O mergulho de Emicida na cultura africana e as lições de seu novo álbum

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Empoderamento dos negros foi o tema de Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (Foto: José de Holanda/divulgação)

Texto Bruno Teixeira

Combinação explosiva:/mente subversiva/mas cor de madrugada. O verso da música 8, segunda faixa do novo álbum do rapper Emicida, lançado no último dia 7, sintetiza a mensagem que está por vir nas canções seguintes. Emicida mostra em Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa porque é um artista necessário na música brasileira. O disco traz o racismo como tema central, além de um intenso mergulho na cultura afro, mensagens contra o machismo e a crescente onda conservadora e de desinformação em nosso país.

Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa contém um universo com as mais variadas referências. Da literatura do angolano José Eduardo Agualusa ao vilão das histórias em quadrinhos da Marvel, Doutor Destino, passando por Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, até chegar ao cineasta norte-americano, Martin Scorsese. A cada nova audição, o ouvinte pode perceber um novo elemento que lhe levará a imaginar o cenário descrito pelas rimas do autor.

Ao contrário do que muitos podiam prever, seu segundo álbum de estúdio não carrega apenas a sonoridade pesada de “Boa Esperança” em todas as faixas. Em alguns casos, versos carregados de ceticismos são acompanhados  por instrumentais lúdicos, relação que pode ser compreendida pelo processo de criação do disco. Com o apoio do projeto Natura Musical, Emicida viajou para as cidades de Luanda, em Angola, e Praia, em Cabo Verde, onde gravou com músicos e instrumentistas locais a maior parte do álbum. As experiências foram relatadas na música “Mufete”, que exalta o continente africano, especialmente as duas nações. A canção traduz a felicidade de alguém que finalmente encontrou suas raízes e desenvolveu laços com pessoas que eram desconhecidas, mas que lhe trataram como irmão. Vale lembrar que no século XVII, a Coroa Portuguesa traficou habitantes de Cabo Verde para serem escravizados no estado do Maranhão. No século seguinte, o processo se repetiu em Angola, dessa vez com destino a Salvador. A proibição efetiva do tráfico de escravos para o Brasil ocorreu somente em 1850, o que não impediu que continuasse de forma clandestina, já que a abolição ocorreria somente em 1888.

Deste modo, é possível observar que a crítica social está presente mesmo nas músicas com instrumentais lúdicos, como ocorre na canção “Casa”. Nela, o artista retrata o mundo como uma selva de pedra, algo presente na poesia do rap desde a sua origem, um lugar de guerra e de medo, onde se segue o próprio instinto. Entretanto, a tensão trazida pela letra logo é quebrada com um coral de crianças que canta: O céu é meu pai/ a terra é minha mãe/ e o mundo inteiro é a minha casa. A dualidade entre tensão e alegria, combinado ao toque de berimbau que dá ritmo à base, dão um tom de esperança à canção, como se ele dissesse ao ouvinte que é sempre melhor enfrentar os problemas com otimismo.

Essa relação também permitiu ao rapper elevar a sua capacidade de transitar entre o underground e o mainstream sem perder a qualidade em nenhum dos dois lados. Em O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013), Emicida já havia misturado suas rimas ao rock da cantora Pitty. Agora, ele explora a música pop em “Passarinhos”, single que conta com a participação de Vanessa da Mata. Novamente, como no primeiro álbum, quando gravou com Tulipa Ruiz, o artista aproxima seu rap da MPB nas faixas “Noites de Madagascar” e “Baiana” canção que conta com a colaboração de Caetano Veloso.

Mas é impossível falar sobre as músicas colaborativas sem mencionar “Mandume”. A 12ª faixa do álbum é simplesmente uma sessão de rimas na qual Emicida abre espaço para que Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam e Raphão Alaafin coloquem suas principais ideias e protestos em prática. Este é um dos pontos altos do disco, principalmente pelo discurso de Drik Barbosa como feminista negra. Em 2013, diversos grupos feministas denunciaram versos machistas na música “Trepadeira”, também de O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui. Emicida publicou em seu facebook uma carta aberta pedindo desculpas e explicou que não teve a intenção de ser machista, pois ele mesmo, em 2010, já havia lançado as músicas “Rua Augusta” e “Vacilão” contrárias à objetificação da mulher. De acordo com o músico, “Trepadeira” foi inspirada nos sambas de “dor de cotovelo”, escritos por Lupicínio Rodrigues.

O debate parece ter contribuído com o trabalho do rapper, pois o repúdio ao machismo voltou a aparecer em “Bonjour”, música lançada no início deste ano, em seu discurso na virada cultural e neste álbum. No entanto, o que realmente valida sua posição é o fato de Drik ser a representante do feminismo ao invés do próprio músico tomar para si um lugar de fala em que ele não é o real protagonista.

Esta não é a única grande mensagem de “Mandume”, afinal são um pouco mais de oito minutos de rimas. Também há espaço para críticas à redução da maioridade penal e à “revolução tucana” do “hip-hop reaça” possivelmente uma resposta a um grupo de rappers que gravou, em abril, um vídeo promovido pelo movimento Vem Pra Rua. Eles fizeram uma roda de rima em apoio às manifestações que pediam o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

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A viagem para os países africanos fez o rapper conhecer melhor suas origens (Foto: José de Holanda/divulgação)

O discurso de ódio e a consequente generalização de opiniões sobre diversos temas que deveriam ser discutidos de forma aprofundada pela sociedade, nos quais o preconceito racial está incluído, são expostos na música “8”. Nesta faixa, o rapper retrata uma sociedade movida pelo consumo na qual a falta de leitura (Machado de Assis) ou o desconhecimento das raízes africanas (machado de Xangô) resultam na sobra de batidas dos martelos dos juízes. Em um país de “igrejas” brancas/construído com o sangue indígena e o suor negro/onde se quer que as crianças respeitem os professores/que são espancados pela polícia. Emicida lamenta o fato de que, na “Era da Informação”, a burrice e a ignorância estejam dando as cartas. Vamos se informar/acalmar o jogo e entender o que está acontecendo ao nosso redor, avisa.

“8” segue os moldes de “Boa Esperança”, seja pelas bases fortes, seja pela rima direta e categórica. Logo que foi lançada, a música impressionou pela veemência com que o rapper denuncia o sistema racista e opressor. Semanas depois, o vídeo clipe da música causou mais espanto ainda ao retratar a luta de classes em um enredo onde negras e negros, empregados da casa de uma família branca e rica, sofrem com os tratamentos e abusos, incluindo o assédio sexual de seus patrões. Cansados de sofrer, os empregados iniciam uma rebelião e tomam o lugar de seus patrões. A faixa agradou a muitos fãs, mas despertou a raiva de um integrante da chamada “nova direita”, que disparou contra Emicida e lhe chamou de oportunista por ganhar dinheiro incentivando o ódio entre negros e brancos. Porém, o roteiro do clipe foi escrito com base no relato de experiências vividas por empregadas domésticas, incluindo a mãe de Emicida Dona Jacira.

À Dona Jacira, Emicida presta uma emocionante homenagem na música “Mãe”, faixa de abertura do disco. Nela, ele enaltece a força de uma mulher que precisou dividir-se entre o trabalho como empregada doméstica e a criação dos filhos. A figura de Jacira se torna a de tantas outras mulheres e é confrontada frente a imagem frágil do próprio autor, que se recorda da pobreza, das dúvidas, conflitos, depressões, rebeldias e escolhas vividas durante sua infância e adolescência. Após algumas desilusões, ele passa a reconhecer as batalhas enfrentadas por sua mãe, agradece por suas qualidades, defeitos e encontra a redenção ao descobrir que deus na verdade é uma mulher negra.

Também há espaço para um diálogo lúdico com as crianças. “Amoras” é um poema no qual Emicida explica à sua filha o que é ser negra. Utilizando a figura da fruta, que quando negra é mais doce e se destaca no alto do pomar, ele faz com que a menina se sinta valorizada e comemore a cor de sua pele.

Em 2010, na música “Só Mais Uma Noite”, Emicida refletia sobre já não saber se havia se tornado justamente o que abominava no tempo em que ninguém lhe escutava. Sobre Crianças, Quadris Pesadelos e Lições de Casa prova que isso não aconteceu, pois mesmo com uma mensagem abrangente, o rapper vai na contramão do discurso reacionário que vem dando certo para muitos artistas. Outro diferencial é que em um período no qual grande parte dos rappers brasileiros são sensivelmente influenciados pelas bases e versos repetitivos trap norte-americano (vertente musical baseada no estilo de vida dos Gangsta rappers da cidade de Atlanta, na Georgia). Emicida foi em busca de nossas raízes africanas, fortalecendo sua musicalidade, sua poesia, transformando sua obra em inquietude em meio ao conservadorismo e sensatez em meio à confusão.

Ouça todo álbum Sobre Crianças, Quadris Pesadelos e Lições de Casa:

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