"As Fábulas Negras" é uma antologia realizada por diretores do cinema de horror nacional. (Crédito: divulgação)
“As Fábulas Negras” é uma antologia realizada por diretores do cinema de horror nacional. (Crédito: divulgação)

As Fábulas Negras (Idem, Brasil, 2015)

Direção: Rodrigo Aragão, Petter Baiestorf, Joel Caetano e José Mojica Marins

Roteiro: Rodrigo Aragão, Petter Baiestorf, Joel Caetano, Cesar Coffin Souza

Com: Walderrama dos Santos, Mayra Alarcón, José Mojica Marins, Markus Konká, Kika Oliveira.

Quando se pensa em criaturas do folclore brasileiro, é difícil dissociá-las de uma imagem mais suave. O saci, por exemplo, é visto como alguém brincalhão e feliz, graças ao uso do personagem no Sítio do Pica-Pau Amarelo, e mesmo criaturas como fantasmas e lobisomens podem ser vistas sob uma ótica mais humanizada (como nos quadrinhos de Mauricio de Souza). Tais adaptações foram feitas para aproximar essas figuras do público mais jovem. Mas, e se esses seres fossem macabros? Malvados? Foi com esse pensamento que quatro dos maiores diretores do gênero terror do Brasil se reuniram para realizar o filme As Fábulas Negras.

O longa é uma antologia composta por seis histórias, sendo uma delas o fio condutor que conecta as demais: quatro crianças fantasiadas de super-heróis brincam no meio da mata. Andando pelo local, cada uma delas começa a contar uma história de terror que dizem ter ouvido, envolvendo fantasmas, lobisomens, saci, entre outros.

Em O Monstro do Esgoto vemos um prefeito corrupto que desvia a verba destinada para saneamento da cidade, o que resulta em esgoto vazando pela cidade. Em seguida, em Pampa Feroz, os capatazes de um fazendeiro gaúcho estão sendo misteriosamente assassinados. Uns acham que pode ser o preto velho das redondezas que se transforma em lobisomem. Em O Saci, um casal decide esnobar os conselhos do preto velho em cuidar dos seres da natureza e acabam sendo perseguidos pelo Saci. No quarto curta, A Loira do Banheiro, uma menina morre no banheiro de um internato feminino e segredos começam a ser revelados sobre o local. Por último, em A Casa de Iara uma mulher vê seu marido a traindo. Com a ajuda do demônio, ela decide se vingar do casal.

Dois pontos se destacam nessa antologia macabra: o primeiro é a maquiagem realizada por Rodrigo Aragão – que também é o diretor do primeiro e quinto conto – em todos os curtas metragens. É incontestável a perfeição do trabalho de Aragão em maquiagem e efeitos especiais dentro do subgênero gore. Desde a cabeça do prefeito explodindo, ao lobisomem voltando à sua forma humana ou até mesmo a menina morta no banheiro tirando um pedaço de vidro do rosto. Não é a toa que o diretor capixaba é chamado de “sucessor de Mojica”.

Em segundo vem a fotografia dos curtas-metragens. Oscilando entre uma luz mais clara na história das crianças e tons mais macabros nas demais tramas, Alexandre Barcelos e Marcelo Castanheira realizam um trabalho interessantíssimo, usando pouca luz, como por exemplo em A Loira no Banheiro – um dos melhores curtas do filme – ou um tom mais avermelhado, como a transformação do lobisomem em humano em Pampa Feroz.

Por último, é importante dar ênfase à presença de José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão. Não importa se você o conhece ou não, se gosta dos seus tipos de filme ou odeia. É incontestável a presença de cena que Mojica passa para o telespectador. Vê-lo realizar um monólogo, com sua voz rouca e ríspida, faz qualquer um ter calafrios e entender porque ele é o mestre nesse gênero.

As Fábulas Negras faz rir em alguns momentos e impressionar em outros. Seja pelo grotesco ou pelo alegórico. Trata-se de uma reunião de amigos fazendo o que mais amam: cinema gore. Mas isso não diminui a seriedade do projeto. Pelo contrário, reforça a capacidade que só os melhores nomes do gênero possuem.

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