(Crédito: divulgação)

The Frame (Idem, EUA, 2014)

Direção e roteiro: Jamin Winans

Com: David Carranza, Tiffany Mualem, Cal Bartlett, Christopher Soren Kelly, Anthony Nuccio, Shauna Earp

Um roteirista é o criador da sua obra. Ele conhece cada centímetro de seu mundo, todos os eventos que irão acontecer, todos os desejos de personagens. É ele que decide se seus personagens vivem ou morrem, e quando. Em tese, um escritor é Deus do seu universo. Mas será que Deus é realmente assim? Será que ele já tem traçado tudo que irá acontecer conosco? E se tiver, será que temos como evitar o roteiro que ele escreve para cada um de nos e quais seriam as consequências disso?

Alex (David Carranza) é um assaltante de cargas de caminhão que está decidido a largar a vida de criminoso e viver como um cidadão de bem. Sam (Tiffany Mualem) é uma paramédica que percorre a cidade tentando salvar vidas e fazer o mundo um pouco melhor. Os dois possuem um passado que desejam muito esquecer. Mas logo Alex e Sam descobrem que suas vidas fazem parte de um programa de televisão no qual o outro é o telespectador. Os dois, através da televisão, começam a se comunicar e criar um vínculo, mas Sam descobre que o programa de Alex está chegando ao fim e os dois precisam pensar o que vai acontecer.

The Frame nada mais é que uma linda metalinguagem sobre o papel do roteirista nas suas obras, mas também poderia ser uma metáfora sobre como enxergamos a função de Deus em nossas vidas. Ao mostrar a vida dos personagens, Jamin Winans – roteirista e diretor do longa – o personagem brinca com a linguagem do cinema dentro do próprio filme. Seguidamente, ele realiza movimentos de close-up e se afasta dos personagens, ou filma em planos tortos – fora do eixo horizontal. Todos esses movimentos de câmera usados pelo diretor servem como mecanismo narrativo. Se por um lado nos aproximam do espectador (como o close-up), por outro lado nos ajuda e entender a inquietação dos personagens (planos tortos e afastamento). O mais interessante é que Winans utiliza essas técnicas para reforçar ao telespectador que estamos vendo uma ficção, mas esporadicamente ele quebra a quarta parede e nos torna participantes da obra. Sendo um ou outro, todos os movimentos de câmera vão impactar o personagem.

Além dos mais, o roteiro é bem inteligente em não se ater em demasia ao passado dos protagonistas, já que, teoricamente, são personagens de um programa de televisão e já sabem bastante um sobre o outro. Isso permite diálogos que nos revele um pouco sobre eles, mas sem que soem auto explicativos e desnecessários, e se concentre na relação entre eles e no que de fato vai acontecer quando a série de Alex acabar.

Outro ponto de destaque na obra é a fotografia do filme, feita com maestria por Robert Muratore, que utiliza uma paleta azulada quando os personagens não estão em seus apartamentos, o que reforça como eles levam uma vida infeliz, tentando ao máximo fugir do passado que os atormenta. Ainda assim, é interessante que, quando os dois estão cada um dentro de seu apartamento, Muratore tenha escolhido luzes diferentes, mas que se encaixam perfeitamente na personalidade de cada um. Enquanto Sam vive em um apartamento colorido e com mais luz, o que nos indica que, apesar de sua solidão, ela tenta ser positiva com relação as coisas. Já Alex, vive em um apartamento pequeno, com praticamente nenhum móvel, o personagens é mostrado com frequência no centro da tela e a iluminação é feita quase sempre por um único objeto – como um abajur – criando uma atmosfera mais sombria.

Com boas atuações e uma trilha sonora que consegue criar o clima desejado sem puxar atenção pra si, The Frame é uma obra interessante que brinca com a própria realidade criada e com a linguagem do cinema dentro do cinema, criando espectros infinitos e quebrando a quarta parede. Mas o mais importante é destacar que o longa reforça que somos nós que escrevemos as linhas do nosso roteiro, que cada pessoa que encontramos durante nossa vida altera esse roteiro e, por fim, que devemos focar nas coisas que nos unem e não o inverso.

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