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Os filmes de terror dos últimos 20 anos, principalmente os de maior distribuição e, consequentemente, maior investimento, não saem do óbvio: colocar o volume da trilha sonora no máximo, no exato momento em que deseja causar um susto. Se por um lado isso funciona, por outro percebe-se que a maioria não está preocupada em desenvolver um longa que, cena após cena, aumente o clima de tensão. São poucos os que realmente criam uma atmosfera de terror/medo, como é o caso de Corrente do Mal.

Dirigido e Roteirizado por David Robert Michell, o longa nos apresenta Jay Height (Maika Monroe), uma jovem de um subúrbio americano, que possui um grupo de amigos de infância, uma vida tranquila e está indecisa quanto ao seu relacionamento com o jovem Hugh (Jake Waery). Após a primeira transa, dentro do carro do rapaz, Hugh sequestra a moça e explica que passou para ela uma maldição, uma figura sobrenatural irá persegui-la incessantemente até conseguir matá-la. O único jeito de se livrar disso é transando com outra pessoa. Mas caso a vítima seguinte morra, a criatura volta a perseguir a pessoa anterior.

Um dos principais pontos do longa, que o difere da maioria dos filmes do gênero, está na montagem menos acelerada. Partindo do pressuposto de que apenas a personagem pode ver a “assombração”, essa linguagem permite que o diretor crie tensão e surpreenda o espectador em diversos momentos. Um exemplo que descreve esta técnica está na primeira cena do filme. Utilizando uma panorâmica, Mitchell mostra uma menina saindo de casa assustada e correndo até o meio da rua, onde fica parada por alguns segundos, para, em seguida, correr de volta à casa e fugir com o carro. Em nenhum momento vemos o que a personagem está vendo, apenas prestamos atenção nos seus movimentos e na sua expressão facial.

Ao invés de planos rápidos e óbvios, o diretor investe, ao longo da projeção, em quadros abertos – que revelam toda e qualquer pessoa ao longe que pode representar um perigo, extraindo tensão praticamente a todo segundo. Tendo isso em vista, o diretor sabe utilizar a misce-en-cene e faz com que o público se concentre naquilo que ele considera fundamental para a história, utilizando o posicionamento dos atores, seus movimentos, o diálogo, a fotografia, entre outros elementos. Dessa forma, o diretor pode inserir elementos secundários que vão surpreender o espectador, como a morte chegando vagarosamente pelo fundo do quadro. Porém, o recurso técnico não é utilizado de forma aleatória, ele desempenha funções narrativas claras: transforma o espectador em um dos personagens do filme – na maior parte do tempo vemos o que Jay está vendo, mas em algumas cenas, passamos a ver através da perspectiva de seus amigos.

Mike Gioulakis, diretor de fotografia, tendo conhecimento dos planos abertos utilizados no filme, investe em pontos de luz mais focados, para atrair a atenção do espectador no elemento mais importante da cena, como por exemplo, um foco de luz no casal no meio do cinema, ou com uma menina sentada na areia sendo iluminada apenas com as luzes do farol do carro. Além disso, Gioulakis utiliza as cores para expressar os sentimentos dos personagens, seja com lâmpadas de cores vermelhas ou mudando a paleta do filme para uma cor mais fria, como a cena em que Jay está no hospital.

Outro fator importante para que esse ambiente funcione é a trilha sonora. Composta por Rich Vreeland (mais conhecido como Disasterpeace), a trilha desempenha uma função diferente dos habituais filmes do gênero. No lugar de ser utilizado como um recurso para dar susto no espectador, Mitchell insere a trilha sonora como um adicional na construção de tensão ao longo da projeção. Além disso, Vreeland mistura elementos que relembram os filmes de terror da década de 1980 com sons mais voltados para eletrônico, um deles por sinal é semelhante a trilha na célebre cena de Psicose.

Quanto ao enredo, Mitchell constrói uma história que se desenvolve de forma consistente, sem se preocupar em responder questões desnecessárias ou com diálogos expositivos. Além do mais, o filme nos apresenta muito pouco sobre os personagens e suas personalidades. Isso contribui para que o filme se foque no que é realmente importante na trama, o envolvimento de Paul por Jay, logo nos primeiros minutos de cena. Percebemos que o personagem sente algo por ela e aos poucos descobrimos o porquê, mas de forma sutil.

O fato de não explicar quem é a criatura sobrenatural, de onde veio e porque ela faz, ajuda a criar uma metáfora do vilão como a morte em si, que nos persegue diariamente. E o fato de ela apenas caminhar em direção da vítima, se por um lado soa como uma “brincadeira” a respeito dos vilões desse gênero de filme, por outro ajuda a aumentar o clima de aflição do filme, já que ele vai lentamente até a personagem e consegue chegar cada vez mais perto. 

A Corrente do Mal é, definitivamente, um dos melhores filmes de terror do ano e David Robert Mitchell se mostra um diretor promissor, que sabe utilizar os elementos da misce-en-cene de forma a compor a história e alcançar o objetivo desejado: medo e aflição. Dessa forma, ele faz com que o elespectador saia do cinema ainda imerso naquele universo.

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