Espetáculo Toda Criança que fui é uma das atrações (Foto: Paulo Fantinelli/divulgação)
Espetáculo Toda Criança que Fui foi uma das atrações do Festival (Foto: Paulo Fantinelli/divulgação)

Texto Giulia Barão

Em Porto Alegre o mundo das artes divide opiniões entre os que acusam a cidade de provinciana e lamentam o que julgam ser um modesto cenário cultural, e os que agradecem e celebram as iniciativas locais, ainda que idealizem um universo mágico onde tudo giraria em torno do sol das artes. Estou com o segundo grupo: Porto Alegre se esforça para manter ativo o setor cultural, num país em que ele é historicamente considerado de importância secundária. Isso é articulado por uma rede que vai além do poder público e do capital empresarial, passando por financiamento coletivo, parcerias entre grupos autônomos, artistas que usam a rua como lugar de ação e resistência e projetos heroicos de artistas que pagam para trabalhar.

O que leva a considerar que nosso maior problema não é a carência de projetos e ações culturais, mas o engajamento do público. Não poucas vezes ouvi amigos artistas reclamando de teatros vazios ou ocupados pelos rostos de sempre – geralmente outros artistas. Onde está o público não especializado? Como engajá-lo na programação cultural local? São perguntas que mobilizam conferências, conversas de bar, teses de doutorado e iniciativas como a do Festival de Inverno Experimenta Teatro, com produção da Cômica Cultural, no centro cultural do Instituto Ling.

Segundo Catharina Conte, atriz e produtora da Cômica, o Festival deseja insistir sobre o aspecto de socialização e fruição da arte dramática. A ideia não é desmerecer a dimensão intelectual da recepção artística, ou a noção de que quanto mais capital simbólico – acumulado de referências culturais prévias – mais ampla é a experiência com a obra de arte. Mas assumir o teatro também como possibilidade de lazer, entretenimento, programa familiar. (Prevejo discussões acaloradas.) Por que em vez de um happy-hour com os amigos ou uma janta com os colegas de trabalho, não os convidar para ir ao teatro?

Com isso em mente, os idealizadores do Festival, que iniciou em 10 de julho e segue até 30 de agosto, promovem bate-papos na última sessão de cada peça, convidando o público a se manifestar sobre a obra. Além disso, estabeleceram uma parceria com a vinícola Salton, que serve degustação de vinhos na estreia ou na sessão comentada, a fim de gerar um espaço de socialização posterior ao espetáculo.

Como sobreviver ao fim do mundo segue em cartaz (Foto: Adriana Marchiori/divulgação)
Como sobreviver ao fim do mundo segue em cartaz (Foto: Adriana Marchiori/divulgação)

Vale acrescentar que o Festival de Inverno Experimenta Teatro é a primeira edição do projeto de mesmo nome que deseja levar as artes cênicas a lugares ainda não costumeiros para o cenário local, procurando mobilizar outros públicos, ao mesmo tempo em que convida a repensar o teatro como modalidade de sair-para-fazer-algo-legal. Começar pelo Instituto Ling tem a ver com essa proposta – inaugurado em 2014, o centro cultural, que conta com galeria, salas de aula, auditório, salão multiuso e laboratório gastronômico, ainda está subaproveitado. Isto é, sobram horários disponíveis na agenda desses espaços. O auditório, por exemplo, recebeu a primeira peça de teatro no verão deste ano. Como Sobreviver ao fim do Mundo, monólogo interpretado por Catharina Conte e dirigido por Kevin Brezolin, abriu as portas para o uso do local como arena teatral, iniciativa que agora tem continuidade no Festival de Inverno.

Das cinco peças que compõem o Experimenta, o público ainda pode conferir Como Sobreviver ao Fim do Mundo, com temporada que iniciou sexta-feira passada e segue nos dias 21, 22 e 23 de agosto; e Beckett e Bion – O gêmeo imaginário, com apresentações no último fim de semana do mês – 28, 29 e 30/08.

Acompanhei a estreia de Como Sobreviver… no dia 14 e tive a oportunidade de conversar com a equipe da peça durante a degustação de vinhos. Programa completo. Sobre o espetáculo: é baseado nos textos da escritora e performer estadunidense, Miranda July, e do diretor, Kevin. Retrata uma jovem que vive esperando que algo de emocionante aconteça em sua vida. O antídoto para essa espera sem resposta seria viver como se o mundo acabasse ao fim de cada dia, como se não houvesse tempo para perder em coisas banais. E, no entanto, a banalidade da vida – o emprego, os falsos amores, as contas do banco – governa o cotidiano com mão de ferro. Entre o peso do hábito, da finitude, da resignação e a esperança de algo sublime, sobrevivemos ao fim do mundo diariamente. Destaco a interpretação corajosa de Catharina, que sustenta o texto sozinha durante cinquenta minutos, levando-nos do riso à emoção, alternados sobre um estado constante de angústia. E também o cuidadoso trabalho de cenografia, cujos recursos audiovisuais ampliam a dimensão metalinguística da obra, que se constrói à medida em que a personagem escreve em seu notebook, fala no microfone, diretamente ao público ou consigo mesma. Em vídeo ou som, as projeções da personagem acentuam a sensação de limiar entre real e imaginário e ideal e banal, que permeiam a encenação.

Beckett e Bion – O Gêmeo Imaginário volta a cartaz com novidades. Segundo o diretor, Julio Conte, o texto sofreu alterações que o tornam mais coloquial e bem-humorado. O argumento da peça é a relação entre o dramaturgo Samuel Beckett e o psicanalista Wilfred Bion, cujo encontro teria sido definidor para o desenvolvimento da obra madura de ambos.

Para terminar, um pouco de praticidade. O Instituto Ling fica na Rua João Caetano, 440, Bairro Três Figueiras. Dá para chegar lá com quase todos os ônibus que sobem a Avenida Carlos Gomes. Os ingressos para o Experimenta são R$ 30,00, com desconto de 50% para estudantes, maiores de 60 e classe artística. Ingressos antecipados na página do Ling: http://www.institutoling.org.br/index.php/programac-o-cultural/artes-cenicas.html.

 

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