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Fotos Alina Souza

A primeira vez que eu vi um show do Lenine foi em 2012, no Teatro Universitário, em Vitória/ES, e ele estava na estrada com a turnê do Chão. O show era um espetáculo quase teatral. Cronometrado em todos os aspectos, um jogo de luz impressionante, uma direção de arte incrível. Lenine prendia a atenção do público através da delicadeza e tranqüilidade. Porém, parece que ele deixou isso tudo para trás na sua nova turnê, Carbono, que apresentou no palco do Opinião, em Porto Alegre.

Com um cenário simples – vigas de metal interligadas uma nas outras, simulando quase uma estrutura química – e uma iluminação bem básica, com holofotes atrás, nas laterais, e em cima. Lenine entrou no palco acompanhado de Bruno Giorgi (guitarra, bandolim, efeitos e vocais), JR Tostoi (guitarra e vocais), Guila (baixo, synth e vocais) e Pantico Rocha (bateria e vocais) e começou a tocar “Castanho”. O refrão da música O que eu sou / eu sou em par / não cheguei aqui sozinho é um agradecimento para todos os parceiros que ajudaram na realização desse trabalho e, porque não, durante toda sua carreira. Uma pena que o som dos instrumentos estava desnivelados. A guitarra de Tostoi estava mais alta que o restante da banda, e o vocal do Lenine oscilava entre muito alto ou muito baixo.

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Lenine voltou a Porto Alegre para apresentar seu álbum Carbono (Foto: Alina Souza/Nonada)

Porém, esses pequenos defeitos foram ajustados rapidamente e, sinceramente, é algo que logo foi esquecido, porque o que foi visto no palco foi um tsunami sonoro. Uma gigantesca onda de puro, velho e bom rock’n roll. A impressão que se deu era de que o compositor mergulhou o público em um mar agitado, sem chance para puxar o fôlego. As músicas que deram continuidade ao show foram “Impossível veio para Ficar e em “Na Pressão”, o cantor largou o violão e impressionou por seus trejeitos e expressões durante a música. Em seguida veio “Martelo Bigorna”, do álbum Labiata e “Cupim de Ferro”. Nesta, Lenine volta a ficar sem violão e, com o ritmo maracatu, embalou o público com seus movimentos corporais a dançar que, por sinal, ainda estava bem tímido.

Depois desse mergulho profundo que o cantor proporcionou ao público, veio “À Meia Noite dos Tambores Silenciosos”, um momento para que todos pudessem voltar à superfície e respirar. A iluminação mudou de amarelo para azul e Lenine, com os tambores do típico maracatu, cantou os Os versos Largo do Terço / quão largo, profundo / bendito é teu rito / que eu verso dando a impressão estar entoando uma oração. Mas a respiração foi breve, logo veio o tsunami musical novamente. “Meu Amanha” e “A Causa e o Pó”  foram tocadas uma seguida da outra, literalmente, aproveitando os acordes de uma para emendar a outra. Em “Quem Leva a Vida Sou Eu” Lenine voltou a largar o violão e, de novo com o ritmo maracatu, fez o público dançar, este que agora estava um pouco mais solto do que no início. A impressão era de o que público estava receoso quanto a “mergulhar” no show, mas aos poucos foram percebendo que isso não é uma escolha, é inevitável ser pego pela onda. Em “Simples Assim”, uma das músicas mais linda do seu novo projeto e que, em tempos de extrema intolerância política, discursos de ódios para com os gays, negros, mulheres, índios e moradores de rua, poderia ser facilmente um hino de uma sociedade mais amorosa e menos complicada.

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Lenine encheu o Opinião com ondas de músicas de sua carreira (Foto: Alina Souza/Nonada)

E assim como um tsunami, que vem com uma série de ondas, impossibilitando a pessoa de respirar, em algum momento vem a calmaria. Lenine ficou sozinho no palco, com apenas um refletor o iluminando, e cantou “Universo na Cabeça do Alfinete”. Em seguida, explicou porque várias canções estão de fora do setlist e deu oportunidade para que o público escolhesse duas músicas. A primeira foi “Paciência”, um dos maiores clássicos do cantor, que fez todos cantarem bem alto. Sem conseguir decidir qual seria a segunda canção, o cantor brincou com o público e escolheu tocar “Relampiano”. Essas três músicas permitiram que o público relaxasse, descansar sobre esse mar e sentir as ondas tranquilas e serenas.

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Com uma decoração minimalista que remetia ao álbum, o show juntou várias referências para formar um diamante musical (Foto: Alina Souza/Nonada)

Mas a serenidade logo foi interrompida quando a banda voltou. A iluminação voltou ao normal, e “Sonhei” foi a música que abriu esse segundo bloco do show, retornando com o maremoto sonoro. Com uma iluminação azul, foi a vez de “Quede Água”, uma linda canção que retrata as conseqüências do descaso do ser humano com água. Em seguida vieram “Olho de Peixe”, do segundo álbum do cantor, “Magra”, do cd Labiata, “Envergo mas Não Quebro” e “Se não for Amor, Eu Cegue”, do Chão. A onda sonora veio com tudo, uma atrás da outra, sem tempo para respirar e pensar. E Lenine, com seus movimentos corporais, trejeitos e expressões, davam uma maior intensidade à apresentação. Assim como a iluminação do show, que era um espetáculo a parte. Na sua maioria, utilizando uma contra luz ou nas laterais, criavam um efeito impressionante, como se os músicos se multiplicassem nas sombras.

Lenine avisa que eles estão chegando ao fim. O último bloco do show veio com “Grafite Diamante”, seguido de “Cadeeiro”, que foi muito aplaudido ao seu término. “Do It” fez o público cantar bem alto o jogo de palavras da canção e aplaudir bem com muita euforia, e, por fim, “Undo”, sem voz, apenas os sons dos instrumentos, foi o momento para o compositor agradecer a todos os envolvidos na realização do show. Depois de ser aplaudido, o cantor brincou com o público sobre pedir o bis e ficou no palco. As músicas escolhidas foram “A Rede”, que mostrou toda a empolgação do intérprete, gritando bem alto o último refrão da música e, com o auxilio do eco, deu mais poder ao último grito da música. “Castanho”  foi tocada novamente, talvez uma forma de compensar pelos erros no início do show. Para ser bem sincero, eu nem lembrava dos erros. Até achei estranho ele voltar a tocar essa música.

Lenine e a banda saíram do palco muito aplaudidos. A equipe técnica entrou para desligar os aparelhos e, de surpresa, todos voltaram. “Hoje eu quero sair só” fez o público se animar como nunca e gritar bem alto toda a letra, principalmente o refrão vai ver se eu estou lá na esquina / devo estar / já deu minha hora e eu não posso ficar / a lua me chama e eu tenho que ir pra rua.

O que se percebeu ao longo do espetáculo é que o público ainda não conhecia as músicas do novo trabalho de Lenine, o que é algo normal, já que o novo filho tem apenas 2 meses idade. E mesmo assim, todos ali ficaram perplexos – fosse um fã de longa data ou um curioso que pouco conhece – contemplando como esse carbono foi, de música em música, se transformando em um belo diamante.

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