O livro é a primeira narrativa longa de Nelson Rego (Terceiro Selo/divulgação)
O livro é a primeira narrativa longa de Nelson Rego (Terceiro Selo/divulgação)

Entre os belos livros lançados aqui em Porto Alegre neste começo de ano está Noite-égua (ed. Terceiro Selo), novela cujo instigante título só comprova o talento do premiado escritor gaúcho Nelson Rego. Em 2011, ele já havia sido contemplado com o Prêmio Açorianos de Literatura pelo livro de contos Daimon junto à porta, talento agora carimbado por esse romance rápido em que mistério e desejo puxam o leitor para uma história envolvendo assombrações, loucuras e outras taras atarantadas. Um livro muito bem escrito, que muito orgulha nossas letras regionais.

Noite-égua começa pelo título. O mistério do nome desta novela talvez nos revele ao mesmo tempo o ápice e o epicentro para o qual caminha a narrativa, mas este também é um título desafiador para o leitor pelo jogo de palavras que revela existir mais. O livro conta a história de um pesquisador (acadêmico?) do qual nem temos o nome. Junto com sua companheira/namorada, ele passa a frequentar um antigo casarão da Cidade Baixa, em Porto Alegre, para realizar um trabalho com os livros da gigantesca biblioteca. Lá, ele encontra Ana, ou Sant´Ana, a matriarca da extensa família que ali reside, que apresenta ao visitante estudioso um texto raro que teria sido escrito há cerca de 60 anos.

O texto é um mistério tanto pela linguagem como pelo conteúdo supostamente fantasmagórico, uma espécie de carta que teria sido ditada para uma enfermeira que lá trabalhara, anos atrás. O misterioso documento teria sido encontrado dois dias após a morte dela e guardado como segredo pelos moradores daquele casarão, até o dia em que o pesquisador se interessa pela história do manuscrito.

Nem todos estão dispostos a ajudá-lo. Ele, então, estabelece um diálogo permanente com a matriarca, que lhe explica sobre a existência de um ente sobrenatural morando no casarão e que teria sido responsável não só pela morte da enfermeira, mas também pelo abatimento moral do casarão, do bairro e dos arredores da cidade. Na prática, o que lemos ao longo da história é o próprio envolvimento emocional do pesquisador com diversos membros da família, inclusive a empregada – personagem incidental e decisivo que vem colocar mais mistério na trama. É como se a maldição da carta pesasse sobre todos ali.

O escritor e jornalista Nelson Rego, colunista do site Sul 21, conhecido naquele espaço jornalístico por seus textos curtos de alto estilo, semelhante, muitas vezes, a aforismos, chega a esta estreia no gênero novela/romance como escritor já consagrado. Além de prêmios literários com sua poesia, o Prêmio Açorianos de Literatura – congraçamento máximo das letras gaúchas – ganho pelos contos de Daimon junto à porta já mostrava um autor bastante ciente da técnica narrativa. Lá, curta; aqui, um passo adiante na complexidade das personagens. Em Noite-égua, ele nos cria um jogo complexo de duplos e espelhamentos entre os personagens em que nunca sabemos exatamente o que querem cada um deles – a dissimulação parece ser a marca registrada do pesquisador, da matriarca, dos familiares e da empregada, e do espírito/fantasma que paira sobre todos e cresce ao longo da narrativa, ficando ainda mais pulsante ao final do livro. Puro suspense.

Noite-égua é um ótimo livro sobre os mistérios que envolvem o desejo. Seja ele o de saber algo significativo sobre um passado cheio de fantasmas, seja o de entender as pessoas ao nosso redor. Um belo desafio que o livro de Nelson Rego nos apresenta e, após, conduz com maestria, nonsense e bom humor.

Boa leitura.

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