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Com a saúde debilitada, Lemmy levou ao público os clássicos do Motörhead

Fotos: Ita Pritsch

Sabe aquela sensação de que você tem que aproveitar uma oportunidade porque ela pode ser a última? Foi mais ou menos isso que eu senti ao entrar no estádio do Zequinha, em Porto Alegre, dia 30 de abril, para conferir o Monsters Tour, versão enxuta – mas não menos relevante – do festival Monsters of Rock.

Sejamos realistas: quantos anos mais de carreira terão nomes como Motörhead, Judas Priest e Ozzy Osbourne? Os protagonistas de um período importante do rock estão se despedindo dos palcos, o que é natural, já que se aproximam dos 70 anos. Se você não é saudável como Paul McCartney ou tem o corpo fechado como Keith Richards, fica difícil seguir adiante.

O público, uma mescla de jovens tentando assistir a seus ídolos pela primeira vez e veteranos que já deviam ter visto as atrações da noite em alguma ocasião, compartilhava do clima de fim de festa. Sem fatalismo ou nostalgia barata, é preciso admitir que o rock pesado não tem conseguido se renovar com a mesma capacidade de outros estilos, e em dez anos, sem os gigantes que ainda estão na ativa, dificilmente conseguirá lotar estádios. Aliás, nem estes conseguem mais: havia 16 mil pessoas no Zequinha, 9 mil abaixo da capacidade total do estádio.

Apesar da não lotação, as filas eram imensas e continuaram mesmo depois que os shows começaram. A infraestrutura, inclusive, deixou a desejar, já que todo o povo teve que ser “escoado” por um único portão, e os banheiros não deram conta da demanda.

Muita gente perdeu a apresentação da banda gaúcha Zerodoze, que iniciou um pouco antes do horário previsto. Com um som mais acessível em comparação com as atrações internacionais, os caras foram espertos, escolhendo as músicas mais agressivas de seu disco de estreia, O Peso que Corrói, mesclando com covers de “Symphony of Destruction (Megadeth) e “Wrathchild” (Iron Maiden). Se não foram aclamados pela massa, ao menos não foram vaiados, o que já é grande coisa em se tratando de um festival de heavy metal.

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Guitarrista Phil Campbell ajudou Lemmy na interação com a plateia

A expectativa era grande quando, pontualmente às 19h30min, o Motörhead subiu ao palco. Um telão interativo revezava animações com o logo da banda, a famosa mascote Snaggletooth e os dizeres “Victoria aut morte” (“vitória ou morte”), alusivos aos 40 anos da banda. Com a saúde debilitada há alguns anos, o lendário Lemmy Kilmister passou mal no Monsters de São Paulo, cancelando o show do trio. Dias depois, recuperado, tocou em Curitiba, mas nem isso acabou com a desconfiança do público gaúcho, que só acreditou que ele iria se apresentar ao vê-lo surgir todo de preto, com seu chapéu, suas botas e o baixo Rickenbacker nas mãos.

A fisionomia de um dos maiores ícones do rock mundial não é a mesma de alguns anos atrás. Antes um sujeito alto e corpulento, o quase setentão Lemmy parece frágil e franzino, o que é ainda mais flagrante nas imagens do telão. Os excessos estão cobrando seu preço, mas ele é durão: permanece no palco praticamente o tempo todo, saindo apenas durante os providenciais solos de guitarra de Phil Campbell e de bateria do fenomenal Mikkey Dee. Phil, aliás, interage com o público tanto quanto o líder, que poupa suas forças para cantar e tocar.

Do repertório não tinha como reclamar. Com cerca de uma hora e dez minutos para ficar no palco, o Motörhead preferiu focar nos clássicos absolutos (“Metropolis”, “Doctor Rock”, “Ace of Spades”, “Overkill”) a tocar músicas novas, embora tenha executado duas do álbum mais recente, Aftershock (“Do You Believe” e “Lost Woman Blues”). A voz de Lemmy, que antes era rouca e agora é quase ininteligível, e a pouca interação com a plateia fizeram com que o público respondesse friamente. O andamento lento de algumas canções também não ajudou a esquentar o show. A apresentação não fez sombra ao que já foi o Motörhead há não muito tempo, e que mais valeu pela oportunidade de estar diante de uma figura tão icônica do rock.

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Halford segue em forma, mas conta com uma ajudinha dos efeitos de microfone

A pontualidade britânica do Motörhead foi repetida pelo Judas Priest. Enquanto a banda tocava os acordes iniciais de “Dragonaut”, faixa de abertura do recente Redeemer of Souls, Rob Halford surgia do fundo do palco de óculos escuros, muito couro, tachinhas e… uma bengala! Felizmente, esse acessório é apenas um adereço para a performance do vocalista, que anda bem das pernas, obrigado.

O Priest fez um show competente, e a ausência de alguns clássicos é compreensível diante das limitações de tempo inerentes a um festival. Tecnicamente, o quinteto é perfeito, com destaque para o performático guitarrista Richie Faulkner, que substituiu K.K. Downing em 2011. Glenn Tipton é mais discreto com sua guitarra, assim como o baixista Ian Hill, que fica lá no fundão – até hoje não consigo entender porque ele fica de fora da “coreografia” de instrumentos em “Breaking the Law”. Já Scott Travis tem seu momento de glória na matadora “Painkiller”, espancando a bateria antes da despedida em clima festivo com “Living After midnight”.

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Richie Faulkner e Glenn Tipton mandam ver nas guitarras do Judas Priest

Quanto a Halford, não há dúvidas de que ainda é um grande frontman. Seja sob um espalhafatoso casaco prateado, seja com visual sadomasô (com direito a boina e chicotinho!) montado em uma Harley Davidson, o cara é incrivelmente carismático. Seu alcance vocal continua altíssimo, mas só mesmo um fã cego (surdo) para não perceber que ele conta com o providencial auxílio da tecnologia – uma espécie de efeito no microfone que, além de equalizar a voz, dá uma reverberação aos gritos mais agudos e guturais. Nada que vá manchar a reputação do sujeito, que ainda mostra empolgação autêntica por estar em cima de um palco.

Também britânico, Ozzy Osbourne abusou da pontualidade, se é que se pode dizer isso. Subindo ao palco dez minutos antes do previsto, o madman se apresentou pela terceira vez na capital gaúcha em quatro anos: antes, havia vindo em 2011, com a mesma banda, e em 2013, com o Black Sabbath. Apesar da frequência, a popularidade do vocalista parece continuar em alta, já que ele conseguiu agitar a multidão bem mais do que Motörhead e Judas Priest juntos.

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Ozzy fez o show mais esperado, sendo aclamado por 16 mil pessoas

Amparado por uma formação entrosada – o guitarrista Gus G., o baixista Rob Nicholson, o tecladista e guitarrista Adam Wakeman e o baterista Tommy Clufetos (que tocou na reunião do Sabbath) -, o príncipe das trevas deitou e rolou no palco. Correndo e pulando sem parar, Ozzy deu um banho no público com uma espécie de mangueira de bombeiros e mostrou fôlego surpreendente para seus 66 anos. Desafinou um pouco, é verdade, mas isso é algo que ele sempre fez, sem nunca comprometer a música.

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Ozzy mostrou grande forma aos 66 anos, agitando sem parar

O setlist privilegiou velhos sucessos, tanto de sua carreira solo quanto do Sabbath, sem uma faixa sequer pós No More Tears, de 1991. O álbum de estreia, Blizzard of Ozz, teve nada menos que quatro faixas executadas (“Mr. Crowley”, “I Don’t Know”, “Suicide Solution” e “Crazy Train”), perdendo apenas para o clássico Paranoid, do Sabbath, com “quase” cinco: “Fairies Wear Boots”, “War Pigs”, “Iron Man”, a faixa-título e um trecho de “Rat Salad”. Com um repertório desses e o impressionante carisma de Ozzy, não tinha como sair decepcionado.

Decepção mesmo foi, ao apagar das luzes, constatar que os grandes do metal estão indo embora, como dinossauros em extinção. Quem viu, viu, e quem não viu que trate de ver enquanto é tempo.

 

Setlists

Motörhead

“Shoot You in the Back”
“Damage Case”
“Stay Clean”
“Metropolis”
“Over the Top”
“Guitar solo”
“The Chase Is Better than the Catch”
“Rock It”
“Do You Believe”
“Lost Woman Blues”
“Dr. Rock/Drums solo)”
“Just ‘cause You Got the Power”
“Going to Brazil”
“Ace of Spades”
“Overkill”

Judas Priest

“Dragonaut”
“Metal Gods”
“Devil’s Child”
“Victim of Changes”
“Halls of Vallhalla”
“Turbo Lover”
“Redeemer of Souls”
“Jawbreaker”
“Breaking the Law”
“Hell Bent for Leather”
“The Hellion/Electric Eye”
“Painkiller”
“Living After Midnight”

Ozzy Osbourne

“Bark at the Moon”
“Mr. Crowley”
“I Don’t Know”
“Fairies Wear Boots”
“Suicide Solution”
“Road to Nowhere”
“War Pigs”
“Shot in the Dark”
“Guitar solo”
“Rat Salad/Jam session/Drums solo”
“Iron Man”
“I Don’t Wanna Change the World”
“Crazy Train”
“Paranoid”

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