Série se salva da completa irrelevância ao assumir uma narrativa mais sólida ao invés da estrutura fragmentada de boa parte da temporada anterior. (Crédito: ABC)
Série se salva da completa irrelevância ao assumir uma narrativa mais sólida ao invés da estrutura fragmentada de boa parte da temporada anterior. (Crédito: ABC)

Agents of S.H.I.E.L.D. – 2ª temporada (2014-2015, ABC)

Showrunners: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Joss Whedon

Com: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-na Wen, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Nick Blood, Adrianne Palicki, Brett Dalton, Henry Simmons, Kyle MacLachlan, Ruth Negga, Reed Diamond, B.J. Britt, Dichen Lachman, Luke Mitchell, Simon Kassianides, J. August Richards, Jamie Harris, Adrian Pasdar, Maya Stojan, Blair Underwood, Lucy Lawless, Brian Patrick Wade, Patton Oswalt, Tim DeKay, Christine Adams, Henry Goodman, Neal McDonough, Kenneth Choi, Cobie Smulders, Jaimie Alexander, Hayley Atwell e Edward James Olmos.

ATENÇÃO: o texto a seguir contém spoilers importantes não apenas do 1º ano da série, mas do desenvolvimento do Universo Marvel Cinematográfico desde Capitão América 2.

Como disse no texto sobre a excelente série do Demolidor, Agents of S.H.I.E.L.D. – a primeira encomenda da Marvel para a TV, ligando-se ao crescente Universo Cinematográfico – soava perdida em suas intenções, parecendo não ter a menor ideia do que fazer com o próprio material. Resultado: mesmo com um piloto eficaz, a falta de uma narrativa consistente afastou a audiência, uma vez que os mistérios não eram dos mais cativantes, os episódios seguintes pareciam uma sucessão interminável de fillers e os personagens, mesmo simpáticos, caminhavam para resoluções manjadas. Quando tudo parecia perdido, veio o díptico 1.16-17 (End of the Beginning e Turn, Turn, Turn) que, conectado à queda da agência vista em Capitão América 2, conferiu à série tudo o que lhe faltava: urgência, mistérios e conspirações instigantes, vilões realmente perigosos e plot twists surpreendentes. Nos sete episódios finais, Agents of S.H.I.E.L.D. finalmente mostrou a que veio.

(Crédito (ABC)
(Crédito: ABC)

Pois nada como ver uma série aprender com seus erros. Embora presos ao arcaico formato de temporada com mais de 20 episódios, os showrunners tomaram a acertadíssima decisão de criar dois arcos narrativos menores, que, mesmo interligados, se desenvolvem de forma distinta e impedem que as tramas se arrastem indefinidamente. Sim, houve um e outro episódio com jeito de filler e, de modo geral, não atinge a mesma excelência dos outros seriados já lançados pela Marvel (Agent Carter e Demolidor), mas depois do que foi visto no 1º ano, a melhora é indiscutível. Além disso, ela também superou um problema que fragilizou boa parte da temporada de estreia: a excessiva submissão ao que foi visto nos filmes (ainda que, paradoxalmente, tenha sido um deles que lhe deu a força que não tinha), já que, com exceção de uns poucos episódios levemente ligados a Era de Ultron, a 2ª temporada se sustentou de forma independente (mas claro, com abundantes easter eggs).

Episódios 2.01 a 2.10: Heil HIDRA

No início da temporada, temos Phil Coulson (Gregg), agora dirigindo uma nova S.H.I.E.L.D. secreta por ordem de Nick Fury, perseguindo os remanescentes da HIDRA com os poucos agentes que recuperou. Enquanto isso, Coulson passa a sofrer cada vez mais os efeitos colaterais da droga alienígena que o “ressuscitou”, escrevendo compulsivamente estranhos símbolos que não compreende. Temendo enlouquecer como John Garrett (Bill Paxton), ele se intriga que Skye (Bennet), também salva pelo soro, não manifeste os mesmos sintomas. Enquanto S.H.I.E.L.D. e HIDRA perseguem um poderoso objeto confiscado dos nazistas por Peggy Carter (Atwell) no final da Segunda Guerra, segredos passados de Skye começam a ser revelados por Ward (Dalton) e Raina (Negga).

(Crédito: ABC)
(Crédito: ABC)

Mesmo lidando com um grupo enorme de personagens, a série é eficaz em desenvolver suas relações de forma objetiva e quase sempre econômica (uma má exceção é a Simmons imaginada por Fitz nos primeiros episódios). Logo percebemos onde os veteranos se encontram e quais suas motivações e problemas atuais. Dentre os novatos, Mack (Simmons) acaba funcionando como um escape para o lesionado Fitz e o ex-casal Lance Hunter (Blood) e Bobbi Morse (Palicki, tão badass quanto a May de Ming-na Wen) tem sua dinâmica de amor e ódio tratada não apenas como alívio cômico (a hilária insistência de Hunter em demonizar a ex-esposa revela não exatamente o que ele gostaria), mas como algo que também afeta aqueles personagens, que buscam sacrificar seus sentimentos por serem incapazes de confiar um no outro.

Estabelecido o núcleo de personagens, a série passa a retomar perguntas que ficaram pendentes da temporada anterior: qual a verdadeira origem e natureza de Skye? Esse mistério passa a ter implicações cada vez mais estranhas não só com a paranoia de Coulson, mas também com o retorno de Raina, ainda mais intrigante. A misteriosa mulher tem sua inabalável segurança quebrada menos ao ser perseguida pela HIDRA do que por sua associação com o pai de Skye. E não é para menos: Calvin é uma figura que exala instabilidade, oscilando entre o ar terno sempre que se refere à filha, o calculismo de seus esquemas e rompantes súbitos de violência – e o excelente Kyle MacLachlan (o eterno agente Dale Cooper de Twin Peaks) transita de forma magnífica entre essas nuances do personagem. MacLachlan consegue comunicar muito através de pouco (a personalidade quebrada de Calvin é exposta pelo gestual rápido que não parece se completar e pelos sorrisos aparentemente aleatórios, além de figurinos desalinhados) ao mesmo tempo em que seus olhos, quando não repletos de raiva, deixam transparecer toda a sua dor.

(Crédito: ABC)
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MacLachlan não é o único vilão a se destacar. Reed Diamond, como o novo líder da HIDRA Daniel Whitehall, realmente perturba pela frieza que demonstra não apenas durante a lavagem cerebral que realiza na pobre Agente 33 (Stojan) como com o que faz com a jovem chinesa em 2.08 – The Things We Bury, um dos mais gráficos da série. Mas quem surpreende (embora se mantenha como figura periférica na maior parte do tempo) é mesmo Grant Ward, cuja eficácia nessa temporada é um verdadeiro milagre: contrariando qualquer expectativa que poderíamos ter a seu respeito no início da série, Ward se converteu num sujeito absolutamente imprevisível – e é ótimo que, mesmo quando a narrativa parece ir na direção de redimir o personagem, logo o faz mostrar novamente as garras do sociopata calculista que é e sempre foi.

Plantando com cuidado as pistas que levarão à trama do arco seguinte, essa primeira metade da 2ª temporada raramente pisa em falso. Algumas subtramas se prolongam demais (a Simmons ilusória) e outras se encerram talvez mais cedo do que poderiam (a razão da ausência de Simmons, o conflito da S.H.I.E.L.D. com o Exército), mas, de modo geral, acerta por não segurar os principais mistérios por um tempo desnecessário – um modus operandi também seguido na metade seguinte e cuja falta tanto custou ao 1º ano. Que esses mistérios realmente sejam interessantes é só mais uma qualidade.

Episódios 2.11 a 2.22: Sejam bem-vindos, Inumanos

Depois dos incidentes vistos em What They Become, a equipe da S.H.I.E.L.D. precisa lidar com as consequências do ocorrido: Skye e Raina ressurgem modificadas e o confronto com a HIDRA teve um alto custo. Enquanto Skye é temporariamente afastada da ação por Coulson e May, estes enfrentam o surgimento de uma nova agência secreta de segurança global, liderada por Robert Gonzales (Olmos). Em meio a esse embate, Skye é levada a um santuário remoto para pessoas com poderes especiais ativados pelas Névoas Terrígenas, onde é treinada por Jiaying (Lachman).

(Crédito: ABC)
(Crédito: ABC)

Mais longo do que o arco anterior, essa segunda metade demora um pouco a engrenar. 2.11 – Aftershocks busca lidar com as consequências da ação frenética do anterior, mas a nova trama só começa para valer em 2.15 – One Door Closes, enquanto os corretos Who You Really Are e Love in the Time of HYDRA e o fraco One of Us se preocupam mais em posicionar as peças para o jogo. Depois, temos a divisão do foco entre o embate com a agência de Gonzales, os esforços de Coulson e Hunter nos bastidores e a jornada pessoal de Skye, que, com suas origens devidamente reveladas, aprende a usar seus recém-adquiridos poderes junto aos Inumanos (cuja origem é explicada pela asgardiana Lady Sif, numa aparição bem mais orgânica que a da temporada passada). Entre este grupo, também se encontra Raina, que mal consegue viver com a aparência bizarra que assumiu após a Terrigênese.

Sim, os Inumanos já estão oficialmente na área, mesmo com seu filme sendo lançado somente em 2019. Não deixa de ser um passo arriscado, mas também ilustra uma mudança drástica na natureza de Agents of S.H.I.E.L.D.. Tendo começado como um mero complemento de qualidade questionável para o Universo Cinematográfico Marvel, agora a série passa a se adiantar, introduzindo não apenas elementos, mas temáticas que deverão ser sentidas nos próximos filmes – mas claro, sem que um seja um pré-requisito indispensável para o outro. E não apenas os Inumanos: as enormes reservas de Gonzales contra indivíduos com poderes tem muito a ver com a temática trabalhada por Mark Millar em Guerra Civil, que, como se sabe, será a base para Capitão América 3, a ser lançado no próximo mês de abril. Também há um pouco das questões de (auto)aceitação bastante trabalhadas na franquia X-Men: como os direitos de uso dos mutantes estão com a Fox, o uso dos Inumanos (também) para esse fim acaba sendo lógico.

(Crédito: ABC)
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Mesmo demorando mais para empolgar, essa segunda metade da temporada não deixa a desejar quando o faz, incluindo bastante ação (a invasão à base da HIDRA no Ártico em 2.19 – The Dirty Half Dozen ganha até mesmo da fantástica luta May vs. May vista no quarto episódio), efeitos visuais bem superiores aos da 1ª temporada e eficientes trabalhos de maquiagem (com destaque para Raina e Deathlok, é claro). Além disso, chama atenção o tom violento que a série assume diversas vezes, com várias mortes importantes e a porradaria brutal de uma torturada Bobbi Morse com seus captores no season finale; e mesmo a disposição de frustrar expectativas acerca de algumas figuras (notável em 2.20 – Scars). Mas talvez o mais inesperado é como essa parte consegue usar nada menos que dois episódios fortemente calcados em flashbacks sem que isso soe como encheção de linguiça, contribuindo para desenvolver personagens e as conspirações vistas ao longo da série.

Encerrando de forma satisfatória as principais linhas narrativas que estavam pendentes desde o início da série (e a resolução da trama envolvendo a família de Skye permite que MacLachlan brilhe mais uma vez), Agents of S.H.I.E.L.D. termina seu segundo ano numa nota muito mais promissora e divertida do que o primeiro, tendo de fato criado uma narrativa seriada ao invés do monótono estilo “caso da semana” que outrora teve. Fica a pergunta de como a série lidará com o aumento de figuras superpoderosas em seu núcleo, já que começou sendo sobre humanos comuns em um mundo de heróis, mas os instigantes cliffhangers e a promessa de um novo inimigo temível deixam a sensação (e a torcida) de que a série tem tudo para manter o fôlego que mostrou aqui.

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