FOTOS Fernando Halal

TEXTO Rafael Faustino

Quando uma banda se aproxima dos 25 anos de estrada, dificilmente se pode esperar grandes surpresas de seus shows. Mas nem por isso tudo se torna previsível, especialmente quando a banda é fortemente ligada a questões políticas que fervem atualmente. E foi o discurso engajado contundente aliado a um som pesado o combustível do show de hardcore do Dead Fish em Porto Alegre, na última quarta-feira (17), em um Opinião que não estava lotado, mas fez barulho digno de casas até maiores.

Dead Fish fez questão de frisar que entrou pela "esquerda" do palco
Dead Fish fez questão de frisar que entrou pela “esquerda” do palco

Para quem conhece a banda, não há nada novo em se deparar com letras que falam em revolução, opressão, direitos indígenas e metem o pau nas condutas morais individualistas e privatização dos bens. O Dead Fish é declaradamente de esquerda, e a radicalização recente da discussão política faz com que seu discurso se inflame mais ainda, reverberando na intensidade colocada no show. Ótimo para o público, que ganhou uma apresentação insana de 24 músicas cheia de pulos e voadoras no ar do vocalista Rodrigo Lima.

Por volta das 22:30, já com algum atraso, o Dead Fish subiu ao palco recebido pelo tradicional grito de seu fiel público “Ei, Dead Fish, vai tomar no cu!”. Sabem, então, que são desnecessárias apresentações. Sem palavras prévias, o grupo capixaba iniciou o show com a ultrarrápida “Selfegofactóide” – que abre também o sétimo e recém-lançado album da banda, Vitória – e sua crítica aos discursos moralistas e meritocráticos que acometem nossa elite: Minta sobre mérito, muito mais fácil é transferir / Faça direito, se torne bom, se torne melhor / Transformando frustração em teatro moral. Seguiu-se a ela “Zero e um”, do aclamado álbum de 2004 com o mesmo nome, que fez a primeira roda de bate-cabeça se abrir em frente ao palco. Tentei até contar o número de mergulhadores do palco que se seguiram a partir daí durante todo o show, mas foi impossível, tantos eram eles – e elas.

Foi só após a terceira música, “Queda Livre”, que Rodrigo fez o primeiro diálogo com o público. E lembrou os fãs de quem eles são: “Vocês devem ter percebido que entramos pela sua esquerda do palco. Nós [a esquerda] erramos, estamos em um momento difícil, mas precisamos seguir marcando a nossa”. O vocalista deixa clara a posição da banda, sabendo que ainda há quem não entenda a mensagem que as letras do Dead Fish passam. Recentemente, após uma postagem no Twitter oficial da banda dizendo que “a direita que cola no show está no lugar errado”, uma polêmica foi criada e Rodrigo demitiu o amigo que cuidava das redes sociais, devido ao mal estar criado. “A gente procura sempre pontuar, é importante. Principalmente neste momento que o Brasil está vivendo. Só que passou dos limites. Ele abriu uma brecha de falta de respeito e de egoísmo ali que não precisava”, explicou mais tarde.

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A banda  animou o público e se animou no palco

No show, entretanto, não há contemporização. O cantor atacou o avanço recente de pautas conservadoras como a redução da maioridade penal e a criminalização do aborto, citando os “fundamentalistas pelas-saco” que influenciam a política e os direitos humanos. E anunciou, como se fosse um alento, a faixa “Venceremos”, escolhida para o momento mais incisivo do show.

Outra pausa mais à frente serviu para celebrar o lançamento do novo álbum, que foi financiado à base de crowdfunding pelos fãs. Um feito considerável para o Dead Fish, considerando que o valor arrecadado, de quase R$ 260 mil, foi o mais alto já conseguido por projetos na plataforma Catarse até hoje. O maior nome do hardcore nacional chega firme ao crepúsculo de toda uma geração do gênero, que perdeu recentemente expoentes como Dance of Days e Rancore.

Cansado das próprias paralisações, Rodrigo e banda seguiram o show falando menos e emendando clássicos, como “Paz Verde” e “Hoje”, a trabalhos novos, como “Lupita” e “912 passos”. Passaram também nesse trecho intermediário a existencialista “Bem-vindo ao clube” e “Autonomia”, ambas muito bem recebidas. Momentos mais baixos tiveram “Shark Attack”, a única música em inglês do repertório apresentado, e “Sem Sinal”, a mais lenta de todo o set-list. Nessa última, Rodrigo até brincou com o caráter mais pop da música, apresentando-a ironicamente como um “hit cheio de prêmios”. É a piada de uma banda que teve de lidar com a “culpa” de ser famosa após sair de um meio underground. Sofreu pesadas críticas de seu público mais tradicional por “se vender” a gravadoras em trabalhos passados. Hoje, com o álbum 100% independente, podem encarar isso como uma experiência superada. Rodrigo, inclusive, estava no palco com um visual “Mauricinho”, de topete para o lado e camisa pólo, em uma aparente sátira de si mesmo.

Mas qualquer brincadeira ficou para trás quando chegou a vez de “A Urgência” e sua introdução explosiva (Hoje é o dia da Revolução / Não há ninguém nas ruas, você está sozinho / pronto pra sujar as mãos), que trouxe o Opinião abaixo. A sensibilidade da banda se mostrou presente ao emendar nela “Tão Iguais”, inserindo no repertório a mesma sequência presente no álbum Zero e Um, que qualquer fã tem inconscientemente na cabeça.

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Vocalista  Rodrigo Lima  canta críticas ao sistema político e econômico, à hipocrisia e ao preconceito

Na sequência final, os clássicos “Mulheres Negras” e “Afasia” tiveram marcantes trechos cantados em uníssono pelo público. Para fechar, o hino “Sonho Médio” e sua paulada no elitismo do discurso neoliberal e consumista fez com que todos certamente fossem embora com uma mensagem pulsando na cabeça.

No limiar entre o underground e uma aceitação mais ampla, o Dead Fish de 25 anos de vida alcançou uma posição singular, de poder discursar firme para seus fãs já habituados e, ao mesmo tempo, atrair novos com seu som poderoso e de apelo jovem. “Sempre um ponto fora da curva”, como classificou Rodrigo ao final do show, Porto Alegre mostrou receptividade e uma energia que deixou a banda satisfeita ao sair do palco. Pelo lado esquerdo, é claro.

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