Nova sequência da franquia adiciona elementos mais imprevisíveis, mas sai perdendo como filme de ação. (Crédito: Paramount/divulgação)
Nova sequência da franquia adiciona elementos mais imprevisíveis, mas sai perdendo como filme de ação. (Crédito: Paramount/divulgação)

O Exterminador do Futuro: Gênesis (Terminator: Genisys, EUA, 2015)

Direção: Alan Taylor

Roteiro: Laeta Kalogridis e Patrick Lussier

Com: Arnold Schwarzenegger, Emilia Clarke, Jai Courtney, Jason Clarke, J.K. Simmons, Byung-hun Lee, Matt Smith, Dayo Okeniyi, Courtney B. Vance, Michael Gladis, Sandrine Holt e Wayne Bastrup.

As continuações não foram generosas com a franquia O Exterminador do Futuro após a saída de James Cameron, responsável pelas seminais partes 1 e 2 (e que, convenhamos, se resolvem perfeitamente). Dirigida por Jonathan Mostow, a parte 3 tinha alguns bons conceitos, mas no geral arruinava o esforço das ações anteriores de Sarah Connor, John e o T-800 em prol de uma trama pouco surpreendente. Já a parte 4, comandada pelo medíocre McG, era um caça-níqueis inofensivo e pouco memorável, além de ter uma história que não desenvolvia em nada a trama dos anteriores. Por sua vez, este novo Gênesis se apresenta como o mais decente da série desde O Julgamento Final, mesmo que não chegue aos pés deste: se por um lado apresenta o mesmo problema que comprometeu o terceiro filme, ao menos consegue avançar a série num caminho mais promissor. Pena que as boas ideias estejam sob o comando de uma direção tão burocrática.

(Crédito: Paramount/divulgação)
(Crédito: Paramount/divulgação)

Escrito por Laeta Kalogridis (Ilha do Medo) e Patrick Lussier (Fúria Sobre Rodas), Gênesis ignora deliberadamente as partes 3 e 4: John Connor não é morto pelo Exterminador visto em A Rebelião das Máquinas, e ele e Kyle Reese já se conhecem há um bom tempo, diferente do que foi visto em A Salvação. Ainda assim, de alguma forma o Julgamento Final aconteceu e as máquinas exterminaram a maior parte da humanidade. Chegando à máquina do tempo logo após a Skynet enviar o T-800 do filme original para matar Sarah Connor (Clarke), John (Clarke) espera até que Kyle Reese (Courtney) se voluntarie para salvá-la, já que depende disso para assegurar a própria existência. Ao chegar em 1984, no entanto, Kyle é surpreendido por uma Sarah treinada em combate por um Exterminador (Schwarzenegger) que a protege desde criança contra os ataques de um mortífero T-1000 de metal líquido (Lee). Percebendo que, durante sua viagem, encontrou memórias de um passado que não viveu, Kyle informa Sarah que o ataque da Skynet não se dará mais em 1997 (data original), mas em 2017, com a ativação do mega-SO Gênesis. Assim, Sarah e Kyle viajam para impedir que isso aconteça, mas encontram um inimigo inesperado – a menos que você não tenha assistido ao trailer ou visto qualquer cartaz, é claro.

(Crédito: Paramount/divulgação)
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O que, é preciso dizer, marca uma das mais burras campanhas de marketing dos últimos anos, já que a reviravolta principal tinha um potencial para subverter expectativas quase tão grande quando a promoção de Schwarzenegger de vilão a herói entre o primeiro e o segundo filme (algo que os trailers de O Julgamento Final também estragavam, vale dizer). E mesmo que Gênesis complique ainda mais a já complexa cronologia da série, os novos elementos introduzidos são bem mais interessantes do que aqueles vistos depois do segundo filme. Seguindo uma lógica parecida com a empregada em Star Trek e X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, Gênesis cria uma paradoxal sobreposição de linhas do tempo que proporciona um futuro novo e imprevisível para a franquia, recriando incidentes dos primeiros filmes (a chegada do T-800 programado para matar Sarah, a perseguição de Kyle numa loja de roupas) ao mesmo tempo em que os subverte. É verdade que em alguns momentos isso se torna difícil de acompanhar e que nem todas as perguntas são respondidas (quem, afinal, enviou o T-800 que protege Sarah? E como ele sabia onde o T-800 original apareceria? Por que a ativação da Skynet foi adiada em 20 anos?), mas o importante é que essa confusão temporal acontece em função do conhecimento da Skynet de seu repetido fracasso em matar John Connor, algo que parece impossível mesmo com a quantidade de Exterminadores enviados para a tarefa, o que os leva a mudar para uma estratégia mais perversa.

Se os aspectos de trama de Gênesis funcionam razoavelmente bem, o mesmo não pode ser dito do desenvolvimento dramático do filme, que é estéril: mesmo que Sarah tenha criado um forte apego ao T-800, vendo-o como uma figura paterna de forma parecida com que John viu o T-800 de O Julgamento Final, não vemos aquela dinâmica memorável – embora os diálogos entre Sarah, Kyle e o Exterminador tragam algo que fez muita falta em A Salvação: senso de humor. Outro problema é que há uma frieza latente na relação entre Sarah e Kyle que impede que o espectador se envolva no romance que ambos devem viver (algo que pode ser percebido quando Kyle é informado que deverá ser o pai de John). Além disso, os diálogos são bastante limitados, oscilando entre o meloso (a conversa inicial entre John e Kyle) e obviedades (o “Eu não preciso ser salva!” dito por Sarah chega a doer os ouvidos), apenas incluindo os característicos “Venha comigo se quiser viver” e “I’ll be back” para agradar aos fãs (além, claro, de um irônico comentário sobre a hiperconectividade apenas facilitar o massacre da Skynet).

(Crédito: Paramount/divulgação)
(Crédito: Paramount/divulgação)

Responsável por alguns episódios da série Game of Thrones e pelo fraquíssimo Thor: O Mundo Sombrio, Alan Taylor conduz a ação de Gênesis de forma absolutamente burocrática: chega a ser covardia comparar a nova invasão ao prédio da Cyberdyne àquela vista no segundo filme, posto que jamais chega a causar uma tensão semelhante. Além disso, a ação também é prejudicada pela assepsia visual do filme, bem distante da violência vivida por Kyle e Sarah no original (até mesmo uma luta entre dois Schwarzeneggers pouco impressiona!). E se Emilia Clarke (também conhecida por Game of Thrones) e Jai Courtney vivem seus icônicos personagens de forma apenas correta, Arnold Schwarzenegger não consegue recriar o mesmo impacto visto em suas duas primeiras aparições, mas continua a ter uma presença em cena eficaz em sua obstinada inexpressividade e comentários inapropriados. Por sua vez, Jason Clarke aproveita bem a chance apresentada pelo novo John Connor e assume a função de forma convincente. E se J.K. Simmons é desperdiçado com um personagem irrelevante (ainda que divertido) e Byung-hun Lee falha em recriar a presença assustadora de Robert Patrick como o T-1000, é lamentável ver Matt “11º Doutor” Smith relegado a um papel tão minúsculo quando mostra, em seus poucos minutos em cena, potencial para ser um vilão realmente temível.

Indo na direção contrária das partes 3 e 4 (quando a parte “ação” era claramente melhor que a “ficção científica”), Gênesis é um filme eficaz e com ocasionais momentos de tensão, mas continua bem abaixo do que foi estabelecido nos dois já clássicos de James Cameron. Aponta uma nova direção para a franquia que não é absolutamente descartável, mas bem que poderia encontrar nomes mais talentosos para desenvolvê-la. Por que Cameron não desiste de continuações de Avatar para assumir a tarefa?

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