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Performance também é marcante visualmente, com a presença de um dançarino pra lá de assustador

Fotos: Fernando Halal

“Quanto vale o show?”, pergunta Mano Brown em uma das melhores faixas de Cores & Valores, o novo álbum de estúdio dos Racionais MC’s, lançado no ano passado. Entre os fãs mais radicais, há um sentimento de traição, de que o grupo se entregou ao comercialismo. Para eles, o show vale muito pouco, ou simplesmente nada.

Porém, para a multidão que encarou um sábado de intempéries e engarrafamentos até o Pepsi On Stage, em Porto Alegre, o show valeu cada centavo. A quase lotação de um espaço com capacidade para mais de 5 mil pessoas é uma prova de que os Racionais ainda são a maior potência do rap nacional, tanto entre os manos da periferia quanto entre os playboys do asfalto.

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Mano Brown dá seu recado no palco do Pepsi On Stage

A noite foi longa. Com várias atrações convidadas (DJ Milkshake, Afrocalipse, Dany Alves MC e Rael), a entrada de Brown, Ice Blue, Edi Rock e DJ KL Jay no palco só ocorreu depois das duas e meia da manhã. O atraso, porém, não diminuiu em nada o entusiasmo do público, ansioso para conferir a apresentação do novo disco.

O impacto visual pode não ser tão importante quanto o sonoro, mas chega perto. A iluminação poderosa, as cores fortes e a presença de um ameaçador palhaço-arlequim-presidiário-dançarino envolvem a multidão, enquanto o quarteto vai ocupando todos os cantos do palco, compartilhado com outros MCs e DJs.

Cores & Valores é curto e suave, quase o oposto de clássicos como Sobrevivendo No Inferno (1997), com faixas como “Capítulo Quatro, Versículo Três” e “Diário de Um Detento”, longas e densas – ambas, infelizmente, fora do setlist. Porém, verdade seja dita: o novo repertório dá uma dinâmica interessante ao show. Racismo, tráfico de drogas, violência policial, exclusão social, luta de classes.  O discurso dos caras não arrefeceu, apenas foi diluído em formatos diferentes, que remetem ao novo hip-hop americano e a gêneros mais tradicionais, como o soul e o r&b.

Praticamente sem conversa, o grupo emenda a nova “Você me Deve”, “A Mente do Vilão” e “Da Ponte pra Cá”. E, quando a autobiográfica “Negro Drama” explode nos alto-falantes, até mesmo os fãs mais desconfiados entregam os pontos.

Obviamente, o público vai à loucura mesmo é nos clássicos, como as duas partes de “Vida Loka”, “A Vida É Desafio”, “Jesus Chorou”, “Expresso da Meia-noite” e “Fórmula Mágica da Paz”. Só que há todo um repertório novo à disposição, e os Racionais fazem questão de apresentá-lo quase na íntegra. As vinhetas “Cores e Valores” funcionam bem, ajudando, inclusive na intensa movimentação em cima do palco.

Apesar de Brown ser a figura mais notória do grupo, todos têm seu momento. Um dos mais curiosos é protagonizado por Edi Rock, na melódica “O Mal e O Bem”, parceria com Don Pixote muito distante de qualquer coisa que os Racionais tenham feito no passado, mas, ao mesmo tempo, repleta de referências à história do grupo. O single “Quanto Vale o Show” é ovacionado à simples menção da intro de “Gonna Fly Now”, trilha sonora do filme Rocky, e parece ser daquelas músicas que, findada a turnê, sobreviverão ao setlist.

Na controversa “Eu Compro”, o grupo cita a frase “Fique rico ou morra tentando”, do rapper americano 50 Cent. A faixa incomodou os fãs por parecer o oposto do que prega “Vida Loka II” (em que Brown diz que “pobre é o diabo, eu odeio a ostentação”). Com garrafas de champanhe no palco, os quatro racionais mostram lidar bem com as críticas de quem não entendeu a ironia. Champanhes estouradas, o show se encerra com “Eu Te Proponho”, outra boa composição de Cores & Valores, novamente com letra mais romântica em relação às pesadas críticas de 20 anos atrás.

Dizer que os Racionais se venderam é ter uma noção completamente distorcida do que é música comercial. Além disso, é bom lembrar que o disco anterior, Nada Como Um Dia Após o Outro, é de 2002. Nesse período, o Brasil mudou, o mundo mudou, é natural que os caras tenham mudado também. A música, porém, segue relevante, e o show continua valendo.

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