Texto Giulia Barão

Livro é o romance de estreia da escritora Julia Dantas (Imagem: divulgação)
Livro é o romance de estreia da escritora Julia Dantas (Imagem: Não-editora/divulgação)

Poucas crenças parecem-me tão unânimes entre a geração de vinte e pouco a trinta anos quanto a do valor existencial de colocar uma mochila nas costas e sair caminhando mundo afora. Crença que deriva em amor – amor pelas histórias de viagem, reais e ficcionais. Lembremos, por exemplo, do sucesso contemporâneo dos livros e filmes On The Road – Na Estrada e Na Natureza Selvagem. Por assim dizer, a juventude do século XXI acredita no poder transformador da aventura além-fronteira e isso se reflete nas suas manifestações artísticas e nas opções de consumo cultural.

Alguns poderão argumentar que a viagem é tema fundador da cultura ocidental e apontar sua onipresença na literatura desde tempos imemoriais. Concordarei, fazendo a ressalva de que se antes ela era privilégio de heróis e navegadores, agora está acessível a nós – não tão pobres – mortais, e essa diferença não deixa de aparecer em sua representação literária.

Eis uma das reflexões – entre suspiros e apnéias – que Ruína y Leveza (Não Editora, R$ 39,90), livro de estreia da gaúcha Julia Dantas, pode provocar. Finalista do Prêmio Açorianos de Criação Literária – para livros inéditos – em 2014, o romance nos convida a um mochilão pela América Latina, bem ao estilo daquele que alguns planejam fazer nas próximas férias, sem perder, contudo, a autenticidade da trajetória de Sara, protagonista e narradora em primeira pessoa.

O catalisador de sua viagem é a desilusão com um estilo de vida que ela não descarta, mas que sente a necessidade de adiar quando perde o emprego e termina seu relacionamento amoroso com Henrique. Casar, ter filhos, trabalhar doze horas numa agência de publicidade e ser feliz aos finais de semana nunca fora o ideal no imaginário de Sara, mas um horizonte que ela vislumbrava como bom o bastante até o seu total desmoronamento. Sem ter para onde ir e tampouco por que ficar, Sara decide transpor seu horizonte, ainda que temporariamente, para além do perímetro porto-alegrense, e compra uma passagem aérea para o lugar mais longe que suas reservas podem pagar, e que acaba sendo Lima, no Peru.

Acompanhamos a história de Sara em capítulos que intercalam a trajetória de sua viagem com os acontecimentos que antecederam e provocaram a decisão de cair na estrada. Além de excertos do que seria um diário de sonhos, numerados aleatoriamente como parte de um grande conjunto ao qual só temos acesso parcial, mas que contribuem para uma aproximação ao imaginário da narradora. O enredo tem os ingredientes que leitores-viajantes-contemporâneos desejariam encontrar numa narrativa desse gênero – amizades temporárias e nem por isso menos transformadoras, reflexões sobre diferenças culturais, questionamentos sociais, crises que a distância de casa e o enfrentamento da própria solidão se encarregam de trazer à tona. Um ingrediente essencial desse cenário é a relação com Lucho, um argentino taciturno, acostumado a vagar pelo continente americano, que Sara conhece por acaso no aeroporto de Buenos Aires e que  acaba se tornando seu parceiro de viagem.

O grande trunfo de Ruína y Leveza não está no enredo, aparentemente banal, mas na construção consistente da voz narrativa. O andamento da história é fluido sem perder a densidade dos monólogos interiores de Sara; passagens de autoironia e fino humor dividem espaço com trechos comoventes. E dentre tudo isso, destaca-se a aptidão de Julia para a descrição, arte que segundo Ítalo Calvino (em Seis Propostas para o Próximo Milênio) estaria se perdendo no afã contemporâneo pela prosa objetiva de tom despojado. A obra de Dantas vai na contramão dessa ideia, conseguindo um saudável equilíbrio entre ação e descrição, que não cansa o leitor mais ansioso, tampouco deixa de brindar quem aprecia o ritmo mais lento das descrições ou divagações reflexivas.

Arrisco dizer que a busca pelo equilíbrio permeia toda a construção de Ruína y Leveza. Sara parte sem saber o que encontrar e descobre em si mesma a possibilidade de ver a própria vida com um olhar menos grave, diante da grandeza e o peso do mundo lá fora. Adoça a angustia trágica do olhar adolescente com a leveza esperançosa de uma jovem adulta, que tem toda a vida e quase toda a América pela frente.

Julia escreve com densidade e emoção, sem excessos sentimentais, com belas descrições de paisagens – interiores e geográficas – sem perder o pulso acelerado da vida e da narrativa contemporânea. Para além da experiência prazerosa de acompanhar a aventura de Sara, vale apreciar, em primeira mão, o surgimento de uma escritora que, diferentemente da protagonista do romance, parece saber muito bem para onde está indo.

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