13 de maio de 1888 é data da Lei Imperial n°3.353, conhecida como Lei Áurea. O texto foi assinado pela Princesa Isabel, abolindo a escravidão no Brasil. Apesar de conseguir a “liberdade”, os negros não tiveram nenhum apoio com a medida. Apenas deixaram de ser mão-de-obra preferida da economia. Então, contando com nada, além de um passado escravizado, eles tiveram que seguir com suas vidas em um país em formação. Porto Alegre tem muitas histórias para contar sobre os negros. Mas quem se lembra?

A partir de hoje, o Nonada vai trazer uma série de reportagens sobre este assunto. O Percurso Negro é a nova seção deste site, baseado no projeto Territórios Negros e no Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre. E a primeira reportagem você confere abaixo:

Quando falamos em colonização do Rio Grande do Sul, em que povos pensamos? Nos alemães, italianos, portugueses ou espanhóis, em suma: europeus. Parece que o tempo nos ajuda a apagar que outras etnias – além da branca – construíram essa terra. Trabalhamos o “dom do esquecimento” ao falar dos negros. Para que isso deixe de acontecer, cultivamos a memória, as lembranças, a história. Não precisamos viver no passado, apenas reconhecer que ele existiu. É preciso valorizar todos os povos que fazem parte do Estado. Pensando nisso, o projeto Territórios Negros, realizado há sete anos pela Carris, lembra a história da população negra em Porto Alegre.

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A historiadora e cobradora de ônibus Fátima Rosane é uma das atuais responsáveis pelo projeto  (Crédito:  Ita Pritsch)

Afrobrasileiros em Porto Alegre

O ano era 2008, a professora Adriana dos Santos coordenava o Curso de Formação Continuada em História e Cultura Africana e Afro-brasileira, promovido pela Assessoria Pedagógica de Relações Étnicas da Secretaria Municipal de Educação (Smed), destinado aos professores da rede municipal. Os encontros aconteciam às sextas-feiras do mês de agosto, e a temática da formação era: “Territorialidade Afro-brasileira”. Além das palestras principais, havia mini-cursos, e, um deles, foi ministrado pelo historiador Manoel José Ávila, que tratava dos territórios negros em Porto Alegre.

A atividade despertou o interesse dos envolvidos e, então, uma ideia foi proposta. “Decorrente da atividade, com os cursistas motivados, depois da exposição dos pontos destacados, pensamos ser oportuno fazer uma visita in loco nos locais – daí passamos para a atividade externa, que não estava inicialmente planejada, mas que foi organizada já para o dia seguinte, um sábado pela manhã”, conta Manoel. Quem poderia ceder um ônibus para tal feito? A empresa Carris foi a resposta. Então os acadêmicos levaram seus alunos para um percurso em coletivo emprestado, graças à boa relação com a companhia, e a participação de Márcio Ramos e Leonardo da Rosa, funcionários da empresa. A ação piloto foi um sucesso e, depois de uma roda de negociações, uma nova atividade entraria em pauta.

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Na foto, Márcio Ramos e Manoel Ávilla (Crédito: Arquivo Pessoal)

Era a Semana da Consciência Negra de 2009, quando surgiu uma nova oportunidade. “Os passageiros foram os integrantes do Grupo de Trabalho Anti-racismo da Prefeitura, um grupo formado por representantes, titulares e suplentes das diversas secretarias, departamentos e empresas da prefeitura e que foi criado para propôr e conduzir localmente as políticas de promoção da igualdade racial. Depois foi substituído pelo Grupo de Trabalho do Povo Negro, que deu origem ao Gabinete do Povo Negro, e que hoje é a Secretaria Adjunta do Povo Negro”, contextualiza o historiador. Dessa vez, uma escola participou do evento. Os alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Leocádia Felizardo Prestes realizaram a segunda edição do percurso junto de representantes da comunidade negra e autoridades, como o prefeito de Porto Alegre na época, José Fogaça. Entretanto, mais tratativas foram necessárias para o projeto decolar.

Outubro de 2010 foi o lançamento oficial do projeto “Territórios Negros: Afrobrasileiros em Porto-Alegre”. O evento contou com a cobertura da TVE e a EMEF Presidente Vargas foi a instituição que inaugurou a saída pelos pontos da história negra em Porto Alegre. “A questão toda foi criar os vínculos entre a Carris, a Smed e a Companhia de Processamento de Dados do Município de Porto Alegre (Procempa), para que tivéssemos o amparo institucional e o aporte financeiro para o projeto. A Carris disponibilizou o ônibus e o pessoal para a condução. A Smed tinha atendidas as suas escolas e aportava algum recurso financeiro. E a Procempa entrava com recursos financeiros para a produção de material, o folder principalmente”, articula Manoel. Nessa época, ele coordenava a Assessoria de Relações Étnicas da Smed. Depois a colaboradora Clarice Moraes conduziu o projeto pelos anos seguintes. Em 2011 a Procempa passou a sediar a iniciativa.

Cidadania em todas as cores

Leonardo da Rosa virou o motorista oficial do ônibus cedido pela Carris, em 2009. Negro, Leonardo não tinha conhecimento da história de seu próprio povo, mas isso apenas o impulsionou a aprender. “Na boa, eu nem me reconhecia como negro, e sim, como preto”, brinca. O motorista passou a conversar com negros mais velhos, visto que seu apetite pela história só aumentava, além de se identificar mais com o Territórios Negros a cada circulada pela cidade. Não demorou para que Leonardo fosse promovido, tamanho seu envolvimento. Ele começou ajudar na fala dos guias e acabou tornando-se um deles.

Em uma conversa com um dos colaboradores do projeto, Márcio Ramos, o coordenador ficou sabendo que uma de sua colegas de trabalho era formada em história, com especialização em culturas afro e indígena. Branca, a cobradora Fátima Rosane André apareceu na hora certa. Ela aprendeu todos os macetes de guia e assumiu o posto de monitora desde outubro de 2012, sendo a responsável por contar a história de cada ponto negro do trajeto.

Em 2013, aconteceu o fim da parceria com as entidades da prefeitura. Adivinha quem chamou a responsabilidade pelo projeto? “Bah! Depois que o projeto saiu da Smed e Procempa, para ele não acabar – pois acreditava muito nele –, eu conversei com a direção da Carris que me deu o aporte necessário para continuar. Mas, claro, sempre buscando parceria com todas as secretarias envolvidas”, explica Leonardo. Desde então, o motorista virou o coordenador do projeto, que passou a adotar um novo slogan: “Territórios Negros: Cidadania em todas as cores”.

O ônibus cedido pela Carris para o percurso (Crédito: Ita Pritsch)
O ônibus cedido pela Carris para o percurso (Crédito: Ita Pritsch)

Até hoje, essa dupla comanda o Territórios Negros, eles também contam com a ajuda do motorista Paulo Ricardo Cidad. Em 2015, o projeto está com sua agenda lotada até o fim do ano. São passeios nos turnos da manhã e tarde, de segunda a sexta-feira, com o período da noite também às quartas-feiras. Aos sábados, o percurso acontece apenas na parte da manhã. Uma rotina intensa para que alunos, professores e moradores da região metropolitana (Porto Alegre e Grande Porto Alegre) conheçam a trajetória dos negros. Desde seu início, mais de 30 mil pessoas já foram guiadas pelos responsáveis do programa.

Patrimônio afro-brasileiro em Porto Alegre

Em um dos passeios realizados em 2014, com uma turma de alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), o projeto chamou a atenção dos passageiros. Tanto pela sua riqueza de conteúdo quanto pela falta de apoio que essa iniciativa merece. Então foi proposto um curso de extensão que ampliasse a formação de educadores e ajudasse o Territórios Negros. Conforme a Ufrgs: “o curso caracteriza-se como ação de extensão da Ufrgs e objetiva promover formação com educadores sobre patrimônio afro-brasileiro, a partir de metodologia própria contemplando a criação de ações educativas que considerem as marcas de pertencimento negro nas comunidades escolares”, diz em sua descrição em folders e no site da instituição.

O curso “Territórios Negros: patrimônio afro-brasileiro em Porto Alegre” é oferecido pelo Laboratório de Ensino de História e Educação (Lhiste) em parceria com a Carris, Smed, Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e Secretaria Adjunta do Povo Negro (SAPN), e é direcionado para professores, licenciados e participantes de movimentos sociais. Serão seis encontros, que contam com palestras, oficinas e a realização do trajeto, de 8 de maio a 8 de agosto. Fazem parte da formação pessoas que participaram da primeira fase, como os idealizadores Adriana Santos e Manoel Ávila, os atuais responsáveis, Fátima Rosane e Leonardo da Rosa, e a mestranda Francieli Ruppenthal, que realiza uma pesquisa sobre o Territórios. O curso contava com 40 vagas. As inscrições se encerraram no dia 1º de maio, passando de 60 interessados.

O projeto Territórios Negros espera crescer em 2016. A Ufrgs apoiou a inscrição do projeto em um edital para melhorar sua estrutura – que até hoje – é formada por funcionários da Carris. Atualmente, o ônibus oficial está sem uma identidade, então se você observar um coletivo todo branco passeando por Porto Alegre saiba que, ali dentro, tem muita história negra.

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