Isabel Waquil (Foto: arquivo pessoal)
Isabel Waquil (Foto: arquivo pessoal)

A jornalista Isabel Waquil começou a se envolver com a temática da inserção das mulheres na arte contemporânea entre 2013 e 2014, quando, no Brasil, essa discussão recém ganhava corpo. Apesar de, muito antes disso, artistas promoverem iniciativas diversas que evidenciam questões de gênero, até aquele momento, eram escassas as pesquisas no país que problematizavam essas relações no circuito artístico. O caminho que Isabel seguiu para se adentrar nesse contexto, inserida em um projeto maior de debates sobre o assunto, foi inédito: realizar entrevistas com mulheres de diferentes profissões do sistema das artes, criando espaços de visibilidade para as suas falas.

Depois de entrevistar 17 mulheres brasileiras, e compilar uma parte das entrevistas no livro A Palavra Está com Elas, organizado por Lilian Maus, a jornalista rumou para o outro hemisfério. Foi para os Estados Unidos, e lá deu sequência às conversas através de uma imersão na A.I.R Gallery – a primeira galeria de Nova Iorque voltada apenas para mulheres. Realizou então outras 12 entrevistas que, unidas ao acervo das feitas no Brasil, se constituem em um rico acervo de relatos, trajetórias e opiniões. Hoje à noite (18/8), às 19h, Isabel dará uma palestra, com entrada franca, sobre suas experiências. O evento acontece no Espaço Empoderamento da Mulher de Porto Alegre (Rua Professor Duplan, 146).

Em entrevista para o Nonada, Isabel contou que acredita que, para que a inserção da mulher no campo das artes se dê de uma forma mais justa, é necessário não menosprezar o debate sobre a questão, fomentá-lo e mantê-lo em constante processo de reavaliação. Abaixo, leia sobre o mergulho da jornalista nas discussões de gênero, os seus projetos e pontos de vista.

A jornalista lançou um livro de entrevistas com artistas visuais
A jornalista lançou um livro de entrevistas com artistas visuais do Brasil

Nonada – Como começou o teu envolvimento com o tema das mulheres nas Artes Visuais?

Isabel – Começou através do meu trabalho no Atelier Subterrânea de Porto Alegre. Eu era jornalista do espaço, produzia conteúdos, textos de catálogos, etc. O Atelier funcionou durante nove anos, e fechou em março (de 2015). Esse espaço era gerido por cinco artistas. Uma delas é a Lilian Maus. A Lilian ganhou o “Prêmio Funarte Mulheres nas Artes Visuais”, e propôs um projeto, “Atelier como espaço de conversa”, com vários produtos artísticos que dialogavam com a questão da participação das mulheres nas artes. Um dos produtos é o livro de entrevistas A Palavra Está com Elas. Ela me convidou para escrever o livro, e para entrevistar mulheres de diferentes estados com atuações diversas. Não só artistas, mas também curadoras, gestoras. O objetivo era criar um espaço para dar visibilidade ao trabalho e às trajetórias dessas mulheres. O livro não é focado apenas na questão de gênero, mas mais nas histórias. Eu também pincelei assuntos de gênero e de política durante as entrevistas, buscando entender o que elas achavam da participação das mulheres nas Artes Visuais, e como elas sentiam esse cenário. Se elas consideravam a desigualdade de gênero como um problema resolvido ou não. Algumas dizem que é um problema que não atinge tanto as artes visuais, no sentido de que é uma questão da sociedade e não tanto da história da arte; algumas são mais feministas; algumas falam que a problemática está em todos os campos, e que a arte não é um campo separado dessa sociedade. Surgiu uma diversidade de opiniões.

Nonada – Como foi feita a seleção de entrevistadas para esse livro?

Isabel – A seleção foi feita por conhecermos o trabalho das entrevistadas e por sabermos que elas estavam desenvolvendo coisas interessantes. Não foi em função de elas serem feministas, até porque queríamos ter essa diversidade. Buscamos pessoas que achávamos que renderiam boas conversas, fazendo assim uma espécie de curadoria de entrevistas.

Nonada – Como se deu a transição do foco para o circuito artístico de Nova Iorque?

Isabel – Quando eu estava produzindo o livro, eu li sobre uma exposição chamada Conexus, que uma curadora brasileira e uma norte-americana propuseram só com artistas mulheres. Várias artistas que elas convidaram diziam que não queriam participar de uma exposição só de mulheres. Eu trouxe essa questão para algumas das entrevistadas, e algumas delas diziam que também não gostariam de ter o trabalho associado a uma mostra desse tipo. Eu fiquei intrigada com isso, e quando eu pesquisei instituições do exterior para enviar esse livro, já que ele é bilíngue português/inglês, eu conheci a galeria A.I.R Gallery. É uma cooperativa de artistas voltada só para mulheres, a primeira dos Estados Unidos desse gênero. Foi criada nos anos 1970, bem em meio ao movimento feminista. Nesse meio tempo, a gente criou um website para disponibilizar as entrevistas online, para que elas não ficassem só no livro. Então eu propus um projeto em um edital de intercâmbio (Conexão Cultura Brasil), que foi aprovado pelo Ministério da Cultura, para continuar essa pesquisa, e para abastecer essa plataforma com entrevistas realizadas lá em Nova Iorque.

Nonada – Como funciona a A.I.R Gallery?

Isabel – É uma galeria bem peculiar. Ela funciona como cooperativa no sentido de que tem membros que pagam mensalidades que sustentam o espaço. Isso faz com que ela se mantenha minimamente à parte das movimentações comerciais. Por exemplo, na crise em 2008, ela não foi tão afetada quanto outras galerias mais comerciais. A A.I.R tem um sistema de financiamento um pouco diferente. Porém, como Nova Iorque é uma cidade muito cara, isso não garante independência às mulheres vinculadas. Elas têm que buscar também outras formas de financiamento. Mas cada membro que paga uma devida cota tem direito a expor a cada mais ou menos dois anos. O espaço tem, além dessas exposições de integrantes da galeria, outros projetos abertos à comunidade, como programas de bolsas e exposições abertas para inscrições de pessoas de fora. Mas é importante reparar que, como é uma cooperativa, a A.I.R é vista dentro do circuito artístico de uma forma diversa. Se a gente fosse falar em uma hierarquia comercial, ela não seria comparável às galerias do Chelsea, ou às grandes galerias em geral. Ela está em outro nível. Por outro lado, se falarmos em uma hierarquia histórica ou política, ela é uma referência. Já foi escrita muita coisa sobre a galeria. Sempre que se fala sobre iniciativas de mulheres nas artes visuais nos EUA, ela é citada.

A.I.R é a primeira galeria-cooperativa de artistas femininas (Foto:  divulgação)
A.I.R é a primeira galeria-cooperativa de artistas femininas (Foto: divulgação)

Nonada – O que mudaste no método de entrevista nesse projeto em relação ao que vinhas adotando no Brasil?

Isabel – Eu quis enfocar mais a experiência das entrevistadas dentro da AI.R. No livro A Palavra Está com Elas, e nas entrevistas independentes que fiz, eu me centrei nas trajetórias. Nos Estados Unidos eu olhei para o papel de uma instituição, queria entendê-la. Estava bem curiosa em relação a isso. Por que, em 2015. ainda é importante ter uma instituição só de mulheres? Qual é o papel dessa instituição na carreira das artistas? Como elas sentem o preconceito? Então direcionei as conversas no sentido do envolvimento das mulheres com a organização e na percepção delas sobre o cenário artístico no que diz respeito às mulheres.

Nonada – As respostas das mulheres da A.I.R evidenciam muita variedade de opiniões? Ou elas se encontram em muitos pontos?

Isabel – Repeti várias perguntas porque eu queria mesmo perceber as diferenças e as similaridades nas respostas. Uma das questões que eu fiz é se elas acham que o mundo das artes é machista. Todas responderam que sim, e cada uma deu a sua versão do porquê. Uma justifica que o mercado ainda não reconhece as mulheres; outra traz alguma experiência de ter sofrido preconceito na faculdade… Enfim. Mesmo quando elas falam a mesma coisa, cada uma dá a sua perspectiva individual. Claro, isso seria em qualquer assunto, mas notei uma peculiaridade quando elas abordam o fato de ser uma organização exclusiva de mulheres, e são questionadas se isso não é excludente, se não provoca um tipo de gueto. Umas acham que é importante manter essa exclusividade, ter esse núcleo fechado, esse espaço de fortalecimento. Outras acreditam que isso faz com que elas sejam um pouco escanteadas, que elas não recebem o mesmo reconhecimento. Surgiram diferenças nesse sentido.

Nonada – O que reparastes, da tua experiência com as entrevistas, quanto às semelhanças e diferenças entre a situação da mulher no circuito artístico no Brasil e em Nova Iorque?

Isabel – É bem difícil comparar porque as propostas de entrevistas são diferentes. O livro que produzimos não selecionou exclusivamente mulheres feministas, e lá eu me inseri em uma organização que se autodenomina feminista. Por isso, quando o assunto do gênero é tocado nas entrevistas no Brasil, as mulheres não têm uma opinião tão taxativa e pontual. Talvez, se eu entrevistasse artistas feministas, que são muitas no nosso país, elas teriam opiniões mais concretas e menos diluídas sobre isso. Além disso, lá (nos Estados Unidos) se tem mais clareza quanto ao sexismo no mundo da arte. São produzidas mais estatísticas, e feitos mais estudos sobre a desigualdade de gênero nas artes visuais. Quando fizemos o livro, decidimos pelo formato da entrevista porque percebemos que não existia nada parecido no país. Tanto que a Lilian ganhou o Prêmio da Funarte em 2013, no que foi o primeiro edital do órgão para estimular o debate sobre as mulheres nas artes visuais. A discussão estava começando a disparar no Brasil nessa época. Ainda estou tateando nessas comparações, há várias coisas que ainda não estudei aprofundadamente, mas nos Estados Unidos eu senti que essa discussão já é bem avançada. Porém, o número de mulheres representadas em museus é baixíssimo lá. Se vê uma discriminação, pelo menos numérica, na representatividade de mulheres em galerias, em cargos diretivos de museus. No Brasil, eu não sei ao certo. Sei que estamos começando a discutir sobre isso. Mas é preciso reparar que temos umas coisas diferentes por aqui. Por exemplo, temos a Beatriz Milhazes, a Adriana Varejão, que são as artistas que mais vendem, as mais caras. São mulheres. Em São Paulo, muitas galeristas também são mulheres, e muitas galerias levam os nomes delas. Então os cenários artísticos são bem diversos.

Nonada – Comentaste que a escolha por fazer entrevistas se deu em função de vocês não terem localizado trabalhos anteriores desse tipo. Mas também existe uma questão simbólica ao afirmar que “a palavra está com elas”. Poderias falar um pouco sobe isso?

Isabel – Claro. Teve essa questão de dar visibilidade aos relatos delas. Não queríamos ouvi-las e depois, nós, escrevermos um artigo sobre o que elas estavam dizendo. Queríamos ter um espaço de construção das experiências. Essas entrevistas são um tanto afastadas da entrevista jornalística, pois são enviadas às entrevistadas antes de serem publicadas. As mulheres revisam, agregam, tiram e reconstroem o texto. A pessoa rever o relato, reconstruí-lo, assiná-lo, faz parte da construção da experiência, de dizer que aquela ali é a versão pessoal sobre aquele assunto. Tem mesmo uma carga muito simbólica na questão da fala, da voz.

Nonada– E como pretendes dar continuidade aos teus projetos dentro desse tema?

Isabel – Ainda não sei, mas quero continuar fazendo entrevistas. Agora, aqui em Porto Alegre, temos o primeiro ponto de cultura feminista do Brasil. Eu gostaria de entrevistar as gurias de lá. Também tenho vontade de conversar com as mulheres que fizeram parte do projeto Casa Grande, que também decorreu de um edital da Funarte, mas voltado a artistas negros. Aliás, isso tem a ver com um ponto que acho importante ser salientado, uma discussão que se encaixa também no feminismo. Das mulheres que entrevistei, 27 são brancas e 2 são negras. Todas têm nível superior completo. Temos aí uma questão classe social e econômica em evidência, que, claro, tem a ver com um contexto histórico maior. Eu gostaria de diversificar um pouco mais o leque de entrevistadas para não deixar essa discussão tão fechada em um círculo social. Em termos de continuidade, essa seriam algumas coisas que eu gostaria de desenvolver.

Todas as entrevistas realizadas por Isabel estão disponíveis no site https://mulheresnaartecontemporanea.wordpress.com.

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