Dawkins abriu o Fronteiras do Pensamento 2015, em Porto Alegre (foto: Luiz Munhoz/divulgação)
Dawkins abriu o Fronteiras do Pensamento 2015, em Porto Alegre (foto: Luiz Munhoz/divulgação)

Texto Gregory Gaboardi

Na última segunda (25/5), o biólogo Richard Dawkins estava diante do maior público que uma conferência do Fronteiras do Pensamento já teve em Porto Alegre: cerca de três mil pessoas. O Auditório Araújo Vianna lotado talvez não tenha impressionado Dawkins, mas me impressionou. Não pensava que Dawkins fosse (e devesse) ser tão popular assim por aqui. Após ser contrariado pelo volume da multidão, guardei minhas reservas sobre tamanha popularidade, me perguntando “Quantos vieram por realmente estimar o pensamento e o trabalho dele?”. Só no fim da conferência eu entenderia melhor minha insistência na ideia de que não deveria ter tanta gente interessada no que Dawkins diz. E reconheceria que eu estava sendo injusto.

A apresentação foi sobre a evolução, a seleção natural e as relações entre os seres vivos na perspectiva que Dawkins promove desde O Gene Egoísta (1976): a visão centrada no gene (que tem sido cada vez mais contestada, embora Dawkins não indique isso nem recue dela). De acordo com Dawkins o alvo da seleção natural não seria a espécie, o grupo de indivíduos ou o próprio indivíduo, mas o gene. Isso seria consequência do fato de que nossas melhores explicações e predições para os fenômenos biológicos têm o gene ocupando o papel principal: desde o modo como as plantas interagem com os ambientes, passando pelos padrões comportamentais dos animais até a constituição física dos mesmos. Dawkins fez muitas analogias econômicas para elucidar isso: agentes econômicos tentam maximizar alguma coisa (lucro, por exemplo), e para fazer isso de modo eficiente precisam otimizar suas capacidades de obter retorno sobre o que investem. Analogamente, agentes biológicos tentariam maximizar sua sobrevivência otimizando suas capacidades de obter retorno (sobreviver) sobre o que investem (energia), bastando que se saiam melhor nisso do que os concorrentes com os quais disputam recursos.

Seguindo esse raciocínio, se o agente biológico fosse o indivíduo, esperaríamos que este fizesse tudo (e fosse constituído de tal modo) que assegurasse sua sobrevivência enquanto indivíduo, independentemente da situação dos demais. Se fosse assim, esperaríamos que os indivíduos priorizassem sempre a própria longevidade, mesmo quando tivessem que escolher entre isso e a oportunidade de procriar (passar seus genes adiante), por exemplo. Não é o que observamos. Pelo contrário: o que observamos na natureza são máquinas otimizadas para caçar, para se defender ou fugir e, principalmente, para procriar. Não para meramente ficar vagando por aí por quanto tempo puderem. Dawkins enfatiza esse fato mostrando como os predadores e suas presas têm corpos que resultam de uma verdadeira corrida armamentista: as garras do predador vão se tornando tão boas para atacar quanto as patas da presa para fugir. Contudo, o custo energético adequado desse “equipamento” para o indivíduo (seja predador ou presa) é regulado pela seleção natural conjuntamente com o custo para outros “equipamentos”, que não necessariamente são aqueles dos quais o organismo dependeria para ter longevidade.

3 mil pessoas lotaram o Araújo Vianna na conferência (foto: Luiz Munhoz/divulgação)
3 mil pessoas lotaram o Araújo Vianna na conferência (foto: Luiz Munhoz/divulgação)

Passando do nível do indivíduo para o nível do grupo, seguindo o mesmo raciocínio econômico, se o agente biológico fosse certo grupo, esperaríamos que ele se comportasse de um modo que assegurasse a própria sobrevivência enquanto grupo: buscasse o bem comum fazendo um uso prudente dos seus recursos energéticos (o que pode ser tanto a carne das presas quanto a mera energia solar) e evitando conflitos internos a qualquer custo. Fosse assim, esperaríamos que nas florestas a altura das árvores (decisiva para a quantidade de energia solar que elas aproveitam) obedecesse uma espécie de contrato social no qual uma árvore “rebelde” (que se tornasse mais alta do que fora permitido no suposto contrato) fosse punida sem abalar o grupo. Também não é o que observamos.

O que observamos é o oportunismo se consolidar como regra, sem haver qualquer preocupação genuína em manter um grupo ou o bem comum. Quando os grupos são mantidos, é só porque em algum nível isso é conveniente (naquele momento) para o agente biológico que de fato é determinante: o gene. Pode ser que no longo prazo frequentemente fosse melhor tentar manter um grupo harmonioso, preocupado com o bem comum. Porém, se isso não é uma regra no mundo dos seres vivos é exatamente porque o gene é quem decide a questão, e ele não olha para o futuro. O gene só está interessado em garantir a própria replicação, sua continuidade na próxima geração. Mesmo que a próxima geração seja a última de um grupo fadado à extinção pelo egoísmo de seus componentes.

O gene não está literalmente interessado em nada e nem é egoísta, claro. Essa é uma ressalva que Dawkins repete bastante e com razão: críticos pouco caridosos não hesitaram em imputar a Dawkins a ideia de que os genes seriam mesmo egoístas, ao ponto em que tornariam inevitável que as pessoas não fossem igualmente egoístas, naturalizando ou até tornando desejável o egoísmo entre indivíduos. Dawkins rejeita isso com firmeza desde O Gene Egoísta e fez isso novamente na conferência. Ele diz ser um darwinista convicto sobre como as coisas são no mundo dos seres vivos, mas um anti-darwinista igualmente convicto sobre como as coisas devem ser no mundo dos humanos: Dawkins defendeu que “Devemos planejar, valorizar o altruísmo, pensar no futuro, deixar para trás a ditadura do gene egoísta”. Na economia da ditadura do gene egoísta, Dawkins notou que reina a mão invisível de Adam Smith, que não seria um modelo a ser seguido, não seria uma resposta para a pergunta que define o tema dessa edição do Fronteiras do Pensamento: como viver juntos?

Autor de O Gene Egoísta é um dos maiores divulgadores da ciência no mundo (foto: Luiz Munhoz/divulgação)
Autor de O Gene Egoísta é um dos maiores divulgadores da ciência no mundo (foto: Luiz Munhoz/divulgação)

Aqui aparece a primeira lacuna que quero destacar, que foi a lacuna “boa” de Dawkins: ele não respondeu positivamente a pergunta temática. Sua resposta foi quase totalmente negativa, poderia ser parafraseada em “Na natureza os seres vivem juntos assim, são um exemplo para nós de como não viver juntos”. Considerei essa resposta profundamente honesta, modesta e razoável.

Como disse, entretanto, antes da conferência eu trazia reservas sobre Dawkins ser digno de uma popularidade que lote o Araújo Vianna. Reservas que vinham se acumulando há alguns anos. O Dawkins que me impressionou em O Gene Egoísta não me impressionou em Deus, Um Delírio (2006), longe disso. Não que tenha sumido nesse ínterim, ou desde então, esse Dawkins que é um dos maiores divulgadores da ciência que já existiu (e que felizmente era o que estava na conferência). Acontece que o Dawkins que se tornou mais popular é o outro, é um que ataca religiões e as coloca como o dragão a ser decapitado pela ciência. É, enfim, um Dawkins que se tornou popular pelas razões erradas. Não me entendam mal: não estou dizendo que nada das críticas de Dawkins às religiões se salva ou que seja errado criticar religiões. Dawkins é extremamente lúcido em questões como o ensino das religiões nas escolas, por exemplo.

O problema aparece quando a crítica de Dawkins pretende ser mais profunda e geral, e quando pretende justificar o ateísmo, que é quando ela requer um embasamento filosófico que Dawkins fica nos devendo. Pior que isso: ao longo dos anos não só ele ficou devendo esse embasamento como fez pouco caso disso (junto com outros “neo-ateus” famosos, dos quais excetua-se apenas o filósofo Daniel Dennett, que esteve em uma edição anterior do Fronteiras do Pensamento, mas com público muito menor). Emitiu (por conta ou por coro) opiniões levianas sobre a filosofia e ajudou a difundir um pensamento rasteiro e raivoso sobre a mesma, consequentemente também sobre religião e outros assuntos que não são propriamente científicos. Esse Dawkins eu não queria que fosse popular, pois é o da lacuna “ruim”.

Felizmente, repito, não foi esse Dawkins que vi na conferência. A religião quase não apareceu na apresentação, e não houve nenhum disparate anti-filosófico ou mais geral. Dawkins comentou sobre as religiões somente quando foi permitido ao público fazer perguntas. Em seus comentários ele pareceu continuar pensando algo que julgo implausível: que a religião seria uma doença em vez de ser um sintoma. Apesar disso, ele foi razoável nas colocações e deixou transparecer que de fato prefere falar de ciência do que de religião, tal como afirmou recentemente. Tomei isso como sinal definitivo de que eu estava diante do Dawkins que admirava.

É agora que paro de fazer de conta que há mais de um Dawkins e reconheço, como reconheci no final da conferência, que o que há é um Dawkins com algumas lacunas. Algumas boas e outras ruins. Particularmente, admiro muito mais Dawkins quando ele nos presenteia com lacunas como a que foi “boa”, e por isso vi que eu seria injusto se, depois da conferência, me concentrasse em comentar a lacuna “ruim”, por mais que ela tivesse me feito esquecer do resto. A conferência me fez lembrar das qualidades de Dawkins e me sentir sortudo por estar ali. E feliz por ter tanta gente junto.

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