Autoindulgente a ponto de fazer Terrence Malick parecer diretor de blockbusters. (Crédito: divulgação)
Autoindulgente a ponto de fazer Terrence Malick parecer diretor de blockbusters. (Crédito: divulgação)

Deserto Azul (Idem, Brasil/Chile, 2013)

Direção: Eder Santos

Roteiro: Eder Santos e Mônica Cerqueira

Com: Odilon Esteves, Maria Luisa Mendonça, Chico Diaz, Ângelo Antonio e Leonardo Fernandes.

Quando li a sinopse de Deserto Azul, o filme pareceu pretensioso. Ouvir a declaração do diretor sobre “um filme sobre alguém buscando a transcendência” disparou em meu cérebro uma luz “Alerta Terrence Malick! Alerta Terrence Malick!”, como convencionei chamar as obras que buscam abarcar mais sobre a experiência humana do que são capazes de discorrer enquanto empregam um esteticismo exacerbado e uma narrativa fragmentada. Mas disse a mim mesmo “OK, nunca se sabe”, e esperei por algo minimamente aceitável.

Apesar da pretensão que incomoda várias vezes, os filmes de Malick sempre têm um senso estético capaz de impressionar visualmente, e o veterano cineasta também claramente se importa com seus personagens, o que já salvou vários de seus excessos. Nada disso pode ser dito em favor de Deserto Azul, que parece aspirar a aspirante a Malick. A trama é dispersa, quase ausente; não há qualquer conflito; os personagens são apenas vocalizadores de um roteiro que, para ser ruim, precisaria melhorar muito; e a estrutura narrativa simplesmente inexiste (com exceção dos minutos finais, as cenas anteriores poderiam vir em qualquer ordem). E embora seja absurdo que o filme pareça depender da leitura da sinopse, já que vários elementos de um simples parágrafo simplesmente não estão lá, isso se torna um problema menor frente a todos os elementos da escola de cinematografia cult-presunçosa. Frases longas e floreadas com pretensão “artística” e que não comunicam nada? Check! Conversas repetitivas que não vão a lugar algum e insistem em repetir palavras ad infinitum? Check! Narração em off expositiva e que desaparece depois que cumpre sua função? Check! Tentativa de profundas lições existenciais a partir de atividades banais? Check! (Depois de ouvir pela quinta vez a frase “Tenho uma proposta a lhe fazer” seguida por uma sugestão estúpida, torna-se difícil segurar o riso ao pensar que alguém levou essas falas a sério.)

Os valores de produção, no entanto, são bastante competentes – especialmente a direção de arte, que mostra ter feito a lição de casa do gênero “ficção científica”, mas sem exageros. Mas não valem o elogio quando pensamos que esses recursos poderiam ter ido para obras bem melhores. No entanto o que torna Deserto Azul bem pior que um simples filme ruim é a tentativa marota nos minutos finais de trapacear o público, fazendo um jogo metalinguístico quando um novo personagem insiste em tratar com desdém o protagonista (e por tabela, o espectador) por não ter entendido tudo o que veio antes. Se num primeiro momento até fiquei intrigado, tentando encontrar o elemento X que havia deixado passar, logo fui obrigado a aceitar que o filme está mesmo querendo culpar o espectador pelo próprio vazio de conteúdo.

Então, encerro me dirigindo ao Deus do Cinema: tenho uma proposta a lhe fazer (perdoe-me, isso pega). Peço que apague da minha mente qualquer vestígio de saber que Deserto Azul sequer existe. Se isso não for possível, pode substituir essa memória por cinco exibições de Cinquenta Tons de Cinza em looping – tenho certeza que o sofrimento será mais suportável. E se também não houver como, então tome providências para que as leis de incentivo não voltem a viabilizar atrocidades autoindulgentes e estéreis como esta, cujos 90 minutos (que jamais verei de novo) parecem muito bem durar 900. Amém.

 

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments