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Logo nos primeiros minutos de projeção, vemos Mad Max (Tom Hardy) de costas, enquanto ouvimos sua narração contando um pouco sobre quem ele é. Paralelo a isso, imagens mostram os acontecimentos que levaram o mundo a ficar da forma que ele está – apocalíptico. Esse será um dos poucos momentos de sossego em que o público poderá respirar calmamente em suas cadeiras. Em menos de cinco minutos, Max começa a ser perseguido. Após ser capturado por um grupo de pessoas, mantido prisioneiro e utilizado como “bolsa de sangue” para o jovem Nux (Nicholas Hoult) – uma criatura que serve ao insano e cruel Joe, O Imortal (Hugh Keays-Byrne), ele se vê envolvido em uma perseguição armada pelo vilão em busca da Imperatriz Furiosa (Charlize Theron).

Embora personagem-título, Mad Max é apenas um coadjuvante na história. Quem conduz toda a trama é Furiosa, que ao contrário da maioria das personagens femininas nesse tipo de filme, é uma protagonista forte – tanto no aspecto físico como psicológico – e determinada em alcançar seu objetivo. Outro ponto de destaque é sua caracterização. O fato de não ter o antebraço esquerdo, no lugar de causar pena, faz com que o telespectador se surpreenda e impressione, principalmente na cena no qual ela briga, de igual para igual, com Max. Charlize Theron se entrega completamente ao papel e, quebrando o paradigma das representações de gênero nas obras de ação, mostra como é capaz de se fazer uma protagonista que não precisa de um homem para conduzir o rumo da história ou as decisões de sua vida.

Escrito a seis mãos, incluindo a de George Miller – que também é diretor do longa e responsável pelos três primeiros filmes –, Mad Max nos apresenta um homem atormentado pelo seu passado e cuja vida é norteada por um único objetivo: sobrevivência. E é por esse motivo que Max é um homem de poucas palavras – durante o longa inteiro, ele não fala mais do que 15 frases. Um homem que entende a loucura que o mundo se tornou e tenta, a qualquer custo, evitar se envolver com qualquer tipo de pessoa ou situação que possa atrapalhar seu senso de decisão. Apesar disso, ele não é um homem ruim e, mesmo evitando situações que possam colocá-lo em risco, não consegue abandonar seu instinto de proteger o próximo. O silêncio de Max destoa completamente da insanidade daquele universo e é uma forma de mostrar para o telespectador como ele não se encaixa na realidade presente no filme. Tom Hardy, que teve que usar praticamente apenas expressões corporais e faciais para compor o personagem, se encontra perfeito para o papel.

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Apesar das atuações em medida do elenco principal, as cenas de ação são o ponto forte do filme. Não se engane achando que as lutas e perseguições são apenas desculpa para atrair o público que gosta deste gênero. O fato de ter mais de 100 minutos de ação – o longa possui 120 minutos de duração – reflete a loucura e insanidade daquela realidade. Isso mostra o potencial do Miller em conseguir sustentar uma trama que envolve tantas perseguições no meio do deserto e que não perdem ritmo, tudo fruto de um belo roteiro e montagem. Ainda assim, Miller se mostra certeiro ao realizar uma cena que destaca a força de Max ao exibi-lo indo em direção à confusão, em busca de armas, e retornando sozinho, todo ensanguentado.

Enquanto a maquiagem e figurino dos personagens e o design dos carros se encaixam perfeitamente no universo megalomaníaco em que vivem, indo desde a máscara de Joe e as cicatrizes de seus servos aos veículos cheios de espinhos (e até um carro repleto de caixas de som com um guitarrista executando riffs que servem de trilha sonora, lembrando Apocalipse Now). Há também o aspecto da fotografia, que utiliza paletas avermelhadas granuladas, destacando a atmosfera pós-apocalíptica desértica na qual os personagens vivem. Apesar disso, John Seale, diretor de fotografia, consegue executar cenas leves e delicadas, como a que Max e Furiosa se encontram dentro do carro, completamente escuro. Um momento que demonstra como aqueles dois personagens são repletos de problemas e segredos.

Mad Max: Estrada da Fúria reforça o quão ambicioso e visionário Miller é. O diretor e roteirista consegue repaginar a trilogia original, criando um longa completamente alucinante e megalomaníaco, sem perder os elementos principais que consagraram os filmes estrelados por Mel Gibson. Além disso, quebra completamente os paradigmas do gênero de ação, colocando uma personagem feminina à frente do desenvolvimento do enredo. Não tenho medo de dizer que este novo capítulo não só leva a saga para caminhos completamente novos, mas que também será uma nova estrada para os filmes do gênero.