(Foto: Ita Pritsch/Nonada)
(Foto: Ita Pritsch/Nonada)

(Este não é exatamente um texto jornalístico, acredito que seja mais um relato. Era para ser a apenas a cobertura de um show, mas a apresentação durou vinte minutos. Acredito que as impressões dessa noite são mais interessantes. Perdão aos fatos rígidos, eu peço licença).

Foi-se.

Na noite do dia 25 para o dia 26 de abril, eu tinha acabado de sair da Redenção, onde ocorreu a Serenata Iluminada. Havia muitas pessoas no parque, vários tipos diferentes de bandas e de apresentações, de longe eu podia escutar um cover do U2 e realmente parecia o Bono cantando. Mas eu já havia bebido um pouco de vinho, aqueles de sete reais e cinquenta centavos, então, não posso afirmar com certeza. Deixei minha namorada na parada do ônibus e fui encontrar a Ita, a fotógrafa do site, que também estava bebendo lá no Comitê Latino Americano, com alguns amigos. Enquanto eu esperava na frente, um cara meio uruguaio saiu do bar com uma garrafa de Patrícia na mão, e bêbado, muito bêbado, deixou a garrafa cair no chão, espatifando-a em vários pedaços. Um cachorro passou mais tarde e lambeu o cimento alcoolizado. Enquanto esperava me lembrei de quando surgiu a ideia da pauta.

Eu conhecia algumas músicas do MC Brinquedo e toda a sua fama na internet, e sem querer acabei me deparando com um evento de show dele em Porto Alegre. E pensei: “por que não”? Sabia das polêmicas com os MCs menores de idade. E o Brinquedo é o mais famoso deles, mas, na hora, eu só pensei que seria interessante fazer uma resenha musical do seu show. Não vi a divulgação do evento em nenhum outro lugar. O cara tem milhares de fãs no Facebook, milhões de views no Youtube e ninguém divulgava o show por aqui? Descobri um número do produtor da festa a partir da notícia e entrei em contato via whatsapp em uma negociação para cobrir a apresentação que se estendeu por três dias, devido à desconfiança. Mais tarde eu entenderia o porquê dela.

Assim que a Ita desceu, nos encaminhamos a um táxi e fomos direto para o Galpão do IBGE – local em que durante uma época aconteceram diversas festas universitárias. Me lembro de ter participado de algumas lá, inclusive da primeira festa de verdade que fui depois que entrei na Universidade pelos idos de 2007. Então, sim, eu estava um pouco nostálgico por ir lá e rever aquele espaço. O contato da festa nos disse que era para chegar por volta da meia noite e então chegamos exatamente nesse horário após o taxista se “perder” por alguns minutos para encontrar o local. Foi muito tranquilo adentrar à festa que a essa altura nem era festa e muito menos show. O galpão por volta da meia noite parecia uma daquelas salas de baile de turma com o som alto tocando e ninguém dançando, só encostados na parede. E a primeira impressão era essa: realmente a galera do ensino médio, esperando o show começar, enquanto as caixas de som gritavam “Pepeca do Mal”, no volume mais alto possível. As opções no cardápio eram pizza e churrasquinho por cinco reais. No bar, observei uma placa que mostrava os valores de algumas bebidas, como a Natasha por 40 reais e uma Big Apple por 55 reais. O Absolut era 90.

Foto: Ita Pritsch/Nonada
Foto: Ita Pritsch/Nonada

Lá pela meia noite e meia, bem no momento em que resolvemos explorar o pátio do IBGE, MC Brinquedo entrou cercado de alguns seguranças e de uma espécie de entourage, que não sei se o acompanha sempre nos shows, mas lá estavam eles cercando o moleque de treze anos. Para quem não sabe MC Brinquedo é Vinicius Ricardo, nascido em São Paulo. Quem que usa internet hoje em dia e nunca escutou ou leu em algum momento o infame “Meça suas palavras, parça”? Mais do que isso, Brinquedo faz parte da KL Produtora, um tipo de coletivo que descobre MCs, e os financia, ajudando a desenvolver a sua carreira. Muito presente nas redes sociais, Brinquedo ao vivo tem a apatia meio blasé dos jovens adolescentes de sua geração, ou pelo menos foi essa a impressão que tive ao tentar me aproximar dele para tirar uma foto de lembrança (antes do show, Brinquedo ficou ao lado do palco improvisado dentro do Galpão e atendeu pacientemente todos os seus fãs que queriam uma foto) e tentar uma conversa. O cara é, no mínimo, atencioso. Cumprimentei-o e tiramos uma foto. Logo depois tentei emendar o papo, perguntando sobre o que ele estava achando da cidade. O que ele sucintamente respondeu que estava curtindo. Não deu para continuar, tinha mais fãs para atender.

Então, lá pela uma da manhã começou a tocar o hit mais conhecido do MC Brinquedo, “Roça”. Agora com mais público, que se acumulou na frente do palco improvisado dentro do galpão, o cantor pediu para cantarem o refrão bem alto, se não ele não subiria no palco. A voz do MC não é tão infantil como nos vídeos, provavelmente por estar passando pela puberdade e mudando o timbre. Seguiu-se aí, então, os maiores hits do jovem Brinquedo, em uma espécie de batida contínua, um mesclado no outro, sem pausa, somente com a troca das letras, basicamente. Emendou uma parceria com o MC 2K chamada “Pepeca bate bate”, que entusiasmou a galera – mesmo assim eu esperava que o pessoal fosse dançar mais as músicas. “Em cima de mim”, outro proibidão do Brinquedo, foi a próxima com o já clássico refrão Cai com a buceta em cima de mim, mixada com “Ela quer pau” e “Tava na rua fumando um baseado” do seu amigo MC Pikachu. O MC começou a fazer perguntas para atiçar e animar a plateia como “Quem tem amiga piranha aí?”. Ao mesmo tempo, ainda houve tempo para letras menos machistas, como “Ela é sua”, mais uma parceria com o MC Pikachu, e o refrão Tu quer dar então dá / a porra da buceta é tua e o grito de Pererecas unidas jamais serão vencidas, uma música do MC Duduzinho e Pierre.

Nesse meio tempo de show, duas análises merecem destaque: não senti o Brinquedo confortável no palco, ele parece muito mais à vontade em seus vídeos no Youtube, ou nas postagens nas redes sociais. Mas, novamente, ele é só um adolescente, ainda tem muito para amadurecer. Durante a apresentação, ele também convidou um MC que estava começando e não consegui entender o nome dele, que cantou uma música que também não sei o nome. Mas ele era ainda mais jovem que o Brinquedo – e mais baixinho. Outra análise: o show durou em torno de vinte minutos. Foi tudo muito rápido, algo que não deu para usufruir, momentâneo – não necessariamente raso, mas rápido demais. Logo depois da apresentação ele foi embora, parecia que tinha outro show em Gravataí.

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Foto: Ita Pritsch/Nonada

E foi por aí que comecei a ter uma espécie de pensamento sobre todos esses MCs que estão cantando sobre putarias e drogas e tem doze, treze anos de idade, lembrei-me de quando eu era criança e descobria várias coisas e lembrava que eu também falava palavrões e merdas e como isso soava legal, soava como algo que era “feio” ou “proibido” de falar, por isso era mais interessante. Não sei. Acontece que hoje em dia existem as redes sociais e você pode fazer isso para milhões de outras pessoas. É claro que há toda uma equipe por trás de MCs como o Brinquedo, lucrando com tudo isso também, mas não acredito que isso seja um caso de exploração. No sentido musical, o funk é atualmente muito mais interessante e pertinente que o rock nacional, por exemplo. Muito mais agressivo e transgressor, ou que pelo menos mexe com os ânimos e as emoções de diferentes tipos de público. O Rock nacional, o pop rock nacional, não mexem assim com as pessoas há muito tempo. Meu intuito não é explicar ou conceituar o Brinquedo aqui, até porque não tenho capacidade o suficiente para isso, mas há algo de muito simples em suas músicas, algo de muito inocente no modo como ele fala em buceta e pau.

Passado esse momento de breve epifania dentro do Galpão do IBGE pós-show de funk do Brinquedo e talvez inebriado pela fumaça dos cigarros do público, fui chamado pelo contato do show para segui-lo. Em minha cabeça imaginava que ele iria me conseguir aquele tempo para lançar umas perguntas para o pequeno prodígio do funk, e já ia pensando em possíveis questões. Quando, do nada, ele me para em um canto mais afastado do IBGE e mete uma pressão daquelas, querendo saber o que exatamente eu estava fazendo ali. E, daí, eu entendi aquela tal desconfiança – parece que ele acreditava que eu poderia estar envolvido em um esquema para denunciá-lo por irregularidade na festa. Durante a nossa negociação para a cobertura do show pelo whats, mostrei o site algumas vezes para deixar claro que nosso intuito era cobrir o show, mas ele não viu – alegou que estava sem tempo. Tive que mostrar novamente via celular, e explicar mais uma vez nossas motivações, então ele entendeu o que estávamos tentando fazer ali, embora eu também não saiba exatamente o que resultou de tudo isso.

Entrei na festa de novo e dei mais uma olhada no público, o pessoal curtindo a festa, dançando em diferentes grupos, bebendo, como em qualquer outra festa. Não era muita gente – no máximo, umas 500 pessoas, em comparação com as 3,6 mil confirmadas no evento do Facebook -, e nem todo mundo realmente tinha curtido o show do Brinquedo no sentido de se envolver com as músicas. Foi um pequeno show em uma festa maior. O quanto todo esse hype pelos MCs menores de idade é ostentação de internet? Não sei, eram perguntas que pousavam na minha cabeça quando Ita e eu conversávamos sobre ir embora e trocávamos impressão sobre o show e a festa. Dali a alguns uns minutos, íamos pegar o primeiro táxi que aparecesse assim que saíssemos do portão.

(Título inspirado no vídeo do Dj Diney)

 

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