família reagir de forma inesperada, é no carinho da filha mais nova Lygia (Kristen Stewart) que Alice consegue se expressar.

Apesar dos atritos da relação, Lygia é a única pessoa que realmente conversa com a mãe, seja pessoalmente, seja por meio do computador, tornando-se para ela um porto seguro. Kristen, embora ainda continue sendo uma atriz de pouca expressividade, realiza uma atuação sólida e firme, e a cena das duas na casa de praia, conversando, é singela e doce.

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Moore contracena com Kirsten Stewart, que representa sua filha Lygia

É nesses pequenos mas profundos conflitos familiares que Para Sempre Alice prende a atenção do público, em conjunto com a evolução da doença e o drama da personagem. Preferindo uma abordagem mais sutil e delicada, a trama evita atuações explosivas, com muito choro ou raiva, o que para muitos pode ser angustiante – levando em consideração o momento pelo qual a protagonista está passando – esse tom acaba se tornando perfeito para a obra, que valoriza mais o olhar do que as lágrimas, mais as entrelinhas do que os diálogos expositivos.

Para retratar esses momentos delicados na vida de Alice, os roteiristas Richard Glatzer e Wash Westmorelan (também responsáveis pela direção do longa) avançam no tempo e utilizam a gravidez de Anna para indicar a passagem de tempo – fórmula simples de garantir que o telespectador não se perca, além de dar liberdade para que a história possa fluir com leveza, sem se perder.

Além disso, os diretores utilizaram lentes com pouca profundidade de campo. Isso faz com que, ao filmar um personagem durante uma conversa, tudo ao seu redor fique fora de foco. Essa técnica – além de fazer com que o telespectador permaneça mais atento ao desempenho dos atores – é utilizada pelo diretor para também transmitir as sensações pelas quais a personagem está passando, já que é mais ou menos isso que a doença faz com nossa mente: transforma tudo em neblina, sem foco, sem a capacidade de discernir quem são as pessoas à nossa frente, ou quão importantes elas são para nós. Não é por acaso, também, que a fotografia mescle tons acinzentados – como, por exemplo, quando a protagonista está correndo, ou quando se acha na sala de aula – e prefira cores mais quentes quando ela está em casa, o que demonstra a importância emocional que a família vivencia nesses momentos tão tristes da sua vida.

Para Sempre Alice é uma obra que tenta apresentar o lado mais suave desse tema, mas sem deixar de lado o quão doloroso é perder nossa memória. Apesar disso, o filme reforça o fato de que, mesmo sem nossas lembranças, nós ainda somos nós mesmos, ainda somos a pessoa que construímos ao longo dos anos. Mesmo que a doença tente apagar tudo isso por completo, as pessoas que amamos serão nosso ponto de apoio para reviver o passado, mesmo que apenas por alguns segundos.

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