Alegoria distópica de Joon-ho Bong enfrenta problemas em seu desenvolvimento (Crédito: divulgação)
Alegoria distópica de Joon-ho Bong enfrenta problemas em seu desenvolvimento (Crédito: divulgação)

Expresso do Amanhã (Snowpiercer, Coreia do Sul/República Tcheca/EUA/França, 2013)

Diretor: Joon-ho Bong

Roteiro: Joon-ho Bong e Kelly Masterson, baseado em graphic novel de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette.

Com: Chris Evans, Tilda Swinton, Kang-ho Song, Ah-sung Ko, Jamie Bell, Octavia Spencer, Ed Harris, John Hurt, Ewen Bremner, Alison Pill.

Texto Júlia Manzano

Filmes de catástrofes ambientais apresentam-se, em muitos casos, como um medo plausível no mundo industrializado e consciente do mal que causa. O novo filme de Joon-ho Bong, inspirado na história em quadrinhos francesa Le Transperceneige, Expresso do Amanhã, chega com uma premissa original. Para combater o aquecimento global, um gás foi lançado na atmosfera com a intenção de resfriar o planeta para que suas temperaturas voltassem a ser agradáveis. Porém, como consequência, a Terra congela e extingue a vida. Todos os sobreviventes são alocados em um trem autossustentável que nunca para, dando constantes voltas em mais de 400 mil quilômetros de trilhos. Devido às desigualdades sociais dentro do meio de transporte, um grupo liderado por Curtis (Chris Evans) decide tomar o vagão do condutor do veículo, que vive em um rico grupo que habita a parte dianteira do trem.

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O transporte se transforma em uma alegoria da Terra antes da catástrofe: as pessoas estão divididas conforme o bilhete que compraram, ou seja, economicamente. Aliás, tal fato é lembrado o tempo inteiro. Constantemente, personagens repetem frases sobre o “lugar das coisas” como uma referência que inicialmente é interessante, mas torna-se repetitiva ao longo da projeção. Sim, o público logo entende (e rápido) que há uma séria e terrível separação de classes dentro dos vagões, e o longa insiste reforçar isso diversas vezes, especialmente em um óbvio monólogo feito por Wilford (Ed Harris) durante o terceiro ato. Ainda assim, há sutileza em outro momentos, como quando Curtis descobre do que é feita a barra de proteína da qual a população desprivilegiada se alimenta. O horror e o sentimento de injustiça que perpassam o personagem no momento expressam de forma muito mais intensa (do que frases prontas) a necessidade de mudança latente naquele ambiente: algo precisa ser feito.

Porém, o propósito da revolução que move o filme não fica exatamente claro. Eles queriam tomar o vagão principal e socializar os bens? Abrir o trem? Continuar na mesma ordem? Matar o condutor? Enquanto em outros filmes futurísticos e/ou com realidades alternativas, como Mad Max: Estrada da Fúria e até mesmo os irregulares Jogos Vorazes (nos quais o controle dos meios de subsistência por uma pequena parcela da população aparece) os planos dos rebeldes costumam ficar claros e a condução do próprio filme tem sentido (já que o espectador sabe pelo que deve esperar), em Expresso do Amanhã, essa direção é bem menos óbvia.

Há alguns méritos. Chris Evans compõe um líder carismático e levemente inseguro, constantemente preocupado com seu povo mas também capaz de sacrifícios para levar a revolta até o final. Tilda Swinton está excelente como Mason, uma espécie de coordenadora. Sua fé no sistema do trem é tão cega que se pode perceber que ela está realmente convencida de que a forma como as coisas estão está certa. Para ela, as pessoas ali deveriam ser gratas ao abrigo, fazendo uma óbvia relação com muitas relações trabalhistas de exploração onde, por um salário baixíssimo, o discurso patronal determina que o trabalhador deveria ser grato apenas por estar empregado. Octavia Spencer entrega-se bastante enquanto Tanya e compõe uma atuação regular. Já Wilford, interpretado por Ed Harris, é clichê e decepcionante enquanto vilão. O longa é bem sucedido ao associar o amor que os habitantes do trem tem por ele à magnitude da máquina que os salva do planeta congelado, mas ainda assim, Wilford não aparenta ser nada mais do que uma leve ameaça. A quantidade de personagens também torna-se problemática no longa, por nem sempre integrá-los de forma orgânica. Temos muitos líderes, o típico “entendedor da tecnologia local”, um amigo sidekick esquecível, um personagem que encara o clichê do fortão misterioso, e outros aos quais nos apegamos e são banalmente descartados. E também uma menina capaz de prever o futuro. Afinal, qual exatamente a função de ter uma vidente no grupo e não explorar esse fato? Nenhuma de suas visões auxilia nas ações da revolução, e colocar tal “dom” aleatoriamente no filme parece parte de um roteiro preguiçoso que usa a questão deslocada da trama, apenas como uma solução fácil para resolver os rapidamente conflitos que aparecem na tela.

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Também há certos dramas que não fazem sentido. Em um momento, Curtis comenta que, devido à grande fome, as pessoas começaram a comer os moradores mais fracos do trem. Tal fato já é suficiente para que nos arrepiemos de terror e piedade daquela situação. Porém, o personagem continua completando que, além disso, as pessoas começaram a cortar seus braços e pernas para oferecer às pessoas famintas. Com um óbvio desejo de tornar aquele relato ainda pior, o filme o torna tão absurdo que é impossível acreditar que uma realidade digna de Jogos Mortais (estamos falando de cortar o PRÓPRIO BRAÇO OU A PRÓPRIA PERNA) iria voluntariamente acontecer em massa dentro de um trem, mesmo em um momento extremamente sui generis. Já as sequências de ação costumam ser empolgantes, mesmo que não se perceba exatamente o seu propósito. Particularmente, o combate que se passa no escuro é triste e desesperador, por mostrar a grande vulnerabilidade dos revoltosos perante os mais ricos (e equipados para aquele tipo de situação).

Em questões visuais o filme não também peca. A direção de arte de Stefan Kovacik é certeira, criando um ar de total miséria na parte pobre do trem em contraste com o hedonismo da parte rica, que mistura diversas épocas. Há um salão de chá estilo década de 20, um salão de beleza igual aos clássicos dos anos 50 e uma festa decorada como se fosse os 80, mostrando a incoerência da vida dos ricos. A fotografia é habilidosa pois consegue fazer com que todo o filme se passe dentro de um trem sem soar claustrofóbico ou cansativo. A mise en scène é bem pensado quanto ao estreito espaço ali disponível.

Com um atraso no lançamento de dois anos (o filme já esteve até mesmo no serviço de streaming Netflix por um curto período de tempo), Expresso do Amanhã é, no final das contas, uma experiência frustrante. Com uma boa ideia, um bom elenco e um bom orçamento, a produção desperdiça o que poderia ser um interessante filme de futuro apocalíptico com uma bagunça em tela. Uma bagunça que às vezes empolga, assusta e até emociona. Mas, no geral, cansa.

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