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Arte e política dificilmente se desvinculam uma da outra. Seja na pintura, no teatro, na música, seja na literatura. Andam juntas desde o início. É óbvio que, com o cinema, não seria diferente. Alguns longas-metragens gostam de debater, explicitamente, assuntos relevantes à sociedade; outros gostam de usá-los como pano de fundo para outra trama, de romance, comédia ou ação. Nos dois casos, é possível fazer ótimos filmes. Esse, porém, não é o caso de O Franco-Atirador.

Baseado no livro The Prone Gunman, escrito por Jean-Patrick Manchette e adaptado por Don MacPherson, Pete Travis e Sean Penn, o longa inicia-se com uma matéria jornalística televisiva, apresentando a atual situação política do Congo: à beira de uma guerra civil, mineradoras internacionais atuam no local e são acusadas de pagar guerrilheiros e prolongar o caos que o país enfrenta. Terrier (Sean Penn) é ex-militar de Operações Especiais que atua como segurança em uma dessas mineradoras, junto com Felix (Javier Bardem) e Cox (Mark Rylance). Depois que o primeiro ministro de minas descobre uma possível conspiração no negócio, Terrier é designado para matar o ministro e, em seguida, sumir do país, deixando para trás sua namorada, Annie. Oito anos depois, Terrier volta para o Congo como voluntário em uma mineradora, para ajudar a população.

Apesar de ter sua trama voltada para uma questão política, o que poderia render uma ótima discussão sobre a realidade daquele país, ou até mesmo um longa de drama político, como, por exemplo, Diamante de Sangue, infelizmente não é isso que acontece. Toda a sua trama serve apenas para desencadear eventos que envolvem tiros, explosões e brigas. Se, por um lado, funciona bem em suas cenas de ação e luta, por outro, deixa a desejar no desenvolvimento de seus personagens — do protagonista aos coadjuvantes.

Terrier, por exemplo, é um personagem que causa ressentimento em virtude de todos os trabalhos que realizou como militar durante as Operações Especiais. Isso o assombra até hoje. Decide, portanto, voltar para o Congo, trabalhar como voluntário e ajudar as pessoas. O tema, porém, não é bem explorado no filme e acaba sendo inócuo. Além disso, no decorrer das cenas, ele descobre que, em virtude do seu trabalho anterior, tem agora algum tipo de lesão cerebral que lhe causa problemas de memória e fortes tonturas. É óbvio que este outro tema, apesar de também não ser integralmente explorado, é introduzido na história apenas para dificultar a vida do personagem em busca por respostas. O diretor Pierre Morel tenta, inclusive, criar alguma tensão, colocando o personagem no centro da tela enquanto se ouve um zunido, conseqüência da lesão cerebral, mas sua ideia não chega a ser eficaz, já que logo em seguida ele passa a mostrar o personagem em cenas de perseguição e tiros como se nada tivesse acontecido.

Quanto a Sean Penn, seu personagem parece a mistura entre uma volta aos holofotes e uma tentativa de se reinventar, indo pelo mesmo caminho que Liam Neeson trilhou em Busca Implacável. Por sinal, Pierre Morel também dirigiu o longa protagonizado por Neeson. Embora ele tenha tido atuação em geral ruim nos seus últimos filmes, como Caça aos Gângsteres e A Vida Secreta de Walter Mitty, pelo menos percebia-se que neles ele estava comprometido com seu trabalho, sensação que não conseguimos ter em O Franco-Atirador, mesmo tendo ele demonstrado que aprendeu a surfar e malhou para exibir um corpo mais bem definido. Por sinal, são várias as cenas em que ele aparece sem camisa.

Quanto aos coadjuvantes, Javier Bardem interpreta um ex-companheiro de Terrier que, após o sumiço do amigo, inicia um relacionamento com Annie. Se, a princípio, ele consegue convencer como possível vilão da trama, logo percebemos que ele não ajuda no desenvolvimento da história, servindo apenas para que Terrier encontre a ex-namorada. Bardem até se esforça para criar um personagem pelo qual o público possa criar alguma antipatia, por causa do ciúmes e inveja com relação ao seu colega; mas, no final, nossa antipatia está mais ligada ao mau roteiro do que à personalidade do personagem.

Quanto aos demais personagens, quase não os vemos durante o filme – principalmente o personagem de Cox, que aparece em apenas duas cenas. Isso dificulta a criação de tensão, já que nem mesmo sabemos quem são os possíveis vilões do filme. Enquanto Ray Winstone (Stanley) interpreta o amigo que tem todos os contatos e ajuda na investigação, Annie (basicamente a única mulher no elenco) é o par romântico que aparece apenas para criar uma pequena trama amorosa no filme, se um arco dramático independente. Por fim, temos o personagem de Idris Elba, que aparece em uma única cena e realiza um discurso cheio de metáforas sem sentido para, em seguida, revelar-se como agente da Interpol.

O Franco-Atirador não é um bom filme de ação e suspense, como, por exemplo, De Volta ao Jogo. É uma obra que, apesar dos seus defeitos, consegue alcançar o objetivo de entreter os homens com boas cenas de ação. Mas não mais que isso. Apesar de seu ótimo elenco, nele se percebe claramente que o péssimo roteiro pode chegar a ofuscar as atuações. É um longa do qual você provavelmente vai se esquecer por completo em poucas semanas.