(Crédito: divulgação)
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Que Horas Ela Volta? (Idem, Brasil, 2015)

Direção e roteiro: Anna Muylaert

Com: Regina Casé, Karine Telles, Camila Márdila, Michel Joelsas, Lourenço Mutarelli, Helena Albargaria, Luis Miranda, Theo Werneck.

No clipe “Boa Esperança” de Emicida, o(a)s empregadas(os) de uma família rica se revoltam, devido à recorrente violência moral a que são submetidos, e se revoltam. Muitos poderiam achar isso inaceitável. Mas o que eles fazem no clipe é apenas revidar pelo que há séculos são obrigados a aguentar. No filme Que Horas Ela Volta? , a violência sofrida por eles, igualmente agressiva, é um soco na estômago da sociedade.

O filme gira em torno de três mulheres. Val (Casé) é uma nordestina que decide deixar sua filha Jéssica (Márdila) aos cuidados de parentes e se mudar para trabalhar como babá numa família de classe média alta em São Paulo. Bárbara (Teles) é a matriarca da casa, uma mulher bem sucedida que mantém uma relação distante com o filho Fabinho (Joelsas) e o marido Carlos (Mutarelli). A rotina de todos é alterada quando Jéssica decide ir a São Paulo para prestar vestibular em uma das faculdades mais conceituadas da capital e passa a morar no local de trabalho da mãe.

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Ao escolher uma atriz/ator para um filme, é importante que o profissional se encaixe no perfil do personagem, o que colabora para que público tenha empatia pelo protagonista e mergulhe na história. Isso faz com que um dos principais destaques de Que Horas Ela Volta? seja Val e, consequentemente, Regina Casé – que dividiu o prêmio de melhor atriz com Camila Márdila no Festival de Sundance. A atriz, ao longo dos anos, já mostrou ser uma pessoa simples e que não deixou as origens, o que faz com que o público acredite no que está vendo. Val possui um olhar e semblante cansado, revelando que a vida tem sido cruel e que a distância da filha ainda a afeta. “Há quanto tempo nóiz se fode e tem que rir depois” já diria Emicida em Boa Esperança.

Mas se Val não conseguiu exercer o papel de mãe diante da única filha, em contrapartida, ela criou um vínculo muito grande com Fabinho. A relação dos dois é um reflexo de como as famílias de classe média estão estruturadas. Os pais têm condições de pagar uma babá/doméstica em tempo integral, dessa forma, é possível que eles continuem exercendo suas profissões e dando o melhor para o filho. Mas o que eles não percebem é que, ao escolher esse caminho, quem acaba exercendo a figura de mãe/pai é a babá/doméstica, por passar o maior tempo com a criança. É ela quem cuida, prepara a comida e a alimenta, dá o banho, coloca na cama e dá os castigos, mesmo sendo os pais que ditam as regras do que deve ou não ser feito. E é exatamente isso que acontece com Val e Fabinho. O jovem possui mais intimidade com a empregada – tendo liberdade para falar sobre relacionamento, sexo e até revelar que usa maconha – do que com os pais. É em Val que ele encontra o conforto.

Porém, apesar da ótima relação dos dois e da família tratá-la com muito carinho e respeito, existe uma linha muito tênue entre ser a empregada e ser membro da família – como eles afirmam. Não é por acaso que, logo depois de Val falar alguma coisa ou receber um elogio, os chefes dão uma ordem a ela. É a maneira deles diminuírem a pessoa, demonstrando como os elogios e a liberdade de se expressar estão em segundo plano. E não é somente a família que trata Val dessa forma. Mas a sociedade toda. Em determinado momento, a protagonista trabalha como garçonete dos amigos de Dona Bárbara. Estes nem sequer olham para ela ou agradecem pelo seu serviço. Esse é o reflexo de como tratamos as pessoas que exercem profissões de pouco prestígio na sociedade. Com desdém.

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Além de todas essas lâminas que Que Horas Ela Volta? possui, o filme conta com uma fotografia linda e enquadramentos que ajudam ao espectador a entender a realidade vivida por Val – uma em particular, é quando vemos de dentro da cozinha, pela porta aberta,  um dos familiares sentado na mesa. Assim como Fábio Porchat, em Entre Abelhas, essas pessoas são invisíveis para a sociedade. Mas ao contrário de Porchat que deixa de ver as pessoas por uma força maior, essa parcela da sociedade é invisível por causa do sistema em que vivemos e porque muitos querem fechar os olhos para a realidade. Preferem exclui-la, pois assim é mais fácil viver, é mais conveniente.

Essa estrutura muda com a chegada de Jéssica. Uma garota que acredita que não é pior do que os chefes da mãe, e muito menos melhor do que eles, é apenas igual a todos. Para ela, pertencer a uma classe social não é sinônimo de tratar alguém com mais respeito nem instrumento para desrespeitar ninguém. A personalidade forte e “rebelde” da jovem deixa Val assustada, Bárbara nervosa, Carlos encantado e Fabinho confuso. Além de quebrar os estereótipos que a família acredita e dissemina, Jéssica ajuda a revelar a personalidade de cada um dos familiares, que antes estava sob os panos, escondida em uma propaganda de margarina. Bárbara, com uma atuação fantástica de Karine, revela-se uma mulher completamente preconceituosa e infeliz. Bárbara não gosta que Jéssica fique no quarto dos hóspedes, ou que se sente na mesa junto com os familiares ou que nade na piscina com o filho. Para ela, a moça deve ficar no mesmo lugar que a mãe: no quarto dos fundos.

Com subtramas que se desenvolvem com fluidez e de forma eficaz, é a relaçao de mãe e filha que prende a atenção do público. Seja pela diferença de personalidade ou por causa da dificuldade que as duas enfrentam em criar um vínculo afetivo, mais pela resistência da filha do que da mãe. E Val sabe que, mesmo essa situação a incomodando, isso é conseqüência dos anos que esteve longe de Jéssica. E com a chegada da jovem, Val começa a analisar todos os anos de esforço e humilhação que teve que se submeter para poder sustentar a filha a distância, deixando de lado sua própria auto-estima. E vendo tudo isso, é impossível não se emocionar com o momento de libertação de Val, um dos momentos mais lindos do filme.

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